PUC-Rio / Departamento de Artes & Design
Análise Gráfica / 2003.2
Prof. Edna Lúcia Cunha Lima
O papel do design gráfico – a identidade visual da cidade.

Aluno: Mateu Velasco



Rua General Glicério

Introdução:

Realmente nunca havia reparado muito nos letreiros e na sinalização da rua em que morei durante 16 anos da minha vida (no caso, a rua General Glicério, uma das principais do bairro de Laranjeiras). O mais curioso é que costumo prestar muita atenção em outros bairros em que estou só de passagem. A realização deste trabalho fez com que pudesse perceber algumas questões que envolvem a minha profissão, e refletir sobre a atual importância do design nos dias de hoje e sobre qual caminho seguir.

O Bairro de Laranjeiras:

Inicialmente, tudo o que existia onde hoje conhecemos como bairro de Laranjeiras era o vale do rio Carioca, uma das principais fontes de água doce para os primeiros habitantes da cidade do Rio de Janeiro. A farta quantidade d’água proporcionou a muitos fidalgos a possibilidade de ali se instalarem e construir as primeiras lavouras para o sustento próprio. Posteriormente, as plantações de café se transferiram para o vale do Paraíba e rapidamente o local, antes formado apenas por grandes fazendas, cedeu lugar a uma ocupação cada vez mais constante de casas de alto luxo, interesse dos fidalgos que, com o desmembramento de suas antigas propriedades começaram a construir sítio e chácaras confortáveis, atraindo até mesmo altos membros da corte portuguesa para o local. É possível ainda se deparar com verdadeiras mansões, principalmente na rua Cosme Velho, continuação da rua das Laranjeiras. Em 1850, com a proibição do tráfico negreiro, a densidade populacional aumentou de forma considerável, e rapidamente surgiram as primeiras via e ruas de acesso ao bairro, entre elas a Rua das Laranjeiras, que ligava o Largo do Machado até o Cosme Velho e a rua Paissandu, que ligava a residência da princesa Isabel até o Mar. No início do século XX o rio carioca acabou sendo canalizado e diversas ruas foram asfaltadas, dando lugar a cada vez mais construções na região. O rio Carioca, antes denso e caudaloso, hoje se encontra quase sem água, com apenas uma pequena parte à mostra, e canalizado, passando mesmo por baixo da entrada da Rua General Glicério. A partir da década de 70 o surto imobiliário chegou ao seu auge, e hoje podemos encontrar inúmeros prédios com mais de vinte pavimentos por toda a região. Com o crescimento demográfico da região, é natural que o comercio tenha evoluído junto da região, e hoje podemos encontrar os mais diversos tipos de estabelecimentos comerciais, até mesmo em ruas adjacentes como a própria General Glicério.

A Rua:

Inicialmente era chamada Rua Aliança, em menção a uma enorme fábrica de tecidos que ocupava quase toda a região em que hoje se encontra a rua General Glicério. Com a falência da fábrica, em 1935, foram erguidos no local 13 prédios de arquitetura de valor histórico, que até anos passado (2002) se encontravam tombados pelo patrimônio histórico nacional. A chegada de uma população local rapidamente fez com que surgisse um comércio voltado para os moradores do local, como acontece até os dias de hoje.
Ao analisar o comércio da rua, pude dividir o comércio em dois tipos distintos: aquele localizados no início da rua, perto da rua das laranjeiras e aqueles situados mais acima da rua.

O comércio na entrada da rua, perto da rua das Laranjeiras:

Este comércio se encontra menos diversificado do que o outro, provavelmente por se situar perto de grandes concorrentes que atendem a uma fatia maior do mercado como supermercados e outros similares. Lá se encontra também um banco Bradesco que, apesar da proximidade de um outro Bradesco no mesmo bairro, atende à população não só da rua General Glicério como também do Cosme Velho. Talvez seja este o único exemplo no início da rua que tenha uma identidade visual criada por algum designer, talvez pelo tamanho e importância do estabelecimento e pelo fato de que um banco deve passar uma sensação de segurança e profissionalismo para seus clientes. Os demais estabelecimentos comerciais parecem não ligar muito para a questão da identidade visual, talvez por que já estejam instalados ali há anos, mantendo sempre uma relação muito pessoal com cada cliente, tanto que conhecemos cada um deles pelo nome do dono.

Esta é uma loja de sucos presente na esquina da rua. O letreiro, feito de plástico, é relativamente comum em padarias e lanchonetes que surgiram na década de 80. Apresenta pequenas ilustrações (vinhetas) do que é produzido lá. Curiosamente não conseguimos encontrar a maioria dos produtos do letreiro, isto é, a informação contida nele realmente não influencia os consumidores. Apresenta letras sem serifa sobre um fundo amarelo de plástico que se ilumina na parte da noite. Digamos que o dono há muito já não precisa de uma informação visual apurada para conquistar clientela.

Este estabelecimento especializado em produtos laticínios se utiliza em sua fachada do nome de um dos maiores fabricantes do gênero no estado do Rio de Janeiro. A primeira vista a tipografia conhecida passa uma certa credibilidade ao consumidor que, inevitavelmente associa a loja ao produto. É engraçado notar que ao entrar encontramos não só produtos Normandia como também de seus concorrentes em abundância.

