PUC-Rio / Departamento de Artes & Design
Análise Gráfica / 2004.1
Prof. Edna Lúcia Cunha Lima
Aluna: Marcela Albuquerque

O papel do design gráfico – a identidade visual da cidade


Rua das Laranjeiras (trecho próximo a Rua Pereira da Silva)


Introdução

Laranjeiras em vermelho no mapa do Rio de janeiro

 

                                     

1 Rua das Laranjeiras; 2 Estádio do Fluminense e Palácio Guanabara; 3 Rua Pinheiro Machado; 4 Túnel Santa Bárbara; 5 Palácio das Laranjeiras e Parque Guinle; 6 Largo do Machado
 

                      

O bairro de Laranjeiras abriga os palácios Guanabara e das Laranjeiras. O Império já acabou por anos e as árvores de laranja que deram o nome ao bairro não têm mais as raízes fincadas nas antigas chácaras, mas Laranjeiras não é apenas a sede do Fluminense Futebol Clube; nesse bairro se situa também a sede do governo do Estado no Palácio Guanabara. Princesa Isabel, Condessa d’Eu e os presidentes Getúlio Vargas e Fernando Henrique Cardoso foram entre eles que passaram nos palácios Guanabara e Laranjeiras. Este por sua vez é a residência oficial dos governadores. Além dos palácios, o bairro abriga outros lugares históricos, como o Conjunto Residencial do Parque Guinle.

O Parque Guinle ocupa vinte e cinco mil metros quadrados de bosques, jardins e playgrounds, onde está instalado um conjunto de edifícios residenciais, projeto arquitetônico de Lúcio Costa. O parque se destaca na paisagem por sua concepção plástica.

O Palácio Guanabara, construído em 1853, é amaldiçoado segundo uma lenda. Um dos escravos que trabalharam na primeira reforma da casa durante a monarquia ficou torturado por um feitor e, antes de morrer, ele lançou uma maldição: "Nenhum morador da mansão da Rua Guanabara (atual Rua Pinheiro Machado) terá tranqüilidade enquanto lá viver". Verdade ou não, é difícil confirmar. No entanto, para os supersticiosos, diversos fatos históricos comprovam a lenda. A Princesa Isabel, primeira governante no Palácio, foi expulsa do lugar após a Proclamação da República em 1889. Orsina da Fonseca, a esposa do Marechal Hermes da Fonseca, morreu logo depois de o marido tomou posse e se mudou para o palácio. Em 1920, o rei Alberto da Bélgica morreu num acidente, após ter-se hospedado um mês no Palácio. O presidente Washington Luiz foi deposto em 1930.

Na década de 50, o Palácio Guanabara se tornou sede da prefeitura. Oito prefeitos não concluíram o seu mandato. Em 1960, o Palácio virou sede do governo estadual.

Atualmente, na “hora do rush”, os moradores da Rua Pinheiro Machado devem recordar dessa lenda...

 

Contexto Histórico

     

     

Na primeira foto: Laranjeiras, 1897. Vista tomada do morro Mundo Novo. Em primeiro plano, à direita, trecho da rua das Laranjeiras; do centro para a esquerda, vila operária da fábrica de tecidos Aliança; em segundo plano, a rua Aliança (atual General Glicério) e na extrema esquerda, a fábrica de tecidos Aliança. No fundo, à esquerda, o morro de Santa Marta e o maciço da Tijuca (note-se o pico do Corcovado).

Na segunda foto: Igreja do Glória em frente a um conjunto de palmeiras onde fica hoje o Largo do Machado.

O bairro de Laranjeiras se desenvolveu, como o Cosme Velho, nas margens do Rio Carioca, desde 1567, quando as terras da região foram doadas em sesmaria. A importância do Rio Carioca foi fundamental, como fonte abastecedora de água potável para o Rio de Janeiro. Aos poucos surgiram na região chácaras rústicas e luxuosas ocupadas por fidalgos e homens ricos e movidas a trabalho escravo. Mas no ano 1880 a região sofreu uma grande transformação quando a Companhia de Fiações e Tecidos Aliança se instalou na Rua General Glicério, fazendo surgir os primeiros comerciantes. A Fábrica funcionou até 1938 e fez aparecer em Laranjeiras as primeiras vilas operárias. Os bondes elétricos foram instalados pela famosa Companhia Jardim Botânico. Quando a Fábrica foi fechada, seus operários procuraram empregos nos subúrbios e a região começou a se elitizar.

