PUC-Rio / Departamento de Artes & Design
Análise Gráfica / 2003.2
Prof. Edna Lúcia Cunha Lima
O papel do design gráfico – a identidade visual da cidade.

Aluno: Frederico Vieira


São Cristóvão

Um Bairro de contrastes

A história diz que os índios Tamoios foram os primeiros a descobrir o lugarejo. Depois vieram os jesuítas, a família Real, as indústrias, os nordestinos... já foi o segundo parque industrial do país, respondendo por quase metade da arrecadação tributária do município. Na década de 50, o incentivo fiscal foi cortado e as indústrias fechando. Atualmente predomina o comércio varejista e atacadista. Famoso pelas peças de automóveis, pela feira do campo de São Cristóvão e pela Quinta da Boa Vista.

vista aérea do Museu de história Nacional, na Quinta da Boa Vista
vista aéra do pavilhão do campo de são cristóvão recem inaugurado

Na Quinta da Boa Vista, em sua área de 560.500 m², estão o Museu Nacional/UFRJ, o Jardim Zoológico e o Museu da Fauna. 

O Pavilhão de São Cristóvão é um marco do panorama arquitetônico da cidade do Rio Janeiro. Construído no final dos anos 50, início dos anos sessenta, possui uma das primeiras estruturas com cobertura em parabolóide-hiperbólico do mundo. Suas dimensões figuram até hoje entre as maiores já executadas no gênero.

O Bairro em números

População residente: 38.334
Área territorial aproximada: 2.1 quilômetros quadrados
Área residencial: 607.352 metros quadrados
Museus: 5
Unidade de saúde pública: 1
Agências bancárias: 16
Avenidas: 7
Delegacia: 17ª DP
Batalhão de Polícia Militar: 4º
Clubes e agremiações: 2
Escolas: 25
Praças: 13

jornal "O Dia", 20 de janeiro de 2003.

A Rua São Luiz Gonzaga

A Rua São Luiz Gonzaga é a mais movimentada do bairro de São Cristóvão. Atravessa todo o bairro, dá acesso à avenida Brasil e às linhas Vermelha e Amarela, proporcionando um grande fluxo de pessoas, principalmente nos horários de “rush”. A atividade do comércio, essencialmente varejista e popular, molda suas características visuais e confere uma peculiaridade ao trecho entre a praça de São Cristóvão e o largo da cancela, onde o convívio do histórico e do “moderno” é tão singular.



A São Luiz Gonzaga é um ponto de passagem de pessoas dos mais diversos níveis sociais, prevalecendo as classes “D” e “E”. O comércio predominantemente varejista se concentra em produtos de necessidade básica, como alimentos, roupas e remédios, e de serviços ligados à saúde e educação. Todos os dias, nos horários de ida e volta do trabalho, milhares de trabalhadores do subúrbio e municípios vizinhos disputam espaço nas apertadas calçadas esperando a condução. O tempo de permanência é curto, o que faz com que os comerciantes tentem de todas as formas chamar a atenção do público passante.

Assim, a rua tem como característica principal, o excesso nas informações. Cada espaço é disputado e ocupado indiscriminadamente. Onde o olho alcança existe uma placa, um letreiro, um cartaz, ou todos juntos. Um grito desesperado de cada comerciante no intuito de chamar a atenção de um público tão variado e errante. A confusão fica completa com os fios e postes amontoados em toda a sua extensão, resultado do descaso da administração pública ante o avanço tecnológico.



Esse caos visual assume o papel de linguagem, copiada assumidamente por todos os estabelecimentos da rua; mesmo aqueles de maior porte, sejam franquias ou filiais, acabam por utilizar a mesma característica exagerada, como o Supermercado Pão de Açúcar e a drogaria Drogasmil. Em Copacabana, por exemplo, esses dois estabelecimentos, que de fato possuem um projeto implantado de identidade visual, não apresentam o mesmo excesso das filiais de São Cristóvão.

Tamanha a força dessa linguagem, o Boticário, rede que tem identidade definida, conceitual e sistemática, utilizou-a de forma conceitual, em excelência na realização, simulando os cartazes feitos à mão de forma padronizada. fonte caligráfica de boa legibilidade em verde, cor institucional, e texto centralizado. Os cartazes foram colados propositalmente com durex de forma a parecer um pouco confuso, mas sem prejudicar a visibilidade dos produtos expostos na vitrine.



A repetição é o elemento de fixação. Letreiros povoam as fachadas em toda extensão desse trecho da rua em duas, três ou mais versões. O designer foi notadamente substituído pelo letrista, pelo micreiro dos birôs de “comunicação visual” e pelo próprio dono da loja.

O termo identidade visual foi substituído pelo conceito de identificação. A sobrevivência de muitas das lojas, não depende de uma diferenciação entre as concorrentes, mas da identificação do negócio e da exposição do tipo de serviços e mercadorias que oferecem. Nesse enfoque, as marcas e propagandas dos produtos são os principais elementos identificadores. Não há uma preocupação com a harmonia ou relação das informações expostas, apenas a necessidade de passá-las. Os cartazes feitos à mão convivem pacificamente com os impressos de multinacionais consagradas.


 
O letrista é o profissional em destaque na divulgação de informações temporárias, como cardápios, promoções ou novas atividades onde a permanência da informação é curta. Nas lojas onde há tentativas de identidade visual, os letristas perdem espaço para os birôs onde o uso das famílias tipográficas e das cores é aleatório.


 
Algumas lojas esboçam uma tentativa de identidade visual, mas notadamente intuitiva por parte do proprietário. Newsplan, Glawys e Hot Beach têm versões diferentes da assinatura da empresa, sem relações formal, cromática ou tipográfica entre elas. O conceito de aplicação da marca se perde na própria variação assistemática da mesma, tendendo novamente à simples repetição.

Outro fator marcante é a interferência não projetada de elementos temporários nas vitrines e interiores das lojas. Na maioria, os preços são afixados em etiquetas feitas a mão, ou compradas em lojas de material de sinalização, diferindo totalmente dos demais elementos, sem nenhuma preocupação formal, apenas com a visibilidade. A própria disposição dos produtos nas vitrines agrava o excesso de informação.

No interior das lojas, a sinalização tem aspecto temporário. No lugar de placas ou ideogramas, folhas brancas escritas à mão com hidrocor, mal recortadas e presas com "durex" aparente. Em outras lojas, a sinalização é feita em computador, mas carrega o mesmo aspecto primário da sinalização feita à mão, geralmente em preto e branco, sem nenhum cuidado com o tipo de letra, diagramação ou com o local de fixação do informativo.


 
Se faz urgente a intervenção de um designer em todos os aspectos visuais da rua, tanto no todo, quanto no particular, ainda que beire à utopia, pois não só pela falta de consciência e de verba por parte dos lojistas, mas pelo descaso crescente da administração pública.

 

Bibliografia

O Rio de Janeiro de Pereira Passos
Giovanna Rosso Del Breno, Organizadora
1985 - 1º Edição - Rio de Janeiro
Editora Index

Acervo do Arquivo Geral da Cidade

Sintaxe da Linguagem Visual
Donis A. Dondis
Editora Martins Fontes

http://www.sao-cristovao.com - site da Associação Comercial de São Cristóvão

http://www.rio.rj.gov.br/fpj/quinta.htm - site da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro

http://odia.ig.com.br/odia/sites/diacombairro/saocristovao.htm - Jornal "O Dia" on-line