|
PUC-Rio / Departamento de Artes & Design Alunos: Bruno Rondinelli e Juliana Rocha
Largo do Machado
Introdução
Escolhemos como objeto de análise a região do Largo do Machado, ponto de interseção entre o Catete, o Flamengo e Laranjeiras.
A área possui forte identidade histórica e foi durante muito tempo, e ainda é, de forma mais discreta, um importante centro cultural da cidade do Rio de Janeiro. Até pouco tempo atrás, haviam lá dois grandes cinemas - Cinema Largo do Machado e Cinema São Luiz, o último ainda existe - além de livrarias, bares e restaurantes tradicionais. A praça ainda é utilizada para eventuais feiras de livros usados, e abriga constantemente floriculturas e outros tipos de comércio informal. A impressão que se tem, em diversos momentos, é que o tempo custa a passar, o que é reforçado pela presença constante de moradores antigos das redondezas, que se encontram com freqüência para jogos como o xadrez, damas e baralho.
Contexto Texto O atual Largo do Machado teve diversos nomes em diferentes épocas. Na época da fundação da cidade, era um terreno como um pântano ou um lago, por esse motivo, era conhecido como Lagoa do Suruí. Depois, conhecido como Lagoa da Carioca, foi aterrado e passou a ser conhecido como Campo das Pitangueiras, ainda depois, Campo das Laranjeiras, mais tarde, Campo ou Largo do Machado, e Praça da Glória em 1843, quando foi criada a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória. Por uma portaria municipal, mudou de nome novamente, passando a chamar-se Praça Duque de Caxias em 1880, após a morte do Patrono do Exército Brasileiro. Voltou tempos mais tarde a chamar-se oficialmente Largo do Machado, novamente voltou a ser chamada Praça Duque de Caxias e só para não perder o hábito, voltou a chamar-se Largo do Machado. O largo não tem esse nome devido ao escritor Machado de Assis, apesar de muitas pessoas hoje em dia ainda afirmarem isso. Em 1843, quando o largo mudou de Machado, para Praça da Glória, Machado de Assis tinha apenas quatro anos de idade, pois ele nasceu em 1839, e, como vimos, o largo já tinha esse nome muito tempo antes. Nenhum nome, além de Largo do Machado, caiu nas graças do povo. A história mais aceita sobre a origem do nome é que, na época em que o local ainda era conhecido como Lagoa do Suruí, havia um açougue cujo dono, para chamar a atenção da freguesia, pendurou à porta um enorme machado - símbolo bastante adequado às suas atividades. A lagoa, como tantas outras, foi aterrada e o açougue, extinto. Mas o nome pegou e perdura até hoje.
O Largo do Machado hoje ainda preserva muito da identidade arquitetônica, assim como seus freqüentadores mantêm os hábitos boêmios do Rio antigo.
Pesquisa O que chamamos de Largo do Machado é a área
circundante à praça de mesmo nome. Apesar de ser de domínio
público, o nome Largo do Machado não aparece como denominador
da praça em sob forma de sinalização. A referência
que encontramos é a da entrada/saída da estação
de metrô de mesmo nome.
O que foi constatado pelo grupo durante o estudo
do local foi o contraste entre o tradicional e o novo nessa área
história da cidade. Este é também visível
na maior parte do centro do Rio e, nos diversos bairros antigos que
o cercam. :: Grupo 1: Identidade Tradicional :: Entendemos por tradicional aquelas identidades as quais são antigas de fato, ou fazem referência, visualmente falando, a essas identidades mais antigas do comércio. Essas segundas tentam manter um diálogo harmônico com o padrão estético existente no local. Estão nesse grupo, não só as instituições de comércio antigas, mas também aquelas que, apesar de estarem no local há menos tempo, tentaram estabelecer um diálogo com o que já havia por lá a partir da criação de uma identidade moldada em padrões tradicionais. 184 Estação Largo do Machado:
Restaurante. Tipografia em alumínio escovado sobre placa de acrílico. Iluminação frontal e com néon. Utilização de tipografia serifada, ausência de alegoria figurativa para identificação de uma marca. A diferenciação se detém à escolha dos materiais e a uma linha de néon ao redor do nome. O efeito é positivo à noite, quando o néon vermelho reflete no alumínio, criando um aspecto sóbrio e nostálgico. Adega Portugalia:
