PUC-Rio

Departamento de Artes e Design

Mestrado em Design 2002

Irina Aragão dos Santos

Formação em Design de Jóias

(título provisório)

 

Orientação: Profª Drª Rita Couto e Prof. Dr. Washington Lessa

 

 

Disciplina: ART 2205 – Tópicos Especiais em Design IV

O lugar do narrativo na mídia visual: temporalidade paralela

2003.1

Prof. Dr. Luiz Antonio L. Coelho

 

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Trabalho final

 
Sumário

 

Apresentação

Introdução

1. A jóia como veículo de comunicação

2. A jóia e a narratividade

Conclusão

Bibliografia

Referências visuais

 

 

 

 “A mercadoria é, antes de mais nada, um objeto externo, uma coisa que por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estômago ou da fantasia. Não importa a maneira como a coisa satisfaz a necessidade humana, se diretamente, como meio de subsistência, objeto de consumo, ou indiretamente, como meio de produção.”

Karl Marx

 


 

Apresentação

O fascínio pela diversidade cultural da humanidade e as suas várias manifestações, despertou o interesse pelo estudo e reflexão sobre o uso dos adornos[1], elementos integrantes do cotidiano das sociedades.

 

Após a conclusão do Curso de Graduação em Desenho Industrial, na EBA / UFRJ; o aprendizado das técnicas básicas de ourivesaria no atelier de Jefferson Zanon e Paulo Accorsi (Rio de Janeiro); frequência no Curso de Extensão, no qual as técnicas de esmaltação e filigrana receberam maior foco, na Escola Superior Artístico-Industrial de Moscou – Strógonov (Rússia); ingressei no mercado de trabalho, como designer de jóias da equipe de criação da joalheria Amsterdam Sauer, no Rio de Janeiro. As experiências vivenciadas desempenharam função catalizadora no envolvimento, curiosidade, interesse e vontade de contribuir para o crescimento do design dentro do setor joalheiro nacional. Os anos de atuação neste mercado, como designer contratada ou freelancer, somados à experiência acadêmica, resultaram em reflexões e questionamentos sobre a forma de pensar, desenvolver e realizar o projeto de design neste setor industrial. A busca pelas respostas referentes à relação do designer / design / usuário / contexto, levou-me a ingressar no Curso de Graduação em História (IFCS / UFRJ), pois tornou-se necessário o conhecimento e a compreensão dos mecanismos que geram a demanda no homem de criar e adquirir objetos e produtos.

 

Os estudos e discussões realizados dentro do Curso de Graduação em História, constantemente direcionavam para a reflexão sobre o objeto / produto - jóia, seu significado dentro das sociedades, sua relação com o usuário, com os processos de sua criação, fabricação, comercialização e divulgação. A partir do tema proposto para pesquisa - Metodologia de projeto aplicada ao design de jóias, título inicial, no Curso de Mestrado em Design da PUC-Rio, buscou-se a identificação destas questões e o embasamento teórico, fundamental na construção de idéias, que resultaram em novas perguntas e opiniões.

 

Paralelamente, disciplinas externas ao Departamento de Artes e Design foram cursadas, na Pós-Graduação em História Comparada – PPGHC, do IFCS / UFRJ, objetivando estudar e discutir as questões referentes ao olhar sobre o outro, a modernidade e as suas intituições; tornando possível a combinação de tais referências às abordagens amplas sobre o design conduzidas nas disciplinas do Programa de Pós-Graduação em Design, da  PUC-Rio.

 

No presente trabalho, objetiva-se conduzir reflexão sobre a necessidade humana de expressar-se, diferenciar-se e comunicar-se através de objetos, abordando os usos e significados atribuídos às jóias, dentro das sociedades humanas, a partir das questões trabalhadas na disciplina O lugar do narrativo na mídia visual: temporalidade paralela. Nesta disciplina, foi proposto examinar a narratividade a partir de diferentes visões téoricas e na produção visual de massa. Discussões em torno dos processos narrativos elaborados pelo cinema, relacionando-os aos de outras expressões visuais, foram promovidas, auxiliando os alunos a desenvolver capacidade analítica e crítica com relação à representação visual da narrativa, bem como a realizar uma avaliação de seu objeto de pesquisa a partir destas informações.

 

Considero importante registrar que os mencionados conteúdos desempenharam importante papel na fundamentação teórica desta dissertação, bem como no estudo do objeto desta pesquisa.