Com a abertura do Túnel Santa Bárbara em 1961, Laranjeiras se transformou em um importante elo de ligação entre a Zona Norte e Sul, mas o bairro ainda apresenta uma elitização e uma visível divisão social: Antes e depois do Túnel Santa Bárbara.

Embora um bairro tipicamente residencial, Laranjeiras é um bairro relativamente extenso e diverso, do ponto de vista gráfico. Por isso, toma-se como objetivo analisar um curto trecho da Rua das Laranjeiras. A Artéria Aorta desse bairro, que começa no Largo do Machado e termina nas imediações do Túnel Rebouças, já com outro nome: Rua Cosme Velho.

Laranjeiras é um bairro bem localizado, de passagem para muitos motoristas, semelhante a Botafogo. O trânsito nos horários de maior movimentação é caótico e mesmo visando amenizar o problema, as obras do Rio Cidade acabaram por estreitar a Rua das Laranjeiras no trecho do Túnel Santa Bárbara, para possibilitar o alargamento de algumas calçadas, como a da Maternidade Escola da UFRJ e a restauração da praça do aviador Del Prete.
 

 

Pesquisa
 

Nesse mesmo local foi erguido um condomínio, onde antes havia um terreno que servia de parque de diversões e mais tarde de estacionamento para a Churrascaria Gaúcha, a primeira churrascaria do Rio de Janeiro. Nessa mesma praça há uma estátua que conta a história do aviador, bem como um espaço para um comércio que não vingou. Com exceção de uma pet shop; afinal é constante ver cachorros passeando no local. É uma clientela fiel, cumprimentada pelo nome. O preço também atrai, o que leva as pessoas ao local. A dona desse estabelecimento é moradora desse condomínio existente na praça.

Lona impressa em serigrafia iluminada por backlights. A ilustração é divertida, bem como a combinação de cores é agradável. O uso de caixa baixa para o “p” de pet e o de caixa alta pra o “s” mostra que não houve uma preocupação com o estilo a ser usado. As informações Pet Shop (um pouco redundante nesse caso) tosa e banho e o telefone, aparecem num segundo plano de uma hierarquia, entretanto não muito visível à distância ou para quem passa de carro pelo local. Nesse caso, porém, devemos ressaltar que a localização inviabilizaria a visibilidade mesmo que essas informações fossem maiores, uma vez que há muitas árvores na frente. Durante a noite, com iluminação, o problema é amenizado.

Lonas

Lona impressa em serigrafia. Para o estacionamento, apesar da tridimensionalidade da sinalização, não iluminação interna, como ocorre com o Hortivida. Esse por sua vez, tem sua identidade visual muito semelhante ao Hortifruti, pelo uso das cores e pela escolha da maçã como símbolo. Mais uma vez a redundância se torna presente: o uso de verduras, legumes e frutas é desnecessário; o telefone também fica prejudicado quando o indivíduo se encontra á distância. A marquise também o esconde. Como moradora de Laranjeiras, eu desconhecia o serviço de entregas á domicílio desse estabelecimento.

Onde antes funcionava uma espécie de cortiço com até salão de beleza, podemos observar a valorização da marca Empório das Laranjeiras que até possui projeto de certa forma bem desenvolvido e bem visualizado. Mas a questão a ser levantada é a ausência de uma hierarquia. O que identifica essa loja de materiais de construção? Citylar ou Empório das Laranjeiras? Citylar também levantou uma dúvida quanto ao seu logotipo. Uma palavra só composta por uma letra maiúscula no meio. Erro ou proposital?

Muito tradicional e de preços caros, a papelaria Sonimar possui esse nome graças ao edifício que há ao seu lado. Seu letreiro de acrílico melhor resolvido que o atual, possuía um símbolo semelhante à Estrela, indústria de brinquedos. Uma das características desse local até hoje é a venda de brinquedos. Tal como um bazar. Mas será bazar ou papelaria? O nome da marca é Bazar Sonimar. Mas diante dessa nova sinalização o mesmo fica prejudicado, espremido dentre tantos serviços oferecidos e pela escolha da cor vermelha, não muito resolvida com o fundo amarelo adotado. O nome não ganha destaque como as demais informações presentes. Há uma perda da identidade com essa busca em se mostrar eficiente. Em seu interior a poluição visual é semelhante, fazendo jus á placa da fachada.

