PUC-Rio / Departamento de Artes & Design
Análise Gráfica / 2004.1
Prof. Edna Lúcia Cunha Lima
O papel do design gráfico – a identidade visual da cidade.
Aluno: Fabiano de Lima Souza


Barrinha – Aonde tudo começou.


Um pouco da história.

A área da Barrinha (também conhecida como “Barra Velha”) foi umas das primeiras áreas da Barra da Tijuca a serem habitadas, segundo relato de moradores e comerciantes da área. Isso se deu, porque a única via de acesso à região na época, era pela estrada do Jóa. Muitas pessoas se interessaram pela área da Barrinha, por ser uma área nova, calma, relativamente isolada e por ser um bairro novo, praticamente inexplorado. Na década de 60 e 70 a Barrinha ficou famosa por seu ar boêmio, aonde os cariocas iam para se divertir nos diversos bares, restaurantes e motéis da região. Com a construção do elevado do Jóa na década de 70 e com o acelerado desenvolvimento da Barra da Tijuca, a área da Barrinha, foi sendo deixada de lado e acabou ficando um tanto quanto esquecida, já não tendo mais o movimento que tinha antigamente, passando a contar mais com os clientes mais fiéis.


A região.

A região da Barrinha é a única área da Barra da Tijuca com “cara” de bairro antigo, aonde encontramos pequenas ruas aconchegantes, idosos conversando na praça e muitos lugares aonde áreas residenciais e comerciais convivem em perfeita harmonia. Diferente de todo o bairro é possível notar que a Barrinha foi crescendo e se modificando de acordo com a sua necessidade, sem projetos urbanísticos mirabolantes.

Análise da região.
Ao andarmos pela barrinha é gritante a heterogeneidade entre as casas de comércio da região, lá encontramos de tudo um pouco, de pet-shop’s a lojas de material de construção, de casas de festas infantis a motéis. Nos estabelecimentos mais modestos, que são maioria, é possível notar que são bem antigos, em alguns casos, muito mal cuidados, sem nenhuma preocupação estética, mais voltada para um público local, contando mais com uma divulgação boca-a-boca e na fidelidade de seus clientes. Já nos empreendimentos mais recentes e com mais recursos, vemos uma preocupação maior em chamar a atenção para os serviços prestados. Para facilitar a análise, sob o ponto de vista do design do comércio local, os estabelecimentos foram divididos entre “primo rico” (comércio mais recente e com estratégias de captação de novos clientes, seja ela através do design, do serviço prestado etc.) e “primo pobre” (comércio mais antigo, modesto, contando sempre com a fidelidade de seus clientes e com os moradores da região).

“Primo rico”
Na área da Barrinha temos bons exemplos de “primos ricos”, são estabelecimentos que adquiriram um ou mais terrenos (ou antigas lojas) na região e que tem como atrativo principal os serviços prestados, fazendo questão de chamar a atenção para isso. Devido a isso, têm todo um cuidado estético, não só com a fachada, mas com a loja como um todo.

Exemplos:

Concessionária “Land Rio” – Concessionário de carros Land Rover. Tem na fachada o seu nome e a logo da Land Rover em acrílico com backlight sobre uma parede em pastilhas verdes, fazendo um bom contraste e mantendo uma unidade estética. Auxiliando a fachada da loja, vemos também, todo um cuidado arquitetônico, como pode ser visto pelos trabalhos com os telhados da loja.

 

 

Casa de festas infantis “Folia Encantada” – Nesse caso em particular o que mais chama a atenção não é o letreiro e sim sua fachada. Conta com dois “letreiros”, um impresso em acrílico com backlight e o outro em cimento em forma de uma bandeira segurada por um urso de mesmo material. O local tem uma fachada toda decorada com motivos (prédios disformes, urso dançante), cores (contrastantes e chamativas) e formas (tudo em alto relevo) bem infantis.