 

Introdução

A jóia, o folheado[2] e a bijuteria[3] são objetos classificados, a priori, como de adorno, vinculados à moda, produzidos por processos artesanais ou semi-industriais de fabricação. Aqui abro parêntese para esclarecer que o termo “semi-industrial”, refere-se às características de produção do setor joalheiro industrial atual, que tem grande participação do trabalho artesanal e faz uso simultâneo de processos de fabricação seriada. Por vários anos, estes objetos não foram considerados como produtos resultantes de projeto em design. Tais considerações acham-se refletidas na conduta do setor industrial, que contratava artistas ou auto-didatas para criarem seus produtos, ou reproduzirem modelos trazidos do exterior, assim como copiarem modelos de revistas e catálogos estrangeiros. Esta é postura característica ao setor industrial nacional, que durante muito tempo permaneceu refratário ao design e à idéia de contratar profissionais capazes de desenvolver produtos de qualidade e de sucesso.

 

A criação dos adornos pessoais esteve vinculada a um processo artístico e intuitivo, não se desenvolvia um projeto e não se adotava metodologia de projeto em design no desenvolvimento destes objetos / produtos. Um dos principais resultados desta conduta pode ser observado nas vitrines, catálogos, propagandas das pequenas, médias e grandes lojas do setor, onde a variedade de peças é enorme, poucas coleções são desenvolvidas (geralmente pelas grandes empresas) e existe alta rotatividade de mercadorias, gerando a constante necessidade de lançar modelos novos no mercado. As consequências deste estado de coisa são observadas a partir da dificuldade da empresa solidificar sua identidade através do produto; renovar constantemente mercadorias – o que gera vida curta do produto, impossibilitanto, inclusive, a percepção e absorção do consumidor destes lançamentos; realizar campanhas de divulgação e promoção dos produtos.

 

Nos últimos treze anos, sente-se uma mudança nesta relação, na qual o design deixou de ser estranho aos empresários, pois passou a ser compreendido, ou apenas aceito, como importante instrumento no desenvolvimento de produtos diferenciados e competitivos. Inclusive, os produtos de moda como as jóias, folheados, bijuterias e acessórios passaram a ser aceitos como produtos de design. Muitos designers, arquitetos e artistas plásticos começaram a dedicar-se ao segmento de jóias e gemas[4]. Atualmente, estudantes de design direcionam seu interesse para este produto de fascínio e desejo.

 

A presente pesquisa mostra-se oportuna e importante em um momento de crescente demanda de profissionais em design familiarizados com o setor joalheiro. O setor joalheiro brasileiro vem crescendo significantemente nos últimos dez anos[5], apontando para a necessidade de tornar o produto nacional mais competitivo no mercado externo, reconhecido pela qualidade, bem como torná-lo mais atraente para o consumidor interno. A necessidade da adoção do design como instrumento fundamental no desenvolvimento de produtos diferenciados é atualmente aceita pelo setor empresarial, embora ainda não haja pleno conhecimento do papel do designer na indústria.

 

As diretrizes resultantes da pesquisa proposta podem possibilitar a compreensão e a reformulação dos procedimentos no desenvolvimento de produto, assim como propiciar a atuação do designer no processo produtivo nas indústrias. Possibilitam, também, instrumentalizar o designer interessado em desenvolver atividades empreendedoras, como iniciar seu próprio negócio, por exemplo.

 

Pretende-se adotar como parte da metodologia de pesquisa a análise do processo de desenvolvimento de produtos no setor joalheiro nacional, buscando-se através desta, elementos balizadores para a formação acadêmica de designers que desejem atuar no setor. Por meio destes profissionais, torna-se possível divulgar junto ao setor empresarial joalheiro a fundamental atuação do designer no processo de desenvolvimento do produto (pesquisa de oportunidade), na criação e no acompanhamento da produção. A maior inserção do designer no setor joalheiro propicia, também, a geração de uma conduta de produção mais otimizada, e o lançamento de linhas e/ou coleções que sedimentem a identidade da empresa no mercado, possibilitando o desenvolvimento de estratégias de marketing na divulgação destes produtos.

