PUC-Rio
Departamento de Artes e Design
Mestrado em Design 2002
Irina Aragão dos Santos
(título provisório)
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Apresentação
Introdução
1. A jóia como veículo de comunicação
2. A jóia e a narratividade
Conclusão
Bibliografia
Referências visuais
Karl Marx
O fascínio pela diversidade cultural da humanidade e as suas
várias manifestações, despertou o interesse pelo estudo e reflexão sobre o uso
dos adornos[1], elementos
integrantes do cotidiano das sociedades.
Após a conclusão do
Curso de Graduação em Desenho Industrial, na EBA / UFRJ; o aprendizado das
técnicas básicas de ourivesaria no atelier
de Jefferson Zanon e Paulo Accorsi (Rio de Janeiro); frequência no Curso de
Extensão, no qual as técnicas de esmaltação e filigrana receberam maior foco,
na Escola Superior Artístico-Industrial de Moscou – Strógonov (Rússia);
ingressei no mercado de trabalho, como designer de jóias da equipe de criação
da joalheria Amsterdam Sauer, no Rio de Janeiro. As experiências vivenciadas
desempenharam função catalizadora no envolvimento, curiosidade, interesse e
vontade de contribuir para o crescimento do design dentro do setor joalheiro
nacional. Os anos de atuação neste mercado, como designer contratada ou freelancer, somados à experiência
acadêmica, resultaram em reflexões e questionamentos sobre a forma de pensar,
desenvolver e realizar o projeto de design neste setor industrial. A busca
pelas respostas referentes à relação do designer / design / usuário / contexto,
levou-me a ingressar no Curso de Graduação em História (IFCS / UFRJ), pois
tornou-se necessário o conhecimento e a compreensão dos mecanismos que geram a
demanda no homem de criar e adquirir objetos e produtos.
Os estudos e discussões
realizados dentro do Curso de Graduação em História, constantemente
direcionavam para a reflexão sobre o objeto / produto - jóia, seu significado
dentro das sociedades, sua relação com o usuário, com os processos de sua
criação, fabricação, comercialização e divulgação. A partir do tema proposto
para pesquisa - Metodologia de projeto aplicada
ao design de jóias, título inicial, no Curso de Mestrado em Design da
PUC-Rio, buscou-se a identificação destas questões e o embasamento teórico,
fundamental na construção de idéias, que resultaram em novas perguntas e opiniões.
Paralelamente, disciplinas
externas ao Departamento de Artes e Design foram cursadas, na Pós-Graduação em
História Comparada – PPGHC, do IFCS / UFRJ, objetivando estudar e discutir as
questões referentes ao olhar sobre o outro, a modernidade e as suas
intituições; tornando possível a combinação de tais referências às abordagens
amplas sobre o design conduzidas nas disciplinas do Programa de Pós-Graduação
em Design, da PUC-Rio.
No presente trabalho, objetiva-se
conduzir reflexão sobre a necessidade humana de expressar-se, diferenciar-se e
comunicar-se através de objetos, abordando os usos e significados atribuídos às
jóias, dentro das sociedades humanas, a partir das questões trabalhadas na disciplina O lugar do narrativo na mídia visual:
temporalidade paralela. Nesta
disciplina, foi proposto examinar a narratividade a partir de diferentes visões
téoricas e na produção visual de massa. Discussões em torno dos processos
narrativos elaborados pelo cinema, relacionando-os aos de outras expressões
visuais, foram promovidas, auxiliando os alunos a desenvolver capacidade
analítica e crítica com relação à representação visual da narrativa, bem como a
realizar uma avaliação de seu objeto de pesquisa a partir destas informações.
Considero importante registrar que os mencionados conteúdos desempenharam importante papel na
fundamentação teórica desta dissertação, bem como no estudo do objeto desta
pesquisa.
Introdução
A jóia, o folheado[2]
e a bijuteria[3]
são objetos classificados, a priori, como de adorno, vinculados à moda,
produzidos por processos artesanais ou semi-industriais de fabricação. Aqui
abro parêntese para esclarecer que o termo “semi-industrial”, refere-se às
características de produção do setor joalheiro industrial atual, que tem grande
participação do trabalho artesanal e faz uso simultâneo de processos de
fabricação seriada. Por vários anos, estes objetos não foram considerados como
produtos resultantes de projeto em design. Tais considerações acham-se
refletidas na conduta do setor industrial, que contratava artistas ou
auto-didatas para criarem seus produtos, ou reproduzirem modelos trazidos do
exterior, assim como copiarem modelos de revistas e catálogos estrangeiros.
