Análise dos elementos
narrativos das mídias tradicionais, particularmente no cinema
Este artigo tem como objetivo analisar, à luz do que
foi apresentado por Gunnar Liestøl em “Wittgenstein, Genette e a narrativa do
leitor no hipertexto”, os elementos que compõem a narrativa, partindo de mídias tradicionais da literatura e, em
especial, do cinema, para em seguida transpô-la para uma análise do hipertexto.
Os principais temas de discussão, a meu ver,
relacionados ao hipertexto são os aspectos estruturais, as questões de
narratividade e de autoria. Todos estes
três itens, que podem apenas ser separados como unidades razoavelmente
estanques na tentativa de se organizar sua discussão mas que, na prática, se
misturam de forma absolutamente intricada, têm fundamental importância para
entendermos as características do hipertexto e suas (possíveis) conseqüências,
que muitas vezes ficam ocultas sob o véu do ufanismo que envolve os discursos
sobre a Internet e a empolgação generalizada com seu alcance e suas
possibilidades revolucionárias, uma vez que a Grande Rede se tornou, de fato, o
representante mais visível de algo que, na verdade, está presente em uma série
de outros veículos que envolvem informática e está se tornando, inclusive,
modelo comunicacional, dada a sua possibilidade de acesso às informações, ou
pedaços de informações, de forma “não seqüencial/não hierarquizada”.
Mas, um passo de cada vez...
A maior dificuldade para a realização deste texto é
um retrato da discussão da primeira parte deste artigo: linearidade. Assim como
Wittgenstein admite no prefácio de suas Investigações Filosóficas, a maior
dificuldade para sua realização foi transformar uma série de diferentes
pensamentos e aproximações para um mesmo tema em um texto linear. Essa é a
exigência imposta pelo veículo utilizao como suporte para este artigo: o papel.
Assim como neste artigo, em um romance ou em um filme,
o discurso é sempre linear. Tanto o instrumento de literatura quanto o aparato
cinematográfico para a reprodução de um filme e as convenções existentes para
se apreciar um romance ou assistir a um filme repousam nesta característica
linear para possibilitar sua própria existência.
Para se produzir um filme, ou para assisti-lo,
experimenta-se a sequência de quadros à taxa de 24 ou 30 por segundo. Os
quadros se encontram “presos” à estrutura linear e, pelo menos naturalmente,
invariável da película cinematográfica. O mesmo ocorre com livros. Tanto para
escrevê-los quanto para lê-los, procede-se da esquerda para a direita, letra
após letra, que formará a palavra, que será disposta uma a uma, igualmente da
esquerda para a direita, formando a sentença. As sentenças também são
seqüenciadas, até o limite do suporte, na maioria das vezes o papel, após o que
passam à linha de baixo, também da esquerda para a direita, e assim
sucessivamente, do canto superior esquerdo do suporte ao canto inferior direito
que, após inteiramente preenchido, formará a página. As várias páginas
necessárias para que todo o texto seja afixado no suporte são organizadas de
forma seqüencial, da primeira à última, perfazendo o livro.
Elementos narrativos
O discurso representa as informações
conforme dispostas por seu autor. É representado pelo elemento físico da
história: no caso dos livros, o texto; no caso dos filmes, as imagens. Esses
elementos são apreendidos pela audiência segundo as características do suporte
onde está fixado: no caso do texto, o papel (livros, brochuras, jornais etc.);
no caso das imagens, as películas cinematográficas e as fitas de vídeo cassete.
O conteúdo do discurso - as personagens e
os eventos em que se envolvem - é a história, cuja apreciação, e a própria compreensão,
dependem da forma como seu autor constrói seu discurso devendo, para tanto,
levar em conta a característica imutável e linear do suporte. Os eventos
descritos no discurso (história) podem ser apresentados em ordem cronológica
variada, mas sua apreensão será sempre linear.
Os fatos são percebidos, quaisquer eles, segundo
referenciais temporais: o antes, o agora e o depois, sempre sendo comparados
com o padrão lógico progressivo do tempo. Ora, “o que passou passou, não volta
mais”, “o tempo caminha para a frente” e outros clichês. Essa lógica também se
aplica aos elementos narrativos, pois sua apreensão pela audiência também se
dará em termos desta linha de tempo que rege a compreensão do mundo. À parte
dessa lógica intrínseca, os próprios suportes citados, o papel e a película
cinematográfica (ou fita de vídeo cassete), também funcionam sob a mesma lógica
temporal. Quando se assiste a um filme, o fluxo de passagem dos quadros pela
lente de projeção é linear, o quadro que se está vendo agora sempre vem depois
do que foi assistido anteriormente e sempre é anterior ao que será assistido em
seguida. Da mesma forma, em um livro, a palavra que se está lendo antecede a
que será lida a seguir, e veio depois da que foi lida antes.
Em ambos os casos, a literatura e o cinema, seus
suportes são balizadores para o trabalho dos autores. No caso do cinema, o
fluxo de passagem dos fotogramas em frente à lente do projetor é de 24 quadros
por segundo, ou 24fps (frames per second), o que dá uma velocidade constante.