 

1. A jóia como veículo de comunicação

O homem, como ser social, se expressa e se comunica por movimentos, gestos, símbolos e sinais, sendo o produtor das mais variadas manifestações culturais. Clifford Geertz, no livro intitulado A interpretação das culturas, entende por cultura um sistema simbólico, portanto, um código de símbolos partilhados pelos membros dessa cultura, que os acompanha pela história, passando por aprendizados, assimilações e mudanças. O patrimônio cultural, portanto, expressa valores, desejos, crenças, tradições e identifica o homem como indivíduo em um grupo e este grupo em uma sociedade (Laraia, 1999: 46).

 

Na pesquisa proposta, optou-se por trabalhar com o adorno pessoal – jóia, pois este aparece como um símbolo das inúmeras formas humanas de expressão e de comunicação, que podem se manifestar através da roupa (Ilust. 01), pintura corpórea (Ilust. 02), das tatuagens (Ilust. 03), escarificações[6] (Ilust. 04), interferências e alterações de partes do corpo (Ilust. 05).

 

 

I. Adornar (Do lat. adornare.) V.t.d. 1. ornar, ornamentar, enfeitar; compor, decorar (…) 2. Tornar atraente, agradável, interessante, etc (…) 3. Enfeitar-se, ornar-se, ornamentar-se, compor-se.

Adorno (ô). (Dev. de adornar) S.m. 1. Aquilo que adorna, que enfeita, que decora: objeto de adorno. 2. Ornato, ornamento, adornamento. 3. Atavio, enfeite.

(Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2ª edição, 1986, p. 49.)

 

Ilustração 01 - Roupa escultura, organza, criação da designer têxtil Aysel Úruk, 1996.

 
 

 

 

 


II. Adornar vb. ‘ornar, enfeitar’ XVI. Do lat. Adornãre // adorno XVII.

(Cunha, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986, p. 16.)

 

Ilustração 02 - Moças de Surma, Etiópia.

 

 

 

III. Bijou n. Petit objet ouvragé, précieux par la matière ou par lê travail et servant a la parure. bijouterie 1.Fabrication, commerce de bijoux. 2.Lieu où l´on vend, où l´on expose des bijoux.

(Le Robert Micro. Paris: Le Robert,1998, p.130. Redaction dirige par Alain Rey Principaux collaborateurs: Troisiéme édition – Marie-Hélène Drivaud; Danièle Morvan, avec le concours de Bruno de Bessé)

 

Ilustração 03 - Modelo tatuada, usando estilo Glória Coelho

 
 

 

 

 


IV. Jóia (Do fr.ant. joie, ‘jóia’, que convém não confundir com o atual joie, ‘alegria’.) S.f. 1. Artefato de matéria preciosa, de metal ou de pedrarias e que se usa como adorno, como anéis, colares, tiaras, brincos, broches, etc. (…) 2. Fig. Pessoa ou coisa de grande valor, ou muito boa, ou de aspecto agradável: (…) 4. Bras. Quantia paga, em geral de uma só vez, pelos que são admitidos ao quadro de sócios de certas associações, clubes, etc 5. Bras. Gír. muito bom ou bonito; excelente.

(Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2ª edição, 1986, p. 990.)

 

Ilustração 04 - Mulher com escarificações formando padrão, Congo. São marcas de sua bravura, bem como realce de sua beleza. Padrões semelhantes têm sido reproduzidos em tecidos e escultura há vários século por esta cultura.

 
 

 

 

 

 

 


Caixa de texto: V. bijuteria sf. ‘objeto de adorno feminino’ ‘ramo da ourivesaria que trabalha com metal sem valor’ / 1881, -aria XX / Do francês bijouterie. 
Jóia sf. ‘artefato de matéria preciosa usado em geral como ornamento’ / XV, joya XIV / Do a.fr. joie, derivado regressivo de joiel (atual joyau) e, este, do lat. jocãlis ‘aquilo que alegra’, de jocus ‘jogo’.
(Cunha, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986, pp. 109, 456.)

 

Ilustração 05 - Homem da tribo Suya, Brasil central, usa disco de madeira no lábio inferior e ornamento circular no lóbulo da orelha, confeccionado de madeira ou folha de palmeira, revestido com argila, tradicional na região. Este objeto é usado por homens e mulheres.

 
 

 

 

 

 

 


A jóia é considerada uma das mais antigas manifestações das Artes Decorativas, segundo o museólogo John Mack (1995: 9): ora significa fé e devoção; ora status social, econômico e cultural; ora amuleto; ora veículo da cura; ora apenas um objeto de decoração. É símbolo de individualidade e coletividade; de valores morais e estéticos; da alma humana; de suas tradições, heranças e antepassados; rituais; crenças; prosperidade; compromisso; comportamento, desenvolvimento tecnológico; além de ser um objeto de adoração, contemplação e desejo.

