PUC-Rio / Departamento de Artes & Design
Análise Gráfica / 2003.2
Prof. Edna Lúcia Cunha Lima
O papel do design gráfico – a identidade visual da cidade.

Alunos: Ligia Moraes e Marcelo Vilela



Rua do Catete

Introdução

Dentre os diversos bairros que compõem a cidade do Rio de Janeiro, o bairro que mais nos chamou atenção, para desenvolver o trabalho de análise gráfica, foi o Catete, que embora rodeado de ícones da paisagem urbana carioca como as Laranjeiras, o Aterro do Flamengo, Santa Tereza e a Glória, preserva uma identidade particular.

O Catete é um pedacinho de terra, com poucas ruas, espremido entre o mar e o morro. Existem escritos que traduzem a palavra catete como: “mato escondido” ou “mato cerrado” e ainda traduções que dão a palavra significado de “pássaro que come milho”, “mato de planície irrigada” e “milho pequeno”.

O espírito urbano está muito presente no bairro, no corre - corre nas calçadas, no entra e sai das lojas populares e bancos, no intenso fluxo do metrô e das linhas de ônibus, no burburinho dos estudantes, na fumaça das churrasqueiras na esquina, e que dá vida ao Catete.

Analisando o trecho da Rua do Catete que vai da Corrêa Dutra à Martins Ferreira, o que nos chamou mais atenção foi o comércio bastante exaltado e diversificado. Encontramos um comércio bastante antigo convivendo em harmonia com estabelecimentos mais recentes, e nos propomos a estudar a forma com que estes estabelecimentos se projetam e coexistem dentre tanta diversidade.


A sinalização original permanece intacta,
não sofrendo alteração com o projeto RIO-CIDADE.

 

Arquitetura e Comércio

O Catete tem uma história rica, é testemunho vivo da memória nacional, pelo bairro passaram presidentes, reis, rainhas e imperadores. Cenário do suicídio de Getúlio Vargas, tragédia maior da história recente do Brasil e imortalizado nas exposições permanentes no Museu do Palácio.

Mais do que um cenário privilegiado dos principais acontecimentos do país, o Palácio é uma espécie de personagem silencioso, sempre presente na nossa história, desde os tempos do Imperador D. Pedro II até a transferência da capital federal para Brasília, em 1960, quando se torna o Museu da República.

No Palácio do Catete, a volumetria quase cúbica e vertical tem uma relação direta com os palácios do Renascimento florentino e veneziano. O desenho das fachadas supera o purismo do Renascimento - que continua no Neoclássico, pela persistência das simetrias compositivas, e pela igualdade dos elementos nas fachadas do prédio. No caso do Palácio, as quatro fachadas são diferentes, baseadas nas expressão das funções internas e no relacionamento com o contexto urbano.

A fachada do palácio tem o máximo valor simbólico do prédio. A decoração demonstra a significação da porta como elemento principal da composição, que aparece se afirmar tanto nos elementos ornamentais que definem a janela central do segundo andar como no coroamento na cornija.

Os elementos mais importantes, ao identificar–se o simbólico dentro da perspectiva do prédio na cidade, são as águias e as esculturas colocadas em diferentes momentos sobre a cornija do prédio. Esta substituição do valor arquitetônico na percepção do prédio pela figuração ou decoração é característico do barroco, e está presente nas construções ao longo da rua do catete.

Muitos estudiosos de arquitetura concordam que não há um estilo definido no bairro do Catete e até mesmo no Rio de Janeiro de uma forma geral, mas existem alguns que consideram essa própria falta de estilo como sendo um “estilo” em si.

No final do Império o bairro do Catete foi perdendo muito de seu “glamour”, muitos casarões viraram casas de comércio ou hotéis; hotéis estes mais baratos, o que atraiu muitos estudantes, geralmente vindo de outras regiões do Brasil, e “inaugurou” a vida boêmia do bairro, com isso vieram muitos jornalistas, escritores, poetas etc.