Culinária portuguesa. Letreiro impresso em acrílico com backlight. Possui um outro letreiro lateral, em acrílico, com a tipografia montada sobre uma placa formada de faixas verticais do mesmo material, não iluminado. Utiliza outros suportes para informações adicionais, como faixa de plástico com tipografia pintada à mão. Combinação de tipos sem serifa, desenhados e manuais. A variedade de suportes e materiais acaba por reforçar uma imagem de boteco, característica de bares/restaurantes portugueses de áreas mais antigas da cidade. Casa Realce:
Loja de uniformes, enxovais, lingerie e vestimentas em geral. Letreiro em acrílico ou fórmica, com os tipos montados sobre uma placa do mesmo material. Iluminação de luz fluorescente atrás da tipografia. Apresentação característica de lojas do início do século passado. Tipos desenhados, ausência de um símbolo que determine uma marca com identidade, poucas cores. Estilo:
Vestuário Masculino. Letreiro em acrílico, com a tipografia montada sobre uma placa do mesmo material. Iluminação de luz fluorescente atrás da tipografia. Tons terrosos e tipos elegantes, sem serifa, denunciam o tipo de produto comercializado na loja: ternos e outras vestimentas para homens discretos e senhores. Galeria Largo do Machado:
Galeria onde se encontram lojas de vestuário, bares e restaurantes. Não possui letreiro indicativo ou identidade especificada em fachada. O comércio localizado na mesma dá pouca importância à forma como seu nome aparece. São muito tímidos, em relação a lojas de rua, e confiam mais em uma divulgação boca-a-boca e na fidelidade do cliente. Gambino:
Culinária italiana. Letreiro em acrílico, com a tipografia montada sobre uma placa do mesmo material, e iluminação frontal. Possui um outro letreiro lateral, em material próximo à lona, impresso em serigrafia, não iluminado. Combina tipos sem serifa e caligráficos. São usadas duas cores, vermelho e verde, sobre fundo branco. Juntas, as três, são as cores da bandeira da Itália, o que ajuda na identificação do local. A iluminação frontal, auxiliada por postes tortos pintados de verde, e o toldo com sua borda ondulada, remetem a locais históricos, onde a tradição é importante e fachadas são preservadas. Instalado há não muito tempo no Largo do Machado, o restaurante harmonizou-se com o local através da referência à Europa - lembrada por nós como o berço da humanidade. Jardim Largo do Machado:
Papelaria e livraria. Material de escritório, escolar, de informática, etc. Letreiro em lona impresso com serigrafia. Iluminação frontal. Existe outro letreiro, em menor escala, na parte superior da porta de entrada, em acrílico, impresso em serigrafia. Iluminado por backlight. Não é uma loja antiga. O ponto sempre foi de papelarias e livrarias, mas foram diversas durante os anos. A Jardim Largo do Machado foi inaugurada no final dos anos 90, ou início dos anos 00, mas sua identidade visual parece com outras que foram criadas há muitas décadas atrás. Rapidamente associada ao design vernacular - aquele que não é feito por designers ou através de um processo projetual - ela possui uma logomarca (no detalhe da imagem), mas essa não possui identidade forte. O diferencial da mesma em relação à outras, características de papelarias e livrarias antigas, é inexpressivo. Petisco Largo do Machado:
Bar e Restaurante. Letreiro impresso em acrílico com backlight. Associação direta com botecos de outras partes da cidade. O diferencial fica por conta da fidelidade dos fregueses. Comércio informal:
Floriculturas, vendedores de algodão-doce, carrinhos de produtos de milho (cural, pamonha, etc). Informações são dadas através de tipografia pintada à mão. :: Grupo 2: O Novo :: Aqui se encontra o comércio há pouco instalado no local, e aqueles, que lá estão há tempo, mas tiveram sua identidade alterada para tentar alcançar a contemporaneidade. É dominante na quadra da Galeria São Luiz, toda tomada por franquias de fast-food. O contraste é evidente em relação ao ambiente, devido principalmente à tonalidade das cores utilizadas em suas fachadas, e à forte identidade corporativa das empresas.