Este caráter constante permite que o diretor equalize a velocidade do tempo
cinematográfico com a velocidade do tempo real, que será o parâmetro da
audiência. Assim, por exemplo, uma pessoa andando na rua parecerá estar andando
em velocidade normal, humana. Tal fato não era possível no início do século
vinte devido a limitações tecnológicas envolvendo as câmeras de filmagem. Por
isso há aqueles filmes em que parece que todo mundo está se movendo
“rapidinho”.
Além disso, a apresentação da sequência de imagens se
dá de forma linear, onde os fotogramas se sucedem, do primeiro ao último, do
início ao fim da projeção.
No caso da literatura a apreensão do discurso também
se dá de forma linear, palavra após palavra, segundo as convenções de leitura,
no caso das culturas ocidentais, da esquerda para a direita.
Estes aspectos lineares, que coincidem com nossa
apreensão temporal da realidade, estabelecem o sentido unidirecional e
progressivo da linha do tempo do suporte. Será sobre esta linha do tempo
inalterável que o autor repousará o discurso.
Quando o discurso é apreendido, isto é feito segundo
um referencial temporal. Tais e tais eventos são apresentados antes ou depois
de tantos outros. A disposição dos eventos ao longo da linha do tempo do
suporte, isto é, a ordem na qual eles são apresentados, caracteriza a linha do
tempo do discurso que, diferentemente da linha de tempo do suporte, não
necessariamente é linear, unidirecional e crescente.
Para contar sua história, o autor pode se valer de
vários artifícios temporais, como apresentar os eventos em ordem cronológica
trocada, mostrar eventos de trás para frente e abusar de câmeras lentas,
aceleradas e saltos temporais.
Se a linha do tempo do suporte serve de ponte entre o
tempo real e o tempo da obra, através do discurso o autor pode brincar com essa
linha do tempo, subvertendo a realidade.
A linha do tempo do discurso é o universo do autor. É
através do discurso que ele descreve os eventos que, juntos, formarão a
história, depositada no suporte. Se a história será de fácil apreensão, ou
exigirá mais esforço de seus apreciadores, vai depender de sua vontade (ou
competência), na hora de contá-la.
No discurso, o tempo é linear e progressivo, porque
está atrelado ao suporte, seu balizador. Assim, se lemos um livro da capo,
apreendemos as informações de forma linear, mesmo que os eventos ocorram em
ordem cronológica variada ou haja várias linhas de eventos paralelas, dispostas
lado a lado, como em “Timecode”, de Mike Figgis, ou apresentadas uma após a
outra, como em “Snatch, porcos e diamantes”, de Guy Ritchie, e “It”, de Stephen
King.
Para que a história faça sentido, os eventos que a
compõem devem ser organizados em ordem cronológica. Para tanto, muitas vezes
faz-se necessário desconstruir a linha do tempo do discurso e montar uma nova
linha do tempo, em ordem progressiva dos eventos; a linha do tempo da história.
Este papel cabe à audiência.
Na verdade, ao criar uma história, seu autor primeiro
constrói sua linha do tempo, constante e progressiva, para depois construir a linha
do tempo do discurso que, segundo seu estilo de narração, poderá ou não
coincidir com a linha do tempo da história.
Aliás, em quase a totalidade de filmes, peças
teatrais e romances, os tempos reais (do observador) e do discurso diferem. Não
fosse assim e aconteceria como na piada do português que saiu no intervalo da
ópera porque no folheto aparecia escrito que o segundo ato se passaria dez anos
mais tarde e ele não poderia esperar tanto tempo.
Um bom exemplo desse não sincronismo entre a linha de
tempo do discurso e a linha de tempo da história é o filme “Cidadão Kane”, de
Orson Welles.
O filme começa com a morte de Kane (vivido pelo
próprio Orson Welles) em sua mansão, Xanadu. Na linha de tempo da história,
esse é quase o último fato. No entanto, em termos do tempo do discurso, é o
primeiro. A partir daí, a história dá um salto para sua infância, de onde vem
seguindo em ordem cronológica, sob a ótica de pessoas que fizeram parte da vida
de Kane, através de seus depoimentos, concedidos a um repórter que tenta
descobrir o significado da última palavra por ele proferida antes de morrer
“Rosebud”.
Outro exemplo do uso criativo da linha do tempo do
discurso ocorre em “Amnésia”, de Christopher Nolan.
É a história de Leonard, vivido por Guy Pierce, um
ex-investigador de uma empresa de seguros que tem que conviver com uma doença
desconcertante: ele não consegue reter qualquer memória nova. Qualquer fato
novo não dura mais do que poucos minutos. Se ele se envolver em uma conversa um
pouco mais extensa, logo esquecerá seu início, por exemplo.
Para tentar sobreviver em meio a esse caos, Lenny
passa a tomar notas dos fatos, tirar fotos das pessoas com quem interage, os
hotéis em que se hospeda, até seu carro para que não se esqueça, e o mais
impressionante: os fatos mais importantes ele chega a tatuá-los no corpo. Além
disso, estabelece um objetivo para sua vida: vingar a morte da esposa.