 

Nesta abordagem, podemos observar que a jóia, objeto que tem como suporte o corpo humano, veículo vivo, dinâmico e mutável de idéias, emoções, sensações e padrões, portando, de comunicação, vem acompanhando a humanidade por toda a sua trajetória, se adequando às suas necessidades e aos seus valores em contextos históricos, econômicos, sociais e culturais distintos. São metáforas do cotidiano, pois os seus vários significados, subjetivos ou objetivos, são idealizados e materializados pelo homem de metal e outros materiais. Através das jóias, laços de parentesco, afinidade ou afeto são reforçados; alianças são firmadas; o belo é cultuado; a sexualidade é enaltecida ou condenada, os antepassados são reverenciados; a fé é exaltada e a proteção é rogada. São símbolos do fetichismo de um contexto, falam da adoração de objetos animados ou inanimados aos quais poderes sobrenaturais, mágicos e espirituais são atribuídos.

 

De um modo geral e atual, chama-se jóia o objeto de adorno pessoal, confeccionado de materiais convencionados como valiosos. Sem dúvida, este valor está vinculado à circulação comercial de metais e pedras chamados de preciosos. É importante observar que tal conceito reduz este objeto de fascínio milenar a apenas um artigo de especulação comercial.

 

O homem mesmo antes de se vestir usou jóias, confeccionadas de peles, presas, ossos, conchas, seixos, fibras vegetais, madeiras e outros materiais tidos então como preciosos. Preciosos por que? - Preciosos porque através destes, provavelmente, buscava-se expressar idéias, valores, atitudes, posição social, crenças, prestígio e poder. O adorno pessoal surge e perpetua-se, portanto, como veículo de comunicação e expressão das necessidades (Löbach, 2000: 24), desejos, cultura, origem e sentido de pertencimento de um indivíduo, de um grupo, de uma sociedade. É uma das formas do homem se diferenciar, se identificar e firmar sua posição social.

 

Desta forma, podemos perceber a jóia, o adorno pessoal, como ícone da identidade do indivíduo, grupo e sociedade, resultante da intenção, percepção e relação com o outro. A jóia, portanto, funciona como um dos mecanismos da alteridade, isto é, de demarcação da distinção, da qualidade que se constitui através de relações de contrastes e diferenças. Este mecanismo é um dos símbolos de dominação, intenção e confirmação da hegemonia, de prestígio e do poder.

 

A mencionada hipótese nos remete às questões discutidas a partir dos textos de Janet Wolff em A Produção Social da Arte, em que se analisa a natureza da obra de arte, de sua produção, distribuição e percepção. A leitura é iniciada com a afirmação de que a arte é um produto social, portanto, faz-se necessário mencionar que todos os objetos, inclusive os produtos de design, bem como os adornos pessoais como as jóias, são produtos sociais, conseqüentemente, construções resultantes de vários fatores, reais e históricos, em determinado contexto econômico, político, cultural e ideológico. Este contexto está vinculado às estruturas e convenções sociais construídas, portanto, é afetado por elas.

 

Para localizar a jóia, seus vários significados e papéis dentro das estruturas sociais, faz-se reflexão pela ótica de Pierre Bourdieu, que disserta sobre o papel dos bens simbólicos dentro destes sistemas na obra A Economia das Trocas Simbólicas.

 

Bourdieu identifica o espaço social como o lugar onde agentes sociais, oriundos da mesma ou diferentes classes sociais, se relacionam. As classes sociais, portanto, são resultados da construção classificatória, sistêmica e relacional do espaço social, que vai legitimar os bens simbólicos. Estes agentes sociais têm diferentes pontos de vista sobre o mundo, relacionam-se entre si de formas diversas. Em função disto, as classes também têm diferentes graus e tipos de relação que geram os princípios da hierarquização pelos diferentes graus de posse de bens, recursos e capital, demarcando as distâncias sociais. Segundo Bourdieu, capital tem significado de bem utilizado nas disputas sociais entre os agentes. O capital pode ser econômico, social, cultural e simbólico; este último diretamente vinculado aos valores econômicos, intelectuais, artísticos e estéticos, quando conhecidos, reconhecidos e legitimados como tais.