O Catete, que já foi o centro do poder do país, hoje se divide entre o burburinho febril do comércio e a silenciosa majestade de cada árvore centenária dos jardins do Palácio e pequenos bosques de tranqüilidade interiorana incrustado em meio ao caos urbano.

A conservação urbana não é um dos pontos fortes do bairro, mas podemos apreciar o que resta da arquitetura local ainda preservada, sobrados e solares que resistem até hoje, alguns dos portões em forma de arco que fazem parte da confusa arquitetura do bairro e que eram entrada para cavalos e carruagens e as “vilas” que serviam com cavalariças, e que deram lugar a um comércio efervescente e bastante variado, onde lojas de discos usados, sebos literários, barbearias, papelarias, convivem juntos, disputando fregueses com os camelôs e carrocinhas de ambulantes em suas calçadas largas.


O banco BANERJ é exemplo de um “comércio moderno”
inserido na arquitetura imperial.
Suas portas de madeira preservam o espírito do bairro.

Já a Papelaria do Catete tem quarenta anos de prestação de serviço à comunidade. A papelaria possui uma linha variada de produtos (material escolar, eletrônicos, brinquedos, utensílios domésticos) e serviços (xerox, encadernação, plastificação). Na tentativa de divulgar a diversidade de produtos e serviços prestados, o comerciante recorre a um grande volume de anúncios que se sobrepõem uns aos outros, causando um verdadeiro caos visual. Este é um exemplo típico de excesso de informação, não havendo qualquer espécie de ordenação ou priorização das informações.

Neste comércio heterogêneo, voltado para atender a população local, podemos perceber o contraste existente entre o comercio moderno e o antigo. Como exemplo podemos citar a lanchonete Big Néctar e um boteco sem qualquer identificação, que convivem um ao lado do outro.

A lanchonete “Big Néctar” constitui um dos estabelecimentos mais modernos da região. A logo marca, um beija flor bebendo do néctar, remete ao nome da lanchonete. Entretanto, a marca, por ter um caráter moderno, destoa do serviço oferecido e da clientela.


Ao lado da lanchonete Big Néctar existe um boteco sem qualquer identificação

 

Patrimônio Cultural

O bairro do Catete integra uma das Áreas de Proteção do Ambiente Cultural (APAC). A colocação de todo e qualquer tipo de anúncio indicativo ou publicitário, que encubra total ou parcialmente os elementos morfológicos das fachadas está terminantemente proibida.

A autorização para colocação destes anúncios nos prédios que integram as APACs tem de obedecer à algumas regras.

Anúncios paralelos à fachada:

I – Deverão ser encaixados nos vãos das portas, faceando a parte inferior das vergas, sem se projetar além do alinhamento da fachada.

II – Deverão permitir uma altura livre mínima de 2,20m medida do piso à face inferior do letreiro.

III – Terão dimensão máxima de 0,50m no sentido da altura.

IV – Serão permitidas somente no pavimento térreo.

V – Será permitida a utilização dos seguintes matérias:

a) acrílico ou similar – quando o comprimento do anúncio não ultrapassar a 2,00m.

b) chapas de madeira,vidro ou metal – para vãos em qualquer dimensão.


Anúncios perpendiculares à fachada:


A proprietária atribuiu o seu próprio
nome ao estabelecimento.

I – Deverão ser fixados na parede, desde que respeitem uma altura livre de 2,80m, medida do passeio à face inferior do anúncio.

II – Terão dimensões máximas de 0,08m de comprimento, 0,50m de altura e 0,20m de espessura devendo deixar um espaçamento de no máximo 0,15m do alinhamento das fachadas.

III – Deverão permitir uma distância livre de 1,00m do meio-fio da calçada, quando se trata de vias de tráfego de veículos.

IV – Quando a fachada for totalmente revestida de cantarias anúncios poderão ser fixados na bandeira dos vãos de abertura, observando-se um afastamento máximo de 2,20m.