Seu estado é traumático. Leonard levava uma vida
normal até que bandidos invadem sua casa, violentam sua esposa e o ferem na
cabeça, momento em que passa a sofrer deste estranho tipo de amnésia. Todas
suas memórias até o ataque são mantidas, mas o próprio tempo deixa de existir a
partir de então, pois se nada fica registrado em sua memória, nem o tempo pode
ser medido. É como se ele vivesse de trás para frente: vive o presente, tem
percepção de tudo à sua volta, mas não faz a menor idéia do porque de estar ali
nem de como chegou.
Se história for contada em ordem cronológica (e o
motivo para o “se” será esclarecido em breve), eis o que resultará: o filme
começa em um quarto de hotel, com Leonard falando ao telefone com alguém que,
em seguida, se identificará como um policial de nome Teddy (Joe Pantoliano),
para quem ele conta um pouco de sua vida e, principalmente, a história de um
certo Sammy (Sammuel R. Jankis, interpretado por Stephen Tobolowsky), um de
seus investigados na época anterior ao ataque. Sammy também sofre da mesma
estranha amnésia. <<<GLOSA: prestem atenção à cena em que Sammy
aparece em um manicômio. Ele está sentado em uma cadeira. Em determinado
momento, alguém passará na frente da câmera. Repare que quem estará ocupando a
cadeira após a passagem do vulto será o Lenny. Mas atenção, trata-se de uma
fração de segundo, pois em seguida há o corte e a cena sai do flash
back.>>>
Mais adiante, ainda na seção em preto e branco, Lenny
deixará o quarto do hotel em companhia de Teddy e se dirigirão para uma casa abandonada nos arredores da cidade,
onde ele é levado a crer que o assassino de sua esposa se encontra. Na verdade,
trata-se de um traficante que Teddy está perseguindo, mas Lenny não tem como
saber disso, e acaba por matá-lo.
Após assassinar Jimmy Grants (Larry Holden), o
traficante que Teddy faz acreditar ser o assassino de sua esposa, Lenny o
despe, coloca suas roupas e se apossa de seu carro, um jaguar. Ele, então, tira
uma foto instantânea de sua vítima para seu registro e a audiência acompanha
enquanto a imagem se forma na foto. Ao mesmo tempo em que isso acontece, a cor
passa a se fazer presente no filme, trata-se do segmento colorido da história,
que já começa com Teddy revelando a Lenny (e a audiência) a verdade sobre sua
relação, sobre a vida de Lenny e sua trágica história com sua esposa (que não
será revelada neste artigo).
Ficamos sabendo que Teddy manipula o protagonista
para que ele lhe faça serviços sujos, sempre fazendo crer que se trata do
assassino de sua esposa. Acontece que, dessa vez, Lenny pegou as roupas e o
carro de sua vítima, e isso lhe trará consequências.
A partir deste ponto, Leonard é levado a se
relacionar com Natalie, a personagem vivida por Carrie Anne-Moss, ex-namorada
do traficante que ele assassinara e que passa a se ver em maus lençóis com um
colega de seu ex-namorado que a persegue para recuperar um dinheiro que, sem
saber, Leonard carrega na mala do Jaguar roubado de sua vítima.
Natalie se aproveita do estranho distúrbio de Leonard
para que ele a ajude a se livrar de seu perseguidor. Em troca, ela própria o
ajuda a localizar o suposto assassino de sua esposa. Acontece que, com raiva de
Teddy pelas revelações que ele lhe faz na casa abandonada, ele anota no verso
de sua foto “Não deve confiar em suas mentiras”, além da placa de seu carro
como se fora a do assassino. Esse movimento, é consciente e movido pelo ódio.
Ele sabe que não se lembrará da verdade sobre Teddy e a placa de seu carro, e
sabe que isso o levará, no futuro, a acreditar que se trata do assassino de sua
esposa, o que de fato acaba ocorrendo com uma ajudinha inadvertida de Natalie
que, ao investigar o número da placa fornecida por Lenny, chega à habilitação
de Teddy.
Esta é a história conforme deve ser “montada” pela
audiência. Montada porque ela não é apresentada nessa forma linear, pelo
contrário. Para tornar o filme ainda mais interessante, o diretor Christopher
Nolan oferece à audiência a experiência de se sentir um pouco como Leonard.
Para tanto, ele fragmenta a história em pequenos trechos e os apresenta em
ordem invertida. Assim, acompanhamos o desenrolar dos fatos de trás para
frente.
Para ser mais preciso, o que o diretor faz, de fato,
é o seguinte: primeiro ele divide o filme em pequenos blocos de ação, com
poucos minutos de duração. A seguir, ele separa as duas principais seções da
história, a em preto e branco, que vai até o assassinato do traficante de
drogas, e a colorida, que começa nesta cena e vai até o desfecho do filme. O
trecho colorido é apresentado da forma descrita acima, com os blocos de poucos
minutos apresentados em ordem invertida. Veja bem: dentro de cada bloco, o
tempo é progressivo; crescente. Os blocos é que são dispostos em ordem
invertida.
O trecho em preto e branco, também dividido em
pequenos blocos de ação, é “espalhado” ao longo do filme, entre os trechos
coloridos, só que sem ter sua cronologia invertida. Assim, é como se houvesse
duas histórias que acontecem em paralelo, uma contada em ordem progressiva dos
acontecimentos (em preto e branco) e outra contada em ordem inversa (a
colorida), ambas se encontrando, ao final da projeção, por volta do assassinato
do traficante.