Esta é postura característica ao setor industrial nacional, que durante muito
tempo permaneceu refratário ao design e à idéia de contratar profissionais
capazes de desenvolver produtos de qualidade e de sucesso.
A criação dos adornos
pessoais esteve vinculada a um processo artístico e intuitivo, não se
desenvolvia um projeto e não se adotava metodologia de projeto em design no
desenvolvimento destes objetos / produtos. Um dos principais resultados desta conduta pode ser observado nas vitrines,
catálogos, propagandas das pequenas, médias e grandes lojas do setor, onde a
variedade de peças é enorme, poucas coleções são desenvolvidas (geralmente
pelas grandes empresas) e existe alta rotatividade de mercadorias, gerando a
constante necessidade de lançar modelos novos no mercado. As consequências
deste estado de coisa são observadas a partir da dificuldade da empresa
solidificar sua identidade através do produto; renovar constantemente mercadorias – o que gera vida curta do produto,
impossibilitanto, inclusive, a percepção e absorção do consumidor destes
lançamentos; realizar campanhas de divulgação e promoção dos produtos.
Nos últimos treze anos,
sente-se uma mudança nesta relação, na qual o design deixou de ser estranho aos
empresários, pois passou a ser compreendido, ou apenas aceito, como importante
instrumento no desenvolvimento de produtos diferenciados e competitivos.
Inclusive, os produtos de moda como as jóias, folheados, bijuterias e
acessórios passaram a ser aceitos como produtos de design. Muitos designers,
arquitetos e artistas plásticos começaram a dedicar-se ao segmento de jóias e
gemas[4].
Atualmente, estudantes de design direcionam seu interesse para este produto de
fascínio e desejo.
A presente pesquisa mostra-se oportuna e importante em um momento
de crescente demanda de profissionais em design familiarizados com o setor
joalheiro. O setor joalheiro brasileiro vem crescendo significantemente nos
últimos dez anos[5], apontando
para a necessidade de tornar o produto nacional mais competitivo no mercado
externo, reconhecido pela qualidade, bem como torná-lo mais atraente para o
consumidor interno. A necessidade da adoção do design como instrumento
fundamental no desenvolvimento de produtos diferenciados é atualmente aceita
pelo setor empresarial, embora ainda não haja pleno conhecimento do papel do
designer na indústria.
As diretrizes resultantes da pesquisa proposta podem possibilitar
a compreensão e a reformulação dos procedimentos no desenvolvimento de produto,
assim como propiciar a atuação do designer no processo produtivo nas
indústrias. Possibilitam, também, instrumentalizar o designer interessado em
desenvolver atividades empreendedoras, como iniciar seu próprio negócio, por
exemplo.
Pretende-se adotar como parte da metodologia de pesquisa a análise
do processo de desenvolvimento de produtos no setor joalheiro nacional,
buscando-se através desta, elementos balizadores para a formação acadêmica de
designers que desejem atuar no setor. Por meio destes profissionais, torna-se
possível divulgar junto ao setor empresarial joalheiro a fundamental atuação do
designer no processo de desenvolvimento do produto (pesquisa de oportunidade),
na criação e no acompanhamento da produção. A maior inserção do designer no
setor joalheiro propicia, também, a geração de uma conduta de produção mais
otimizada, e o lançamento de linhas e/ou coleções que sedimentem a identidade da empresa no mercado,
possibilitando o desenvolvimento de estratégias de marketing na divulgação
destes produtos.
1. A jóia como veículo de comunicação
O homem, como ser
social, se expressa e se comunica por movimentos, gestos, símbolos e sinais,
sendo o produtor das mais variadas manifestações culturais. Clifford Geertz, no
livro intitulado A interpretação das
culturas, entende por cultura um
sistema simbólico, portanto, um código de símbolos partilhados pelos
membros dessa cultura, que os acompanha pela história, passando por
aprendizados, assimilações e mudanças. O patrimônio cultural, portanto,
expressa valores, desejos, crenças, tradições e identifica o homem como
indivíduo em um grupo e este grupo em uma sociedade (Laraia, 1999: 46).
Na pesquisa proposta, optou-se por trabalhar com o adorno
pessoal – jóia, pois este aparece como um símbolo das inúmeras formas humanas
de expressão e de comunicação, que podem se manifestar através da roupa (Ilust.
01), pintura corpórea (Ilust. 02), das tatuagens (Ilust. 03), escarificações[6]
(Ilust. 04), interferências e alterações de partes do corpo (Ilust. 05).
I.
Adornar (Do lat. adornare.)
V.t.d. 1. ornar, ornamentar, enfeitar; compor, decorar (…) 2. Tornar atraente, agradável,
interessante, etc (…) 3.