Bob's:
Lanchonete fast-food. Letreiro de acrílico impresso com serigrafia. Iluminado com backlight. Após a criação dessa nova identidade visual, o Bob's distanciou-se consideravelmente do local. É, junto com a Domino's, a oposição extrema aos padrões estéticos da região. Bradesco:
Banco. Letreiro de acrílico colorido montado com a tipografia. Iluminado por backlight, somente no logotipo. É mais minimalista do que estabelecimentos como o Bob's e a Domino's, mas não se integra com sucesso. Possivelmente devido à ausência de informações. City Farma:
Drogaria. Letreiro em lona impresso com serigrafia. Iluminado com backlight. Crystal Photo:
Loja de fotografia - revelação e equipamentos fotográficos. Letreiro de acrílico impresso com serigrafia. Iluminado com backlight. Logomarca Kodak em evidência. Utiliza vários outros suportes para informações adicionais, como faixa de plástico com tipografia pintada à mão. É, praticamente, uma agressão visual. A cor grita, assim como a repetição da marca Kodak, deixando quase invisível a logomarca da loja. Domino's Pizza:
Pizzaria fast-food. Caixas de acrílico com impressão da tipografia e símbolos em serigrafia. Iluminado com backlight. O excesso de cores contrastantes, as formas exageradas e as letras imensas, fazem da Domino's uma aberração no ambiente do Largo do Machado. A situação é amenizada pela presença da Galeria São Luiz ao lado. Drogaria Pacheco 24 horas:
Drogaria. Letreiro em acrílico, com a tipografia montada sobre uma placa do mesmo material. Símbolo da marca é impresso com serigrafia sobre o acrílico. Iluminado com backlight. O letreiro é repetido em menor escala na parte superior da porta de entrada. O tamanho da tipografia acompanha o tamanho do estabelecimento, que à noite se transforma em um holofote projetado sobre a calçada. Galeria São Luiz:
Galeria onde se encontram salas de cinema, lanchonetes, restaurantes e uma livraria. Suporte de metal com letreiro em alumínio escovado sem iluminação. Tira partido do metal que reflete a iluminação do ambiente. Apesar de toda a imagem high-tech que a galeria passa, as cores utilizadas em sua identidade foram bem dosadas, o que faz com que ela seja o lado agradável do "Novo". Línea HC:
Vestuário feminino. Caixas de acrílico colorido montado com a tipografia, e impressão de fotos. Iluminado por backlight. Passa elegância com uma identidade discreta. As fotos a distancia dos elementos tradicionais. Mister Pizza:
Pizzaria fast-food. Letreiro em acrílico, com a tipografia montada sobre uma placa do mesmo material. Possui impressões em serigrafia. Iluminado por backlight. Marca figurativa usada em conjunto com uma tipologia. A primeira é aplicada em tamanho excessivamente reduzido, enquanto a segunda, em tamanho excessivamente ampliado. Papelaria Holiday:
Material de escritório, presentes, brinquedos, carimbos, etc. Letreiro em lona impresso com serigrafia. Iluminado por backlight. É uma casa tradicional do Largo, que teve sua identidade reformulada há pouco tempo. Foram infelizes, tanto a escolha das cores, quanto a tipografia em caixa alta, que não tem a suavidade da utilizada, por exemplo, no restaurante Gambino. Mantiveram o tapete, muito utilizado na entrada de estabelecimentos comerciais locais. Parmê:
Pizzaria fast-food. Letreiro de acrílico colorido montado com a tipografia. Iluminado por backlight, somente no logotipo. Apesar de seu letreiro se aproximar da identidade tradicional, os anúncios de promoções e o interior da loja a afasta da mesma. Seria o caso mais próximo de uma harmonia entre o novo e o tradicional. Suco Legal:
Lanches e sucos. Letreiro em acrílico, com a tipografia montada sobre uma base do mesmo material. Iluminado por backlight, com contorno em néon. O contraste das cores é acentuado pela luminosidade do material usado como suporte. A imagem da maça, excessivamente detalhada, é praticamente ignorada quando inserida em um meio com tanta informação.
Conclusões O design é apresentado de maneira contrastante no Largo do Machado. Por um lado, existe o design que, apesar de poder ter sido feito por designers, ou, em alguns casos, ter sido feito recentemente, tem características que se harmonizam com o lado histórico da cidade e, em especial, com o padrão histórico do Largo. Esse não "briga" com o design feito por não-designers, chamado design vernacular, tão característico do comércio informal da praça. Por outro lado, existem as grandes empresas, de comércio alimentício em sua maioria, que se instalaram no local há menos tempo. Possuem identidades corporativas fortes criadas por designers através de processo projetual. Essas destoam do ambiente, devido ao excesso e às combinações contrastantes de cores e formas, quando próximas aos comércios há muitos instalados no local, além de destoar do local em si - patrimônio histórico da cidade, habitado e freqüentado, em sua maioria, por aposentados. A função do designer em um contexto como esse seria fortalecer a identidade local ao invés de desafia-la. Promover acréscimos e mudanças que não façam com que o lugar perca seus atrativos. É considerado como design o resultado de um projeto. A criação
em design passa pelo ato intelectual, em busca de adequação
do objeto à sua função, ao público, e ao
meio ao qual ele será inserido.
Bibliografia DENIS, Rafael Cardoso. Uma Introdução à história do design. São Paulo: Edgard Blücher, 2000. :: Sites :: Pequena História do Catete.
Ruas Significado. Imagens de um Rio que não
se perde. Curiosidades de nomes de lugares
do Rio de Janeiro. O Rio antigo por Juan Gutierrez. |
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||