Seguindo aquela análise anterior das três linhas de
tempo, novamente vê-se a linha de tempo do suporte, que é a linha de tempo do
filme. Seu tempo é progressivo, linear e de velocidade constante e igual a
24fps.
A linha de tempo do discurso é representada pelo
filme em si e, na verdade, se divide em duas: a crescente, da primeira parte da
história, retratada em preto e branco, e a em ordem inversa, da segunda parte
da história, retratada em cores. Detalhe: as duas se misturam, ocorrendo ao
mesmo tempo sobre o suporte da película.
Finalmente, a linha de tempo da história é linear e
progressiva, só que ela não está na superfície nem é fácil de ser apreendida.
Na verdade, o diretor, ao optar pela edição empregada em “Amnésia”, exige da
audiência um grande esforço para reconstruir a história na cabeça, o que só
pode ser atingido, de fato, ao final de toda a projeção.
Mais acima foi dito que em quase a totalidade de
filmes, peças teatrais e romances os tempos reais (do observador) e do discurso
diferem. No entanto, há algumas interessantes experiências de subversão desta
regra. É o caso do filme “The Rope” (Festim Diabólico), de Alfred Hitchcock.
Nele, tempo do suporte coincide com o tempo do discurso e com o tempo da
história. O filme se passa em “tempo real”. Aliás, parece não haver cortes,
dando aos espectadores a impressão de que ele inteiro foi gravado em um grande
rolo de filme, do início ao fim, sem paradas, o que representa dizer que teria
sido gravado “ao vivo”.
Obviamente tal fato não procede pois a tecnologia da
época não o permitia. As tomadas eram limitadas pelo comprimento do negativo na
bobina da máquina, o que resultava em aproximadamente 10 min. Ainda assim, cada
unidade de 10 min do filme foi registrado ao vivo, e elas são encadeadas de
modo a parecer não ter havido “perda”, ou lapso, de tempo. Um espectador menos
atento pode facilmente ser ludibriado pelo diretor, e não perceber os cortes.
Um exemplo mais recente, já filmado com câmeras
digitais, o que possibilitou pelo menos duas horas de filmagem ininterruptas, é
“Timecode”, de Mike Figgis, mesmo diretor de “Despedida em Las Vegas”. Filmado
ao vivo do início ao fim, mostra a movimentação dos atores em tempo real, o que
representa dizer que o filme apresenta duas horas da vida do grupo de pessoas
nele retratado.
Na televisão, a recente série “24h”, estrelada por
Kiefer Sutherland, pretende retratar 24 horas da vida do agente da inteligência
antiterrorismo dos Estados Unidos Jack Bauer (Sutherland). A série é
apresentada em episódios semanais de uma hora de duração que, juntos, ao final
da temporada, terão coberto as tais 24 horas. Se fosse possível juntar os vinte
e quatro episódios da série e encadeá-los em um DVD, por exemplo, ter-se-ia 24
horas de filme retratando as peripécias dos personagens em tempo real, a não
ser pelos espaços em preto, de tempos em tempos, reservados para os comerciais <<<GLOSA:
sim, a história não para enquanto os comercias estão no ar, mas continua
rolando em pano de fundo, invisível aos nossos olhos devido aos reclames. Sendo
assim, para que o sincronismo entre tempo da história e o tempo do suporte – a
televisão, ou tempo da história e tempo real, seja mantido, faz-se necessária a
presença do tempo dos comerciais>>>.
Além das diferenças entre as linhas do tempo do
discurso e da história, há as diferenças entre as linhas do tempo do suporte e
do discurso. Essas diferenças, que também subvertem nosso entendimento do
tempo, são representadas pelo estiramento e resumo dos eventos, por exemplo.
O estiramento acontece quando o tempo do discurso é
maior do que o tempo do suporte. É o que pode ser visto em cenas em câmera
lenta. Quando há cenas descritivas longas, com nos filmes de Stanley Kubrick e
em livros de Machado de Assis, Eça de Queiroz e Aluízio Azevedo, por exemplo, o
descolamento entre as linhas do tempo ocorre entre o discurso e a história,
pois a descrição é atemporal, do ponto de vista dos eventos.
É o que pode ser percebido, por exemplo, na clássica
cena das escadarias da estação ferroviária de Chicago em “Os Intocáveis”, de
Brian de Palma. O tempo da história, uns poucos minutos no início da cena, e
uns poucos segundos em seu final, passam muito mais vagarosamente na tela do
que passariam “na realidade”, ou “na vida real”, através do emprego da câmera
lenta. Neste exemplo, há um estiramento do “tempo cinematográfico” em relação
ao “tempo real”, ou tempo do suporte, o que aumenta consideravelmente a
dramaticidade da cena. Embora a velocidade do tempo não seja constante no
exemplo de “Os Intocáveis”, ele continua sendo linear e progressivo.