 

Os bens simbólicos são construções eficazes em perpetuar a hierarquização social, e, conseqüentemente, as distâncias sociais, pelo exercício do poder através da dominação simbólica legitimada e alimentada pelo contexto e pela estrutura social em vigor.

 

A jóia, portanto, surge como um elemento estratégico de dominação, pela necessidade de auto-afirmação e identificação dos agentes sociais inseridos em uma estrutura social. Chama-se a atenção para a dinâmica deste organismo, que relaciona grupos distintos, inclusive os que negam o grupo dominante pela exclusão de elementos simbólicos então dominantes, gerando, consequentemente, um novo grupo. Torna-se claro o movimento e a relação destas estruturas, que vivenciam a dependência como necessária para legitimar a estrutura construída.

 

E neste momento, faz-se oportuno mencionar as idéias de Karl Marx, imortalizadas no Livro I, volume I, do O Capital; no qual o autor discorre sobre as mercadorias, que são resultados da produção do trabalho humano, portanto, produtos sociais, que quando circulam no mercado, objetivando atender à demanda das múltiplas necessidades humanas, objetivas ou subjetivas, que tornam qualquer objeto ou coisa em valor-de-uso. A mercadoria é a riqueza dentro do sistema de produção capitalista. Sua utilidade determina o seu valor-de-uso, que será o veículo material do valor-de-troca, este variável de acordo com o contexto.

 

Entende-se como necessária a compreensão do bem simbólico como elemento importante na sedimentação da identidade do produto brasileiro dentro do mercado mundial. Simultaneamente, observa-se a necessidade de buscar, resgatar e perpetuar a cultura, as tradições e a identidade deste povo e sua história. Lembramos que o Brasil produz 60%[7] das gemas consumidas no mundo e ocupa o 12º lugar[8] como produtor mundial de metais preciosos. Portanto, torna-se importante agregar valor a esta matéria-prima pelo design e tornar o produto nacional competitivo. E aqui se levanta a questão da criação meramente intuitiva destes objetos / produtos.

 

Retoma-se a discussão sob a ótica de Janet Wolff, em que o artista é um indivíduo dotado de genialidade e habilidade criadora ímpar, quiçá divina. Mas a estrutura social, capitalista, industrial atual demanda ou faz demandar, objetos que expressem este sistema e as suas necessidades. E dentro deste mecanismo, o design, pelo uso de metodologia de projeto cria, de forma sistematizada e ordenada, objetos / produtos para o consumo, que embora produzidos em massa, tornam-se únicos e especiais, veículos de afirmação de valores, convenções, aspirações e identidade.

 

 

2. A jóia e a narratividade

 

Deixamos rastros  na passagem pela vida. Rastros do que fazemos, no que fazemos e de como fazemos. (…) Os vestígios que deixamos impregnados nos objetos podem ser, portanto, marcas semânticas, verdadeiros signos de época. Enquanto signos, essas marcas representam valores simbólicos atribuídos ao objeto por seu autor ou fabricante, incluídos aí os afetivos e ideológicos. (Coelho; 2002: 269)

 

O homem expressa-se, comunica-se e relaciona-se através dos objetos, que são produtos sociais, que se tornam extensões das necessidades humanas mais objetivas às mais subjetivas. Ao materializar suas idéias, desejos, necessidades, convenções e formas de se relacionar consigo e com o outro em objetos, transforma-os em personagens e atribuí-lhes um papel e/ou referência em dado contexto. O objeto, portanto, narra pela sua função (usos e inserção dentro do cotidiano e na sociedade); através do material e processo pelo qual é confeccionado (evidencia sua origem, características técnicas e conhecimentos tecnológicos); por intermédio de inscrições, imagens, decorações (relevos e rebaixos, apliques, grafismos, padrões, cores…) e estilo (que vai nos falar do gosto de determinado grupo, em determinada época, de seus valores simbólicos e cotidianos, atributos afetivos e econômicos).