Não há presença de backlights. A troca de sinalização para esse local representou uma perda para a minha infância, exemplo que consolida a perda dessa identidade.

A sinalização da loja de conveniência do posto de gasolina deixa clara a proposta de seu dono: um espaço que vende apenas o essencial - bebidas, cigarros e pilhas. São duas placas  de lona serigrafada, sem backlights, sem informações adicionais. Apenas o nome do posto em ambas e a marca da Kodak em uma, o que indica que há um espaço interno reservado para revelação de fotos. O Posto Remon é o maior posto de Laranjeiras; sua estrutura suportaria uma loja de conveniências tal como o “Select” ou o “Am Pm”. A noite deixa à mostra o elefante branco do bairro.

Uma peculiaridade foi observada em ambos os casos. O patrocínio de empresas de cerveja na maioria dos botecos. Coca-Cola também é forte nesse mercado. No entanto a identificação dos bares só não se torna inexistente, por estar localizada de “forma muito singela, abaixo das cervejas”. A maioria das pessoas que freqüentam esses estabelecimentos possui uma relação estreita com os atendentes, mas desconhecem o nome do local. A primeira opção é lona serigrafada com backlight. A segunda é de acrílico também com backlight

Compondo com a maioria, ambos exemplos são de lona com backlight. Vale a pena observar o telefone na primeira placa do Depil Center. O número “2” é maior, propositalmente, infelizmente. Essa instituição possui um preço elevado para os seus serviços. Isso fica evidente na preocupação em expor sua marca, fortalecendo seus propósitos e suas características. Quem entra no Depil Center pela primeira vez já sabe o que vai encontrar em seu interior: qualidade diferenciada, clareza, limpeza... O símbolo evidencia a languidez e leveza feminina. A escolha da tipografia não me agrada, bem como essa estilização do “d” e do “c” .

No exemplo 2, a Churrascaria Gaúcha busca estabelecer a sua identidade com essa nova marca. Acredito que o partido poderia ter sido mais bem explorado a fim de transmitir força, conceito muito atribuído ao boi, a carne vermelha, por ser talvez mais pesada que as demais carnes. A Gaúcha pode se encaixar na categoria de "do bairro para a cidade".

O China in Box, corresponde a uma cadeia de franquias que está presente em toda a cidade do Rio de Janeiro. Por isso, fica clara a presença de um sistema de identidade visual bem resolvido; visível, que transmite ao público as características estabelecidas pelo briefing.
O número de telefone é visível à distância, uma vez que o carro chefe da empresa são as vendas a domicílio. Duas placas foram necessárias; uma para deixar clara a prioridade da marca. Outra para enfatizar o número de telefone do estabelecimento. Finaliza-se esse exemplo com o uso de lona serigrafada com backlight. O China in Box faz parte do grupo " internacional" dentro do sistema hierárquico, trabalhado em sala de aula.
 

Acrílicos

Partindo para o segundo grupo, temos a análise do primeiro exemplo de placas de acrílico com backlight.Vários módulos verdes e um que é a própria marca do Banerj, compõem fachada do banco. Na segunda foto, temos o exemplo de duas sinalizações tipo “bandeira” para os pedestres que passam debaixo da marquise do banco, sendo que esta impossibilita que os mesmos vejam a fachada. O Banerj é um exemplo "da cidade para o bairro". O Unibanco, por sua vez vem de todo o país para os estados e respectivos bairros.

A loja Kraft se mantém há anos nesse mesmo local e tem uma clientela vasta, que não se limita aos moradores do bairro. Apesar de fazer referência apenas a Caloi, podemos encontrar marcas diferenciadas em seu interior.  Sua sinalização é bem resolvida em acrílico com letras recortadas também de acrílico. Há presença de backlight. É uma fachada bem resolvida que não agride o público. A Kraft também é um exemplo que pode ser classificado como "do bairro para a cidade".