<<<GLOSA:Algo que sempre
me intrigou foram as cenas de ação em livros. Imaginava como seria possível
manter a emoção de uma ação de décimos de segundo de duração que no cinema nos
faz o sangue ferver, como uma manobra arrojada de um caça x-wing em “Guerra nas
Estrelas”, de George Lucas. Ora, em um livro, a mesma cena deveria ser descrita
na forma de texto, e nem estou levando em conta aqui o som. Assim, assistir a
um caça fazendo uma curva brusca e saindo da alça de mira de uma nave inimiga
ao mesmo tempo que outro caça irrompe do nada e, vindo da direção oposta,
transforma o tie-fighter em uma bola de fogo, atravessando-a em seguida na
direção da audiência, como acontece na batalha final de “Uma nova Esperança”
sempre me pareceu mais emocionante do que lê-la em um livro, pois o número de
palavras necessárias para descrever de forma compreensível os intrincados
movimentos combinados de várias naves me pareciam tornar impossível manter
emoção de vê-la representada na tela. Bem, me enganei. Há autores habilidosos
que conseguem manter a emoção mesmo tendo que descrever em dois longos
parágrafos, que nos tomam uns trinta segundos para serem lidos, a mesma cena
que só leva um décimo de segundo no cinema. Em relação ao cinema, a esta mesma
cena na literatura sofre um estiramento.>>>
O resumo, por outro lado, pode ser visto em cenas em
que porções da história são explicadas sem necessariamente submeter o
leitor/espectador a todo o percurso do que se quer fazê-lo conhecer. Um exemplo
é a cena do café da manhã em “Cidadão Kane”, que serve para revelar a história
de seu primeiro casamento sem que a audiência seja obrigada a acompanhá-lo
inteiro.
Elipse também tem uma duração menor do que o tempo da
história, só que nem chega a aparecer na linha do discurso. É um pulo no tempo,
ou algo do gênero. Assim, se nenhum fato relevante vai acontecer ao longo do
dia, em vez de se acompanhar o protagonista em seu escritório, a história já
avança para os eventos da noite, deixando que a luz, as roupas, o diálogo
explique que houve o salto no tempo.
Cena é o nome dado às porções de imagens que, nos
filmes, acontecem em “tempo real”, ou seja, em que o tempo da história é o
mesmo do discurso. Serve como um balizador, uma referência para a comparação
entre as ações de ampliação e redução do tempo do discurso em relação ao tempo
da história.
Além das relações temporais entre as linhas do tempo
descritas acima, há uma outra categoria de relações que é bem interessante:
trata-se da frequência. Assim, por exemplo, uma relação singular ocorre quando
um fato do discurso se refere a apenas um fato na história. Trata-se da forma
de relação mais comum e, portanto, balizadora das demais relações.
Uma relação repetitiva, por outro lado, acontece
quando o mesmo ponto, ou fato, da história é abordado repetidas vezes no
discurso. Em “Snatch, porcos e diamantes”, de Guy Ritchie, algumas cenas
aparecem repetidas vezes, sob a ótica de diferentes personagens. Por exemplo,
temos a cena em que Turkish (Jason Statton) e Tommy (Stephen Graham) estão em
um carro tendo uma discussão sobre laticínios e sistema digestivo. A cena é
cortada e passa para o interior de outro carro, da gangue de negros, onde Vinny
(Robbie Gee) e Sol (Lennie James) travam uma discussão sobre o uso, ou não, de
réplicas de armas em uma ação. Quando perguntado se as armas funcionam, Sol
dispara sua pistola no interior do veículo, fazendo com que as janelas
estourem. Na confusão, eles atropelam alguém.
Volta-se para o carro de Turkish e Tommy para se ver
este último tomando uma caixa de leite das mãos do amigo e atirando-a fora pela
janela enquanto afirma “Deixa eu te fazer um favor”. Imediatamente após este
fato uma freada é ouvida, seguida de uma batida.
Corta a cena para o carro de Bullet-Tooth Tony
(Vinnie Jones), que leva Cousin Avi (Dennis Farina) e um capanga. A audiência
acompanha o diálogo travado no interior do veículo quando, de repente, o
pára-brisa é coberto de leite. Com o susto, Bullet-Tooth Tony perde a direção e
bate o carro (o que é mostrado por uma câmera externa).
Volta a cena para o interior do carro, onde as
personagens estão meio atordoadas. Cousin Avi olha para fora e vê um patético
Boris the Blade (Rade Sherbedgia), de mãos atadas e rosto coberto por um capuz,
meio tonto, tentando em vão se orientar no meio da rua. Mais cedo foi mostrada
a cena em que ele é aprisionado na mala do carro de Bullet-Tooth Tony, levando
a audiência a concluir que, com o choque, a mala se abriu, permitindo que Boris
escapasse.
Tony e Cousin Avi ainda estão olhando para aquela
figura patética no meio da rua quando um carro a alveja. Trata-se do carro da
gangue de negros.
Assim, o atropelamento da personagem de Rade
Sherbedgia aparece primeiro sob a ótica da gangue de negros. Logo em seguida, o
público é surpreendido pela mesma personagem sendo atropelada “de novo”? Não,
trata-se de um “replay” da cena anterior, só que dessa vez seguindo as ações
pelo ponto de vista de Cousin Avi e Bullet-Proof Tony. O mesmo acontece em
relação à batida de carro provocada pela caixa de leite atirada na rua por
Tommy. Primeiro escuta-se a batida de dentro do carro de Tommy. Mais adiante,
será testemunhado este acidente pelo ponto de vista do automóvel que se
acidenta. A história dá saltos de alguns segundos para frente e para trás no
tempo, para encontrar a linha do tempo “mestra” novamente no momento do
atropelamento.