 

O objeto / coisa está dentro e fora de nós. Para conscientizar-se de si próprio, o ser humano fez objeto de si mesmo. E para ampliar sua capacidade física e mental usa o objeto como prótese de seus órgãos. É o objeto quem constitui a base do valor e é marca do status de seu possuidor. A própria história da humanidade é marcada por nossa relação com o objeto. As grandes fases que atribuimos à cultura estão associadas ao tipo de material e objeto utilizados nos diversos períodos. (Coelho; 2002: 267)

 

O objeto é um suporte material do relacionamento social. Através de seu corpo (sua forma, construção, estilo e funções) e valores, os indivíduos e grupos se expressam e se comunicam. É expressão da diferenciação em um grupo; integração e pertencimento pelos privilégios comuns; identidade; classificação social; preferências; modelos de atitude adotados ou almejados. ”Objects participate in human communication and support linguistically mediated social practice” (Krippendorff, 1989: 170). Ocupam espaço em nosso desejar; determinam hierarquias no bem estar; são referências de nossa afetividade, identidade e personalidade – “são modelos do sujeito ao mesmo tempo que modelos para o sujeito”; legitimam o pertencer a algum grupo e as suas qualidades.

 

Resultam de um processo intencional de pensar, organizar, sistematizar, planejar, projetar e desenvolver produtos, a partir de oportunidades identificadas no mercado, que chama-se design. Dentro deste universo, questões referentes ao usuário são prioritárias: satisfação das necessidades subjetivas e objetivas, buscando tornar o cotidiano mais prático, otimizado, confortável, prazeroso e inteligente. Trata-se de uma combinação de elementos percebidos e absorvidos, pelo designer, no contexto histórico, social, cultural, econômico e político em que estão inseridos, somados à tecnologia e recursos disponíveis; (…)” artifacts can best be seen informationally, as temporarily frozen manifestations of pattern” (Krippendorff, 1989: 174-175).

 

O design é uma atividade criativa, em que o designer faz uso das suas experiências profissionais e de vida, formação e visão do mundo para materializar idéias e soluções em objetos / produtos, objetivando atender demandas e preencher desejos dos usuários. A partir de referências acumuladas e naturalizadas, significados são atribuídos aos produtos de design; relacinando-os com outros objetos conhecidos, para que estes sejam reconhecidos e adotados pelo público. ”The context into which people place the object they see is cognitively constructed, whether recognized, or wholly imaginary.” (Krippendorff, 1989: 159)

 

Conclusão

Embora tenha chamado este item de conclusão, tenho clara a idéia de que não há conclusão final, nem verdade fixa e única que descreva, disserte e/ou discuta as diversas questões do universo da cultura material das sociedades humanas. Percebemos que ao pensarmos os objetos – jóias, torna-se inevitável falarmos da expressão, comunicação, narratividade e relação entre indivíduos e grupos.

 

A partir de um presente, analisam-se referências e experiências passadas, identificando nelas os produtos sociais, que são resultados de formas de exercer a política, pensar a economia, os aspectos sociais e culturais. Estudamos fatos, nomes e personalidades, datas, convenções e construções, causas e efeitos de condutas e ações, dos mais variados contextos e grupos sociais. Reflexões sobre a natureza humana: a necessidade de produzir idéias e materializá-las; dar sentidos e significados à vida e a estas produções; a necessidade de expressar, comunicar e compartilhar suas realizações, anseios, angústias, medos e desejos formatam e modelam as sociedades humanas, portanto sua história. O conhecimento necessário para o sujeito poder perceber a si mesmo apresenta-se árduo, já que nos encontramo afastados de nossa essência, afastados da real forma de ser em consequência do processo civilizador, que cada sociedade contrói para que a ordem seja mantida e a coexistência possível. Normas de conduta, ordens, valores morais e simbólicos, demandas e desejos são configurados, em que a classificação torna-se natural, a busca pelo domínio pela relação hierarquizada faz-se comum e assegurada por diversos mecanismos que cuidem desta naturalização e forma de ver a vida. O medo da finitude torna o homem ansioso por controlar todos os fenômenos que não conhece ou não entende, percebe o conhecimento como um instrumento fundamental no controle de seu passado, presente e futuro. O mal-estar com o vazio, resultante da forma convencionada de dar sentido à vida e das limitações humanas em dominá-la, tornam-se sombras nesta trajetória em que cada indivíduo, grupo e sociedade estabelece metas e valores para atingir a plenitude do bem-estar.