Enfeitar-se, ornar-se, ornamentar-se, compor-se. Adorno (ô). (Dev. de adornar)
S.m. 1. Aquilo que adorna, que enfeita, que decora: objeto de adorno. 2. Ornato, ornamento, adornamento. 3. Atavio, enfeite. (Ferreira,
Aurélio Buarque de Holanda. Novo
Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova
Fronteira, 2ª edição, 1986, p. 49.)

Ilustração 01 - Roupa escultura, organza, criação
da designer têxtil Aysel Úruk, 1996.
II. Adornar vb. ‘ornar, enfeitar’ XVI. Do lat. Adornãre // adorno XVII. (Cunha,
Antônio Geraldo da. Dicionário
Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro:
Editora Nova Fronteira, 1986, p. 16.) Ilustração 02 - Moças de Surma, Etiópia.

III. Bijou n.
Petit objet ouvragé, précieux par la matière ou par lê travail et servant a
la parure. bijouterie 1.Fabrication,
commerce de bijoux. 2.Lieu où l´on vend, où l´on expose des bijoux. (Le Robert Micro. Paris: Le Robert,1998, p.130. Redaction dirige par Alain Rey Principaux collaborateurs: Troisiéme
édition – Marie-Hélène Drivaud; Danièle Morvan, avec le concours de Bruno
de Bessé)

Ilustração 03 - Modelo tatuada, usando estilo
Glória Coelho
IV. Jóia (Do fr.ant. joie,
‘jóia’, que convém não confundir com o atual joie, ‘alegria’.) S.f.
1. Artefato de matéria preciosa,
de metal ou de pedrarias e que se usa como adorno, como anéis, colares,
tiaras, brincos, broches, etc. (…) 2.
Fig. Pessoa ou coisa de grande
valor, ou muito boa, ou de aspecto agradável: (…) 4. Bras. Quantia
paga, em geral de uma só vez, pelos que são admitidos ao quadro de sócios
de certas associações, clubes, etc 5.
Bras. Gír. muito bom ou bonito;
excelente. (Ferreira,
Aurélio Buarque de Holanda. Novo
Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova
Fronteira, 2ª edição, 1986, p. 990.)

Ilustração 04 - Mulher com escarificações formando padrão, Congo. São marcas de sua
bravura, bem como realce de sua beleza. Padrões semelhantes têm sido
reproduzidos em tecidos e escultura há vários século por esta cultura.


Ilustração 05 - Homem da tribo Suya, Brasil central, usa disco de madeira no lábio
inferior e ornamento circular no lóbulo da orelha, confeccionado de madeira
ou folha de palmeira, revestido com argila, tradicional na região. Este
objeto é usado por homens e mulheres.
A jóia é considerada uma das mais antigas manifestações das
Artes Decorativas, segundo o museólogo John Mack (1995: 9): ora significa fé e devoção;
ora status social, econômico e cultural; ora amuleto; ora veículo da cura; ora
apenas um objeto de decoração. É símbolo de individualidade e coletividade; de
valores morais e estéticos; da alma humana; de suas tradições, heranças e
antepassados; rituais; crenças; prosperidade; compromisso; comportamento,
desenvolvimento tecnológico; além de ser um objeto de adoração, contemplação e
desejo.
Nesta abordagem, podemos
observar que a jóia, objeto que tem como suporte o corpo humano, veículo vivo,
dinâmico e mutável de idéias, emoções, sensações e padrões, portando, de
comunicação, vem acompanhando a humanidade por toda a sua trajetória, se
adequando às suas necessidades e aos seus valores em contextos históricos,
econômicos, sociais e culturais distintos. São metáforas do cotidiano, pois os
seus vários significados, subjetivos ou objetivos, são idealizados e
materializados pelo homem de metal e outros materiais. Através das jóias, laços
de parentesco, afinidade ou afeto são reforçados; alianças são firmadas; o belo
é cultuado; a sexualidade é enaltecida ou condenada, os antepassados são
reverenciados; a fé é exaltada e a proteção é rogada. São símbolos do
fetichismo de um contexto, falam da adoração de objetos animados ou inanimados
aos quais poderes sobrenaturais, mágicos e espirituais são atribuídos.
De um modo geral e atual, chama-se jóia o objeto de adorno
pessoal, confeccionado de materiais convencionados como valiosos. Sem dúvida,
este valor está vinculado à circulação comercial de metais e pedras chamados de
preciosos. É importante observar que tal conceito reduz este objeto de fascínio
milenar a apenas um artigo de especulação comercial.