Muitas vezes em “Timecode” acontece a repetição. Nos
momentos em que personagens que estão sendo acompanhados por diferentes câmeras
se encontram vemos plano e contra-plano ao mesmo tempo, em duas (ou mais) das
janelas da tela. Em “24h” ocorre o mesmo. Em vários momentos, especialmente no
QG da unidade anti-terrorismo, onde trabalha o protagonista Jack Bawer, a tela
é divida em diferentes quadros, dois ou três, mostrando planos e contra-planos
que indicam os pontos de vista de diferentes personagens em cena.
Também em “24h” ocorrem outras divisões de tela, mas
dessa vez mostrando o que diferentes personagens estão fazendo naquele instante
em locais distintos. Por exemplo, em determinado momento três janelas se abrem,
a primeira mostrando o Senador Palmer conversando com seus acessores, outra
mostrando Jack Bawer dirigindo seu carro e a terceira mostrando a esposa e a
filha de Jack abraçadas na cela em que estão cativas. Neste exemplo não ocorre
repetição, mas múltipla singularidade. Quando se acompanha quatro personagens
em diferentes situações em “Timecode”, um em cada quadro da cena, eis um
exemplo de múltipla singularidade. Quando duas delas se encontram num corredor,
por exemplo, situação em que se acompanha plano e contra-plano em duas das
janelas, trata-se de um exemplo de repetição.
Múltipla singularidade não ocorre apenas com a ajuda
de telas divididas. Podem ser vistas nas clássicas cenas dos jornais que chegam
rodando até preencherem o quadro. Quando uma cena dessas ocorre mostrando uma
sequência de jornais, com diferentes matérias sobre acontecimentos diferentes
relacionados a um acontecimento maior, como a série de notícias sobre a turnê
de um artista a medida em que ele vai cruzando o país, se apresentando de
cidade em cidade, ou uma série de notícias sobre ataques terroristas que
ocorrem durante um certo período de tempo, ou diferentes aparições de um super-herói
nos céus da cidade ao longo de alguns dias, esses casos são exemplos de
múltipla singularidade sem haver a necessidade de se dividir a tela em janelas.
HIPERTEXTO
Até agora tratou-se de mídias, em princípio,
estáveis, ou ainda; imutáveis. O mesmo já não acontece no hipertexto. Ora, o
suporte do hipertexto, os discos de gravação, é uma mídia de acesso aleatório
às informações arquivadas, diferindo dos suportes anteriores, cujo acesso é
linear. <<<GLOSA: Eis uma analogia para tentar ser mais claro: de
vez em quando ministro palestras sobre o uso narrativo da cor no cinema. Para
isso, busco cenas de filmes para mostrar à audiência. Quando estou usando um
vídeo cassete, buscar essas cenas se torna um processo muito laborioso, e que
toma tempo, o que invariavelmente prejudica as palestras. Imagine só, ter que
ficar procurando as cenas de cada filme com as funções de “fast foward” e
“rewind”. Por outro lado, se uso um DVD, que possui uma estrutura de acesso aos
trechos gravados por indexação, assim com os HDs e CD-Roms, posso alcançar as
cenas com muito mais agilidade, simplesmente selecionando-as a partir de um
menu.>>>
O hipertexto funciona da seguinte forma: trechos de
informações são armazenados em uma mídia apropriada, como HDs e CD-Roms. Cada
um destes trechos possui funções que, quando acionadas, chamam (trazem à luz)
outros trechos de informações do hiperdocumento, são os linques ou âncoras.
Neste ponto, trabalha-se entre dois extremos: ou
tem-se um hiperdocumento estritamente linear, muito semelhante a um livro, ou
um hiperdocumento de navegação absolutamente livre, em que os trechos possuem o
mesmo nível hierárquico.
No primeiro caso, cada trecho do hipertexto possui
apenas linques que acionam o trecho seguinte ou o anterior. São os chamados
“botões de vai e volta”. Cada trecho, dessa forma, se assemelha a uma página de
livro.
No segundo extremo, cada trecho possui vários
linques, para vários outros trechos do hiperdocumento, podendo-se com essa
navegação, inclusive, passar por um trecho já visitado a partir de pontos
diferentes do documento.
Esta é a deixa para a introdução de outro nível de
discussão, absolutamente necessário quando se trata desses suportes de
armazenamento – e possivelmente acesso – aleatório.
Até então a linha do tempo do suporte foi tratada
como um elemento narrativo imutável e balizador das relações entre as demais
linhas do tempo. Agora, ao tratar do hipertexto, é preciso rever este conceito.
A linha do tempo do discurso que era de responsabilidade exclusiva do autor,
que a apresentava pronta para a audiência, agora deve ser desmembrada.
A
grande diferença entre os textos analógicos e os documentos eletrônicos reside
na sua forma de armazenamento, que se confunde com seu suporte. Enquanto
suportes analógicos, como o códice e a película cinematográfica, são lineares e
permanecerão assim enquanto sua integridade física for mantida, a forma de
armazenamento eletrônico, que ocorre nos discos rígidos, flexíveis e nos
cd-rons, é aleatória.