 

Bibliografia

  1. WOLFF, Janet. A Produção Social da Arte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1982.
  2. BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas. 5ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001.
  3. DENIS, Rafael. Design, cultura material e o fetichismo dos objetos. In Arcos, volume I. São Paulo: _________, 1998, pp.15-23.
  4. GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
  5. TAIT, Hugh. Seven Thousand Years of Jewellery. Londres: British Museum Press, 1997.
  6. LARAIA, Roque de Barros. Cultura - Um Conceito Antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 13ª edição, 1999.
  7. LÖBACH, Bernd. Design Industrial - Bases para a configuração dos produtos industriais. São Paulo: Editora Edgard Blücher, 2000.
  8. MACK, John. Ethnic Jewellery. Londres: British Museum Press, 1995.
  9. BAXTER, Mike. Projeto de Produto. São Paulo: Editora Edgard Blücher, 1998.
  10. BONSIEPE, Gui. Design do material ao digital. Santa Catarina: IEL/LBDI, 1997.
  11. ATTFIELD, Judy. Wild Things – The material culture of everyday life. Oxford: Berg, 2000.
  12. KRIPPENDORFF, Klaus. On the Essential Contexts of Artifacts or on the Proposition that “Design is Making Sense (of Things)”. In. VICTOR, Margolin. Design Discourse: History, Theory, Criticism. Chicago: University of Chicago Press, 1989, pp. 91-109.
  13. FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1997.
  14. MARX, Karl. O Processo de Produção do Capital. In:O Capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, Livro I, vol. I, 19ª edição, 2002: pp. 57-105.
  15. COELHO, Luiz Antonio. O objeto na condução narrativa: O caso Ano Passado em Marienbad. In: Anais do Socine 2001 (Quinto Encontro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema). Porto Alegre: UCRS, 2001.
  16.  COELHO, Luiz Antonio L. À sombra do objeto. In: Comunicarte. ______: _____, vol. 1, nº 31, dezembro 2002, pp. 267-272.
  17. COELHO, Luiz Antonio L. Tal objeto tal dono. In: ____________. _____________. _________: _______, _______.
Referências visuais

1.      Ilustração 01: SCHMUCK Magazin. Ulm: Ebner Verlag GmbH, julho, 3/1998 (E5209), p. 75. ISSN 1432-8313

2.      Ilustrações 02: ORNAMENT – The art of personal adornment. San Marcos (CA): ________, vol. 23, nº 4 / summer 2000, p. 58.

3.      Ilustração 03: Marie Claire. São Paulo: Editora Globo, nº 133, abril 2002, p.__.

4.      Ilustrações 04: CLARKE, Duncan. African Hats and Jewellery. Londres: PRC Publishing, 1998, p. 8.

5.      Ilustração 05: MACK, John. Ethnic Jewellery. Londres: British Museum Press, 1995, p.05.



[1] Neste trabalho, bem como na dissertação em andamento, denominaremos de adorno, ou adorno pessoal, ou objeto de adorno, todos os objetos utilizados pelo homem sobre o corpo, envolvendo partes do corpo, interferindo no corpo, aplicados sobre o corpo, que desempenham várias funções e têm distintos significados dentro das sociedades: símbolo de status social, econômico e cultural; símbolo de fé, devoção e religiosidade; veículo de cura; dote; riqueza; jóia; bijuteria; folheado e similares. Busca-se um termo amplo para os diversos significados atribuídos a este objeto, aqui citamos sinônimos para o termo adorno: adereço, acessórios, enfeite, ornato, ornamento, atavio, objeto ritual ou simbólico. Fonte consultada: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2ª edição, 1986).

[2] folheado 2. [Part. De folhear 2.] Adj. 1. Que se folheou, revestido, foliado: (…); relógio folheado a ouro. (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2ª edição, 1986, p. 796).

 

[3] bijuteria. [Do fr. bijouterie.] S.f. (…) 2.Ramo da ourivesaria que trabalha com obras baratas, de metal sem valor. (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2ª edição, 1986, pp. 257-258).

 

[4] Gema [Do lat. gemma.] S. f. 4. Pedra preciosa. (…). Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2ª edição, 1986, p. 843.

[5] Segundo DEE (Documento Especial de Exportação) 2001-2002 / MDIC / SECEX / DECEX / IBGM.

[6] Escarificação. [ Do lat. scarificatione] S.f. 1. Ato ou efeito de escarificar. 2. Med. Produção de pequenas incisões simultâneas e superficiais na pele. Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2ª edição, 1986, p. 685.

 

[7] IBGM (Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos)

[8] Gold Fields Mineral Services Ltd. Gold 2000