Essa foto indica que a sinalização da farmácia é bem feita. Mesmo com o caminhão encostado na calçada, somos capazes de localizar o estabelecimento. A leitura é visível, bem como clássica para esse tipo de nicho: as lâmpadas piscando em torno do letreiro.

Pode parecer um pouco ultrapassado esse recurso, mas sua funcionalidade é comprovada; mesmo que não haja visibilidade, as lâmpadas piscando em série indicarão que ali existe uma farmácia. A única questão é o número de telefone, que mais uma vez, está pequeno. Acredito que apenas o número, sem “entregas a domicílio”, seria suficiente como foi o caso do China in Box analisado acima. Haveria mais espaço para que as outras informações “respirassem” mais bem organizadas.

O Supermercado Princesa também possui uma sinalização bem resolvida. Pertencente a Rede Economia de Supermercados, presente em outros bairros da cidade, oferece um serviço de entregas. Entretanto, o número de telefone se encontra prejudicado atrás das árvores. As cores são harmônicas e de boa legibilidade. As proporções e os espaços entre os elementos contribuem para uma visualização mais limpa e agradável de assimilar. Por fim, o supermercado Princesa vem "da cidade para o bairro".

Por fim, encerramos essa análise com essa barraquinha de Cocos, presente não apenas nas três esquinas próximas a minha casa, mas também em outros bairros como Flamengo e Catete.

Estando em outros pontos da cidade, essa barraca começa a fixar sua identidade visual, através das cores e do compartimento com a tampa verde, fazendo alusão ao coco. Sua marca adota o coco como simbologia e ao mesmo tempo como a letra “o”. Acredito que o contraste entre as informações e a barraca deveria ser maior, para que estas saltassem à distância. Mas o corpo amarelo da barraca já faz o seu papel: destacá-la, quanto à formação de uma“cadeia” de barracas.
A Água de Coco também vem " da cidade para o bairro".

 

Conclusão

A constante opção pela lona de serigrafia é um fato que levantou curiosidade. Acredito que esse processo de sinalização seja mais barato. O que, no entanto confere um caráter mais simplista. A solução em acrílico, na minha opinião, confere mais status.

A constante opção pela lona de serigrafia é um fato que levantou curiosidade. Acredito que esse processo de sinalização seja mais barato. O que, no entanto confere um caráter mais simplista. A solução em acrílico, na minha opinião, confere mais status.

Analisando um pouco mais esse pequeno trecho da rua das Laranjeiras, fica evidente de que a questão comercial vem sempre em primeiro lugar. Mais vale várias informações amontoadas a um letreiro harmônico. Os comerciantes têm a ilusão de estarem mostrando eficiência, como é o caso do Bazar Sonimar. A presença do design é quase inexistente. Mesmo no caso do China in Box, onde a visibilidade é boa, o design perde para o apelo comercial. Somos engolidos pelo anseio voraz de que o público deve consumir. O engano ocorre em achar que menos informações vão afastar o cliente. O velho provérbio, tão clichê mais uma vez fala: “menos é mais”.

Muito ligado a esse ponto acima discutido, está a presença da redundância; ou seja, a informação mais do que desnecessária.

As árvores prejudicaram a sinalização do Supermercado; a praça Del Prete também não se mostrou um ambiente propício para qualquer comércio; para o Pet Studio, em contrapartida, não houve lugar melhor. O posto de gasolina, por sua vez, deixou muitos moradores desapontados não em aproveitar melhor o seu espaço.

O posto Texaco mais próximo do Largo do Machado possui ¼ do espaço e, no entanto se encontra sempre cheio, graças à pequena loja de conveniências que fica 24horas aberta.

 O que muitas vezes não faz com que o público deixe de consumir ou freqüentar o local mesmo com essas questões que negligenciam a  imagem do estabelecimento é o apelo do bairro. Essa familiaridade, esse clima de informalidade; com o jornaleiro, a atendente da papelaria, com o dono do bar. Tudo contribui para que você se sinta mais confiante e em casa.

 

 

Observação: Os demais exemplos que não apresentaram uma classificação de " do bairro para a cidade" ou "internacional" etc, fazem parte do grupo "local", que atende apenas as necessidade dos moradores daquele bairro, sendo desconhecidos para aqueles que não residem no mesmo.