O homem mesmo antes de se vestir usou jóias, confeccionadas de
peles, presas, ossos, conchas, seixos, fibras vegetais, madeiras e outros
materiais tidos então como preciosos. Preciosos por que? - Preciosos porque
através destes, provavelmente, buscava-se expressar idéias, valores, atitudes,
posição social, crenças, prestígio e poder. O adorno pessoal surge e perpetua-se,
portanto, como veículo de comunicação e expressão das necessidades (Löbach,
2000: 24), desejos, cultura, origem e sentido de pertencimento de um indivíduo,
de um grupo, de uma sociedade. É uma das formas do homem se diferenciar, se
identificar e firmar sua posição social.
Desta forma, podemos perceber a jóia, o adorno pessoal, como ícone
da identidade do indivíduo, grupo e sociedade, resultante da intenção,
percepção e relação com o outro. A jóia, portanto, funciona como um dos
mecanismos da alteridade, isto é, de demarcação da distinção, da qualidade que
se constitui através de relações de contrastes e diferenças. Este mecanismo é
um dos símbolos de dominação, intenção e confirmação da hegemonia, de prestígio
e do poder.
A mencionada hipótese nos remete às questões discutidas a partir
dos textos de Janet Wolff em A Produção
Social da Arte, em que se analisa a natureza da obra de arte, de sua
produção, distribuição e percepção. A leitura é iniciada com a afirmação de que
a arte é um produto social, portanto, faz-se necessário mencionar que todos os
objetos, inclusive os produtos de design, bem como os adornos pessoais como as
jóias, são produtos sociais, conseqüentemente, construções resultantes de
vários fatores, reais e históricos, em determinado contexto econômico,
político, cultural e ideológico. Este contexto está vinculado às estruturas e
convenções sociais construídas, portanto, é afetado por elas.
Para localizar a jóia,
seus vários significados e papéis dentro das estruturas sociais, faz-se
reflexão pela ótica de Pierre Bourdieu, que disserta sobre o papel dos bens
simbólicos dentro destes sistemas na obra A
Economia das Trocas Simbólicas.
Bourdieu identifica o espaço social como o lugar onde agentes
sociais, oriundos da mesma ou diferentes classes sociais, se relacionam. As
classes sociais, portanto, são resultados da construção classificatória,
sistêmica e relacional do espaço social, que vai legitimar os bens simbólicos.
Estes agentes sociais têm diferentes pontos de vista sobre o mundo,
relacionam-se entre si de formas diversas. Em função disto, as classes também
têm diferentes graus e tipos de relação que geram os princípios da
hierarquização pelos diferentes graus de posse de bens, recursos e capital,
demarcando as distâncias sociais. Segundo Bourdieu, capital tem significado de
bem utilizado nas disputas sociais entre os agentes. O capital pode ser
econômico, social, cultural e simbólico; este último diretamente vinculado aos
valores econômicos, intelectuais, artísticos e estéticos, quando conhecidos,
reconhecidos e legitimados como tais.
Os
bens simbólicos são construções eficazes em perpetuar a hierarquização social,
e, conseqüentemente, as distâncias sociais, pelo exercício do poder através da
dominação simbólica legitimada e alimentada pelo contexto e pela estrutura
social em vigor.
A jóia, portanto, surge como um elemento estratégico de
dominação, pela necessidade de auto-afirmação e identificação dos agentes
sociais inseridos em uma estrutura social. Chama-se a atenção para a dinâmica
deste organismo, que relaciona grupos distintos, inclusive os que negam o grupo
dominante pela exclusão de elementos simbólicos então dominantes, gerando,
consequentemente, um novo grupo. Torna-se claro o movimento e a relação destas
estruturas, que vivenciam a dependência como necessária para legitimar a
estrutura construída.
E neste momento, faz-se oportuno mencionar as idéias de Karl
Marx, imortalizadas no Livro I, volume I, do O
Capital; no
qual o autor discorre sobre as mercadorias, que são resultados da produção do
trabalho humano, portanto, produtos sociais, que quando circulam no mercado,
objetivando atender à demanda das múltiplas necessidades humanas, objetivas ou
subjetivas, que tornam qualquer objeto ou coisa em valor-de-uso. A mercadoria é
a riqueza dentro do sistema de produção capitalista. Sua utilidade determina o
seu valor-de-uso, que será o veículo material do valor-de-troca, este variável
de acordo com o contexto.
Entende-se como
necessária a compreensão do bem simbólico como elemento importante na
sedimentação da identidade do produto brasileiro dentro do mercado mundial.