V – Serão permitidos somente no pavimento térreo.

VI – Será permitido a utilização dos seguintes materiais: acrílico ou similar e chapas de madeira, vidro ou metal.


Quanto ao uso de cores:

Tanto nos anúncios paralelos quanto nos perpendiculares à fachada, deverão ser obedecidas as normas abaixo:

a) quando se trata de anúncios confeccionados em acrílico, é permitida uma cor de fundo e no máximo duas cores para as letras;


O anúncio da LUBEPI MÓVEIS, em chapa de acrílico,
tem o branco como cor de fundo e as
cores azul e vermelha (cores primárias) para as letras.

b) quando se trata de anúncios confeccionados em chapa de madeira, metal ou vidro iluminados em néon, é permitido o uso de no máximo três cores.


Quanto à iluminação:


Tanto nos anúncios paralelos quanto nos anúncios perpendiculares à fachada, a iluminação deve ser:

a) embutida no anúncio em qualquer caso;


O anúncio do banco BANERJ, perpendicular a fachada,
possui uma iluminação embutida.

b) externa, quando se trata de chapas de madeira, metal ou vidro, sendo permitido a colocação de um spot de no máximo 100 watts para cada metro de comprimento dos anúncios. Os spots devem ser fixados no próprio anúncio e seu diâmetro não pode ultrapassar a 10 cm. No caso de anúncios perpendiculares á fachada admite - se um spot para cada face do anúncio.


O letreiro do Salão York e da Farmalivre, possuem um spot de luz externo,
embora não esteja fixado no próprio anúncio.


Já o anúncio da Officedente possui um spot de luz para cada
metro de comprimento do anúncio, estando esses fixados ao letreiro.

É permitido o uso de néon nas letras e / ou no emolduramento das chapas de madeira, metal ou vidro; no caso de emolduramento é permitida no máximo duas linhas de néon.

A maioria dos estabelecimentos comerciais ao longo da Rua do Catete, não respeitam as normas estipuladas para a colocação dos letreiros. Muitos anúncios encobrem elementos construtivos que fazem parte da morfologia original da fachada, como: colunas, gradis, portas de madeira e vergas em cantaria.

Na foto abaixo podemos observar a irregularidade dos anúncios quanto às dimensões de comprimento, altura e alinhamento das fachadas.


Esta é a única placa que segue as normas
(dimensões, material, altura e cores)

Conclusão

Chegamos à conclusão que o design presente no comercio local pode ser considerado formal quando analisado do ponto de vista histórico – cultural, tendo em vista o longo tempo de funcionamento da maioria dos estabelecimentos e os recursos utilizados pelos comerciantes para promover suas lojas, e que sobrevivem até os dias atuais.

Quando analisado no contexto atual este design se torna obsoleto, informal, pois não acompanha a evolução do comércio no que diz respeito aos produtos e serviços oferecidos. É notório a falta de uma identidade visual para o comércio, onde letreiros e anúncios dos mais diversificados tamanhos, formatos e materiais, com variação de cores, desenhos, do jeito de usar a tipografia e de enquadramento, tornam o ambiente bastante confuso visualmente. Talvez esta própria falta de identidade seja considerado um “estilo visual”.

Embora confuso, o comércio não deixa de ser eficiente. A atuação de um design no bairro, padronizando-o, propondo maior coerência entre os estabelecimentos e seus serviços talvez não seja cem por cento eficaz, uma vez que o comércio tem tradição em atender as necessidade locais e por possuir um grupo de consumidores bastante específico. Por outro lado, precisa de organização com relação à hierarquia entre as informações, oferecendo melhor seus produtos e serviços.

Bibliografia

Rio de Assis - Images Machadianas do Rio de Janeiro.
CARRER, Aline
GLEDSON, John
MENEZES, Pedro
Editora casa da palavra / 1999

Sites:

www.bairrodocatete.hpg.ig.com.br
www.odia.ig.com.br/odia/sites/bairro/catete.html