O Bradesco é o maior banco privado do país e, recentemente passou por uma reforma em sua identidade visual. A agência foi reformada e hoje se encontra com novo logotipo e fachada totalmente modernizada. Antes se apresentava em Letreiros de Plástico iluminados remetendo a um outro período de nossa história visual. Hoje se apresenta com técnicas que antes não eram tão difundidas como recortes em vinil e recortes em alumínio, um misto de projeto de produto e programação visual, mostrando a nova tendência de aplicação de identidade visual e sinalização nos dias de hoje.

É uma creche relativamente nova no local, que ocupou uma construção antiga que como podemos perceber remete a um período arquitetônico mais antigo, raro nos dia de hoje. O logotipo da escola se mostra trabalhado por alguém que tem uma mínima noção de design, a julgar pela brincadeira com a tipografia e a escolha da família e cores. Pode não ser do gosto de todos, porém remete ao tipo de serviço oferecido lá. É pena que a aplicação tenha deixado a desejar, já que se encontra aplicada sobre uma lona “provisória”, o que empobrece muito a marca da creche.

O comércio na parte de cima da rua:

Mais acima da rua podemos notar que a maioria dos estabelecimentos comerciais se encontra ali há anos, sem nem mesmo mudar de dono. A relação entre o dono do estabelecimento e sua clientela é totalmente pessoal, o que remete ao início do século passado, quando meus avós conheciam cada um dos proprietários dos locais em que faziam compras. Dificilmente se formos a um supermercado ou a um banco saberemos quem é o proprietário do local e muito menos ele estará disposto a ouvir o que temos a dizer. É como o comércio de uma cidade do interior, em que os donos do bar ou da padaria são praticamente moradores da rua.

Este é um exemplo clássico de como um estabelecimento que nunca sequer teve um nome consegue sobreviver a anos no mesmo local. É um botequim, um “pé-sujo” clássico, que se mantém a anos as custas dos mesmos fregueses que reconhecem o estabelecimento como “bar da dona Vera”, portuguesa, dona de boteco que, assim como em outros bairros, sobrevive a anos no mesmo lugar sem nenhum investimento em identidade visual ou em higiene, tradição da cidade do Rio de Janeiro.

Um similar ao bar da Dona Vera, mas sob a forma de mercearia. Nunca teve letreiro ou qualquer tipo de sinalização, porém existe a anos no mesmo local, com clientela fixa. O nome real é Mercado Social, porém não há um morador na rua sequer que ligue a loja ao nome. Mais uma vez podemos notar que uma identidade visual forte não garante sucesso em comércios bairristas.

Este é um exemplo curioso de identidade visual: Não há tipografias nem pictogramas. Não há nem mesmo um anúncio ou marca de outro produto que indique o tipo de serviço oferecido no local. Há apenas um toldo laranja que garante a identidade de muitos anos que cativou um público fiel que lá pode consumir produtos de um padrão mais elevados ou mesmo degustar bons vinhos. É um estabelecimento voltado principalmente para aqueles com um poder aquisitivo mais elevado, o que é uma pequena parcela do bairro. Talvez nem mesmo aquele de classe social mais alta necessitem de grandes projetos visuais para se sentirem a vontade em um estabelecimento comercial.

Este estabelecimento apresenta um misto de técnicas atuais e técnicas mais antigas. De um lado do letreiro podemos notar a tipografia totalmente manual, quase naïf, contrastando com o recorte em metal que compõem o lado oposto. Não há diálogo entre as duas, muito menos nexo. Olhando isoladamente sequer conseguimos relacionar o nome ao serviço oferecido (esta loja é um brechó). Tentando se apresentar de forma moderna, o dono do estabelecimento conseguiu criar um belo exemplo de design vernacular.

Este é um estabelecimento um tanto recente na rua. O dono abriu duas lojas no mesmo local e utilizou de letras douradas e garrafais para dar um certo status e credibilidade ao seu negócio. Quanto a utilização tipográfica acho pobre, sem grandes intenções, muito “comportada”. Se apresenta muito equilibrada porém não muito ousada.

Há anos no mesmo local este armarinho talvez só exista até hoje por se tratar de um revendedor da Hering, um dos maiores fabricantes de roupas do país. É enorme o abismo entre a tipografia da loja e o da marca Hering. A tipografia, que sofre para imitar uma fonte script ou handwrite, só faz realçar o carátervernacular do estabelecimento.


Conclusão:

Poder conhecer melhor a história do bairro e toda a sua trajetória de ocupação fez com que eu pudesse entender melhor a relação dos comerciantes com seu público e com o próprio estabelecimento de que são donos. Talvez hoje eu entenda a falta de um investimento na identidade visual de cada loja e o por que de eu nunca ter reparado muito nisso. Hoje vejo que para se construir um negócio de sucesso e de vida duradoura é preciso muito mais do que uma boa aparência, pois o público consumidor nem sempre compra marcas, mas sim intimidade e confiança.