O
resgate destas informações no suporte eletrônico, e sua disponibilização
independe, por parte do usuário, do conhecimento de sua localização física na
superfície do disco magnético. Cada arquivo, porção de informação, ao ser
armazenada, recebe um código de indexação que é adicionado aos indexadores dos
diversos outros arquivos em uma região específica do disco de armazenamento
chamada tabela de alocação de arquivos, a qual a agulha sempre se reporta.
Essa
característica não linear de armazenamento e acesso dos computadores dá uma
nova dimensão à prática da redação/planejamento de conteúdo, na medida em que
permite que todas as informações, se esse for o desejo do programador, sejam
hierarquicamente equivalentes, podendo ser acessadas a qualquer tempo, de
qualquer ponto, uma vez que o sistema permite que todos os elementos sejam
oferecidos simultaneamente.
Com
isso, esta forma fragmentada de armazenamento e acesso à informação passa a ser
fundamental à análise dos documentos eletrônicos. O bom uso dessas
características é que fará a diferença entre os hiperdocumentos. Discurso
enquanto material armazenado é o nome que se dá aos fragmentos do
hiperdocumento armazenados no suporte eletrônico. Esses fragmentos possuem um
certo potencial que será atualizado ou não pelo usuário. Na verdade, dependendo
do autor/programador, esse potencial será maior ou menor. O menor potencial de
geração de histórias fará parte do hiperdocumento de navegação estritamente
linear, isto é, aquele que apenas possuir um botão de “vai” e outro de “volta”
em suas páginas, permitindo apenas que se navegue adiante, seguindo a história
em apenas uma direção, ou para trás, de forma absolutamente igual a um livro
(convencional), onde só se anda para frente, página a página, até sua
conclusão, ou para trás, se se quiser verificar algo que já foi lido.
Já
um hiperdocumento que permite uma série de caminhos diferentes, com vários
linques por página, possui um potencial maior de geração de histórias. Imagine
se “Timecode” fosse um hiperdocumento, em vez de um filme. Imagine também que,
em vez de se acompanhar as quatro câmeras ao mesmo tempo, apenas se
acompanhasse uma de cada vez, sendo facultado, de tempos em tempos, escolher
uma das restantes ou permanecer com a ativada no momento. A grosso modo,
ter-se-ia quatro histórias diferentes que poderiam ser acompanhadas inteiras,
cada uma delas, em separado, ou gerar a própria história do usuário, pulando-se
de uma câmera para outra, de tempos em tempos. Cada trecho entre os pontos em
que se poderia optar pela troca de câmeras é um hiperdocumento, com linques
para as câmeras. Os vários documentos, armazenados no computador, formam o
discurso enquanto material armazenado, e possuem um potencial de, no mínimo,
gerar quatro histórias em paralelo, mas também podem gerar várias outras,
contando com as várias possibilidades de se pular de uma câmera para outra.
Na
verdade, neste caso, a história será apenas uma, que conta um dia atribulado de
uma produtora de Los Angeles, conforme foi escrita e, neste caso, filmada pelo
diretor. Mas a forma de se visualizá-la, que gerará diferentes interpretações
por parte da “audiência”, vai depender de como cada usuário vai se comportar
diante dos linques.
A
história idealizada pelo autor, e executada pelos atores durante a filmagem,
que foi identificada anteriormente como linha do tempo do discurso, aqui passa
a ser identificada como “discurso enquanto discurso”. Trata-se de um conceito,
de uma idéia executada pelo autor. Uma analogia que talvez facilite é a
seguinte: para o hipertexto, o “discurso enquanto discurso” equivale a todas as
cenas de um filme que são filmadas, antes de serem editadas.
À
forma de armazenar em pequenos trechos, com linques, na mídia eletrônica,
chama-se “discurso enquanto material armazenado”. Dando continuidade ao exemplo
anterior, equivaleria a pegar todos essas cenas filmadas e juntá-las em um
repositório, um HD por exemplo, dando a opção à audiência de executar ela mesmo
a montagem do filme. Essas opções, no entanto, podem variar. Ou bem o diretor
pode exigir que cada trecho apenas possa acionar o seguinte, segundo o que ele
idealizou para sua história, ou bem ele pode permitir uma maior liberdade ao
público, adicionando linques em cada trecho que não apenas acionem uma cena,
mas várias outras, oferecendo várias oportunidades de edição diferentes.
Às
histórias potenciais, que são histórias que só existirão se acionadas, apesar
de serem uma manifestação da história conforme ela foi planejada pelo autor,
chamamos de “história enquanto material o armazenado”. Se, conforme o exemplo
acima, o diretor tiver permitido apenas um caminho para a reprodução de sua
obra, a “história segundo material o armazenado” será representada por um eixo
apenas. Já se ele tiver oferecido mais de uma opção de acesso aos trechos
armazenados, neste caso haverá várias possibilidades diferentes de história.