 

 

“Centro Gastronômico Concha Doce” – É uma pequena loja de conveniências, que presta serviços de confeitaria, lanches rápidos e restaurante. Fachada muito bem resolvida, com certeza feita por designer, letreiro em acrílico, com a tipografia e logomarca montadas sobre placas de fórmicas e iluminadas com backlight. O letreiro e a decoração da loja entregam que tipo de público eles querem atingir, clientes com um bom poder aquisitivo. Mais uma vez vemos um cuidado, não só com uma fachada bem resolvida e elegante, mas também uma grande preocupação com a decoração interna e externa da loja.

 

 

“Vip Marine” - Loja especializada em produtos para embarcações, de motores a acessórios para esportes náuticos. Fachada toda pintada de azul (fazendo alusão à água, ao mar) com letreiros em lona impressos com serigrafia. Iluminado com backlight. Um letreiro com o nome da loja e outro com a marca de motores náuticos "Mercury" com o qual eles trabalham. Letreiro simples, sem muitos recursos gráficos, mas muito bem resolvido, de fácil leitura. Mais uma vez notamos uma preocupação com a decoração interna.

 

 

“Supermercado Mundial” – Supermercado sem muita influência no resto do bairro, servindo mais para atender o público da região. Letreiro em alumínio laranja, com a tipografia montada sobre placas do mesmo material, só que na cor branca fazendo um bom contraste (o contraste neste caso nem chega a ser muito importante devido ao tamanho dos tipos utilizados) e contando com iluminação frontal. Conta também com um banner pintado a mão na parte frontal, chamando a atenção para promoções. É fácil perceber que o banner foi posto naquele local meio que por necessidade e sem levar muito em consideração a área aonde foi afixado, mas não chega a agredir visualmente e não foge muito do contesto geral de um supermercado, já que o mesmo atende a um público de diferentes classes sociais.

 


 

“Primo pobre”
São, na sua maioria, estabelecimentos muito antigos, que estão com os mesmos donos desde a sua criação, ou que foram sendo passados entre familiares. Já contam com uma clientela fiel e não têm muita preocupação estética, tanto com suas fachadas, quanto com suas lojas. Outro caso que se vê muito na barrinha é a aquisição de residências que mais tarde são transformadas em lojas e que também se preocupam com uma clientela mais local.

 

Exemplos:


“Lanchonete Camacha” – Um misto de boteco e lanchonete que também serve refeições. Tem o letreiro em lona impresso com serigrafia, iluminado através de backlight. É um dos botecos que nasceram junto com a região e um dos poucos que teve sua fachada reformulada, utiliza tipos em caixa alta e serifados, com o símbolo da skol nos cantos. O que chama a atenção para esse estabelecimento é a quantidade plantas na sua frente, passando até a impressão de estarem a venda, mas ao perguntar aos funcionários o porque de tanta planta, fui informado de que eram os “xodós” do dono. Na lateral da lanchonete vemos de tudo um pouco, propagandas de cervejas, preços em um quadro de giz e uma propaganda do serviço de almoço do local, pintada a mão em uma faixa. Todas elas amontoadas, brigando "por um lugar ao sol", isso acontece, porque tanto o proprietário quanto o público que frequenta esse bar, não está muito preocupado com "beleza da informação" desde que a mesma seja passada e assimilada.

 

 

"Restaurante La Violetera" - Bar e restaurante. Conta com duas fachadas, uma frontal e uma lateral, notasse uma falta de unidade entre elas, já que uma é completamente diferente da outra. A frontal apesar de ser mais recente, mostra algum sinal de abandono. Tem o letreiro impresso em acrílico com backlight. Já o lateral, é um letreiro em acrílico com tipos ornamentados montados sobre uma placa do mesmo material, também iluminadas por backlight. Conta também com folhas de papel impressas mostrando preços e serviços.

 

 

"Restaurante Costa e Mar" - Restaurente com mais de vinte anos, que serve desde pizzas a frutos de mar. Tem seu letreiro em acrílico, com os tipos montados sobre placa alumínio iluminadas com luz fluorescente por trás da tipografia. Mais uma vez vemos o abandono por parte dos proprietários de estabelecimentos mais antigos, já que a palavra "PIZZARIA" esta com um "A" a menos. Conversando com o proprietário do restaurante descobri que o mesmo estava a venda, já que segundo ele, estava ficando cada dia mais difícil "tocar" o negócio.

 

 

"Bar do Oswaldo" - Bar que nasceu junto com a região da Barrinha, muito famoso por suas batitas alcoolicas. Este é um exemplo clássico de como um estabelecimento consegue se firmar através dos anos (são mais de vinte anos!!!) sem nenhum tipo de propaganda, contando com a fidelidade da sua clientela e com a divulgação boca a boca. O bar simplesmente não tem letreiro, ou qualquer tipo de sinalização que diga que ali funciona o "Bar do Oswaldo", conta apenas com uma plaquinha fixada na parede que pede para que garrafas não sejam levadas para a parte de fora do bar, por medida de segurança, por conta de brigas etc.

 

 

Está aí dois bons exemplos de design vernacular, um ao lado do outro, o primeiro a ser analisado é o da "Auto-escola Habilita barra" - Não conta com fachada alguma, conta apenas com um cavalete publicitário pintado a mão com o símbolo do Detran-RJ, o nome da empresa e o endereço da loja. Pelo fato de contarem apenas com o cavalete como forma de identificação, fica difícil por exemplo, saber do que se trata a loja quando a mesma esta fechada, ou quando se passa por ela de carro. No caso da "Geraldo's Barbearia" outro estabelecimento que nasceu junto com a Barrinha, vemos uma chapa de madeira pinta a mão, se utilizando de símbolos que a remetem a cabelereiro (a tesoura e o pente) e um efeito de sombreamente muito infeliz na cor azul. Nos dois casos vemos que o mais importante é informar, não sendo levado em consideração como. Apesar de os dois estabelecimentos contarem com uma sinalização extremamente artesanal, a iformação passada por seus letreiros é clara, na medida do possível, com bons contrastes de cores e símbolos que facilitam a indentificação dos serviços prestados por eles.

 

"Adega Gostosinha" - Apesar do nome, esse barzinho passa longe de ser uma adega, tem seu nome impresso na cor branca em um toldo vermelho, fazendo um bom contraste, já a palavra "adega" por estar em amarelo e pela escolha do tipo, perde um pouco da leitura. E auxiliando na divulgação, o bar ainda conta com cavaletes publicitários pintados a mãos que servem também para mostrar promoções e preços.

 

Conclusão:

A região da Barrinha assim como o seu comércio é muito heterogeneo, lá você encontra serviços para pessoas de todas as classes, de "A" à "D" por isso que lá, vemos desde concessionárias de carros de luxos a barzinhos "pés sujos". Como citado anteriormente, a região da Barrinha é uma das poucas regiões da Barra da Tijuca que tem um ar de bairro antigo, e é muito interessante prestar atenção e ver como essa região se desenvolveu. Novos empreendimentos chegam a toda hora na Barrinha, como a área não tem mais para aonde crescer, vemos uma rotatividade muito grande de lojas. É impressionante ver como estabelecimentos que cresceram junto com a Barrinha continuam firmes e fortes apesar, da região não fazer o sucesso de antigamente. O interessante nesses estabelecimentos é que apesar de eles não terem fachadas mirabolantes, ou contarem com uma decoração impecável, eles tem algo muito mais importante que isso, eles contam com um nome (mesmo que ele não esteja escrito na fachada), com uma reputação, que caso sejam mantidas vão sendo passadas de pai para filho. Deixando o árduo trabalho de correr atrás de clientes, para os novos empreendimentos que ali se estabelecem.

 

// Sites //

 

// curiosidades //

Ótimo exemplo de site vernacular:

http://www.primeiraimpressao.com/bardochico/