Quando
finalmente o usuário começa a navegar pelo hiperdocumento, explorando os
linques em cada trecho, vai trazendo à luz a sua história, isto é, a história
elaborada a partir de suas opções. Neste momento, a cada linque acionado, o
número de “histórias segundo o material armazenado” vai diminuindo até que
sobra apenas uma, resultado do caminho trilhado ao final. Havia várias
“histórias potenciais”, mas apenas uma foi “atualizada”.
Esta
história “atualizada” é chamada “história enquanto discurso”.
No
caso de “Amnésia”, quem o for assisti-lo em DVD poderá escolher entre duas
formas de reprodução: ou da forma como foi levada as telas, descrita
anteriormente neste artigo, ou de forma linear, segundo a cronologia dos
eventos da história. Ora, no DVD, os blocos de ação de “Amnésia” são
armazenados em uma mídia de acesso aleatório. Assim, ao se escolher entre uma
ou outra opção de reprodução, não há dois filmes diferentes armazenados, apenas
duas ordens diferentes de acesso à cenas.
As cenas armazenadas no DVD compõem o “discurso
enquanto material armazenado”. Elas encerram um potencial de formação da
história, que será atualizado pelo usuário no momento em que ele optar por uma
ou outra reprodução. A “história enquanto material armazenado” é, neste caso,
uma só, por não haver ramificações e se tratar da mesma história, integralmente
apresentada, apenas manifesta de duas maneiras diferentes. Da mesma forma, a
“história enquanto discurso”, aquela montada pelo usuário, aqui no caso a
partir da escolha entre dois linques apenas, também é uma só, pelo mesmo motivo
acima citado.
Pode-se perceber, pelo exposto acima, que as mídias
de acesso aleatório permitem ao autor a possibilidade de dividir a autoria com
a audiência. Quando oferece mais de um caminho possível de ser trilhado,
através de múltiplos linques nos trechos que compõem o hiperdocumento, o autor
transfere a responsabilidade pela elaboração da história.
Logicamente as opções de navegação e, por
conseguinte, as várias possibilidades de história deverão ter sido criadas pelo
autor, mas como elas serão manipuladas pelo público, ele pode no máximo
acompanhar, mas não interferir.
Experiências com histórias de múltiplas
possibilidades não são novidades da mídia eletrônica. Alguns livros analógicos,
como “A Cidadela do Caos”, de Steve Jackson, já experimentavam essas
possibilidades, embora sem a agilidade da eletrônica.
Em
“A Cidadela do Caos” acompanha-se as peripécias de um herói enquanto ele
explora os calabouços e uma cidadela medieval fantástica. A todo instante o
leitor é obrigado a escolher entre essa ou aquela ação do herói, entre esse ou
aquele caminho. Escolhas acertadas levarão a personagem ao sucesso. Escolhas
erradas resultarão em sua morte.
Livros desse tipo são chamados “livros aventura” ou
“livros interativos” e são ma forma de RPG (role playing games), nome
dado a jogos onde os participantes incorporam e representam personagens. No
caso dos livros, o leitor, ao assumir o destino do herói, passa a incorporá-lo,
como em um RPG.
RELAÇÃO INFORMAÇÃO X CULTURA
As diferenças entre as linhas de tempo do discurso e
da história, ou seja, entre aquilo que o autor oferece versus aquilo que a
audiência apreende, também estão presentes no hiperdocumento, apenas com uma
dimensão a mais, pois o material não é mais disponibilizado pronto, mas recebe
a participação do usuário em sua elaboração, me traz à mente é uma relação
semelhante àquela entre informação e conhecimento.
Informação, embora seja um pré-requisito para o
conhecimento, absolutamente não é suficiente para assegurá-lo, muito pelo
contrário. Cada pedaço de informação deve possuir uma certa qualidade que
assegure que ele efetivamente se transforme em conhecimento. Que qualidade é
essa, bem, há vários teóricos que debatem exatamente isso. Particularmente,
gosto das teorias de aprendizado significativo de David Ausubel, que perfeitamente
podem ser interpretadas e aplicadas pelos Designers.
O fato é que a Informação é de responsabilidade de
seu produtor, que deve usar de sua habilidade e técnicas adequadas para
assegurar que o público a quem ela se destina tenha condições para não apenas
entendê-la, mas adicioná-la à sua rede de conhecimento.
Acontece que esse poder de interpretação recai nas
costas do receptor. Por maiores que sejam os esforços do emissor, apenas ele
pode interpretar a informação e transformá-la em conhecimento.
O que me parece interessante no hipertexto é que ele
possibilita diferentes formas de se produzir material chamado por Ausubel como
“significativo”, que é adicionado à rede de conhecimento, passando a servir de
base para a adição de mais informações. O próprio hiperdocumento é uma rede e,
como tal, permite o estabelecimento de múltiplas relações entre os elementos,
aumentando sua possibilidade de compreensão.
Todos os artifícios narrativos citados até agora
encontram reflexo e podem ser explorados no ambiente digital. Elipse, sumário,
estiramento, múltipla singularidade, repetição... todos esses elementos quem há
muito vêm sendo explorados pelas mídias tradicionais analógicas encontram toda
a sua potencialidade nas mídias digitais.
Através do uso criativo e inteligente desses
artifícios, designers instrucionais e webdesigners podem assegurar, ou pelo
menos tentar tornar mais eficiente, a transformação da informação em
conhecimento.