Simultaneamente, observa-se a necessidade de buscar, resgatar e perpetuar a
cultura, as tradições e a identidade deste povo e sua história. Lembramos que o
Brasil produz 60%[7] das gemas
consumidas no mundo e ocupa o 12º lugar[8]
como produtor mundial de metais preciosos. Portanto, torna-se importante
agregar valor a esta matéria-prima pelo design e tornar o produto nacional
competitivo. E aqui se levanta a questão da criação meramente intuitiva destes
objetos / produtos.
Retoma-se a discussão sob a ótica de Janet Wolff, em que o
artista é um indivíduo dotado de genialidade e habilidade criadora ímpar, quiçá
divina. Mas a estrutura social, capitalista, industrial atual demanda ou faz
demandar, objetos que expressem este sistema e as suas necessidades. E dentro
deste mecanismo, o design, pelo uso de metodologia de projeto cria, de forma
sistematizada e ordenada, objetos / produtos para o consumo, que embora
produzidos em massa, tornam-se únicos e especiais, veículos de afirmação de
valores, convenções, aspirações e identidade.
2. A jóia e a narratividade
Deixamos rastros na passagem pela vida. Rastros do que fazemos, no que fazemos e de como fazemos. (…) Os vestígios que deixamos impregnados nos objetos podem ser, portanto, marcas semânticas, verdadeiros signos de época. Enquanto signos, essas marcas representam valores simbólicos atribuídos ao objeto por seu autor ou fabricante, incluídos aí os afetivos e ideológicos. (Coelho; 2002: 269)
O
homem expressa-se, comunica-se e relaciona-se através dos objetos, que são
produtos sociais, que se tornam extensões das necessidades humanas mais
objetivas às mais subjetivas. Ao materializar suas idéias, desejos,
necessidades, convenções e formas de se relacionar consigo e com o outro em
objetos, transforma-os em personagens e atribuí-lhes um papel e/ou referência
em dado contexto. O objeto, portanto, narra pela sua função (usos e inserção
dentro do cotidiano e na sociedade); através do material e processo pelo qual é
confeccionado (evidencia sua origem, características técnicas e conhecimentos
tecnológicos); por intermédio de inscrições, imagens, decorações (relevos e rebaixos,
apliques, grafismos, padrões, cores…) e estilo (que vai nos falar do gosto de
determinado grupo, em determinada época, de seus valores simbólicos e
cotidianos, atributos afetivos e econômicos).
O objeto / coisa está dentro e fora de nós. Para conscientizar-se
de si próprio, o ser humano fez objeto de si mesmo. E para ampliar sua
capacidade física e mental usa o objeto como prótese de seus órgãos. É o objeto
quem constitui a base do valor e é marca do status de seu possuidor. A própria
história da humanidade é marcada por nossa relação com o objeto. As grandes
fases que atribuimos à cultura estão associadas ao tipo de material e objeto
utilizados nos diversos períodos. (Coelho; 2002: 267)
O objeto é um suporte material do relacionamento social. Através
de seu corpo (sua forma, construção, estilo e funções) e valores, os indivíduos
e grupos se expressam e se comunicam. É expressão da diferenciação em um grupo;
integração e pertencimento pelos privilégios comuns; identidade; classificação
social; preferências; modelos de atitude adotados ou almejados. ”Objects participate in human communication
and support linguistically mediated social practice” (Krippendorff, 1989:
170). Ocupam espaço em nosso desejar; determinam hierarquias no bem estar; são
referências de nossa afetividade, identidade e personalidade – “são modelos do
sujeito ao mesmo tempo que modelos para o sujeito”; legitimam o pertencer a
algum grupo e as suas qualidades.
Resultam de um processo
intencional de pensar, organizar, sistematizar, planejar, projetar e
desenvolver produtos, a partir de oportunidades identificadas no mercado, que
chama-se design. Dentro deste universo, questões referentes ao usuário são
prioritárias: satisfação das necessidades subjetivas e objetivas, buscando
tornar o cotidiano mais prático, otimizado, confortável, prazeroso e
inteligente. Trata-se de uma combinação de elementos percebidos e
absorvidos, pelo designer, no contexto histórico, social, cultural, econômico e
político em que estão inseridos, somados à tecnologia e recursos disponíveis;
(…)” artifacts can best be seen
informationally, as temporarily frozen manifestations of pattern”
(Krippendorff, 1989: 174-175).
O design é uma atividade
criativa, em que o designer faz uso das suas experiências profissionais e de
vida, formação e visão do mundo para materializar idéias e soluções em objetos
/ produtos, objetivando atender demandas e preencher desejos dos usuários. A
partir de referências acumuladas e naturalizadas, significados são atribuídos
aos produtos de design; relacinando-os com outros objetos conhecidos, para que
estes sejam reconhecidos e adotados pelo público. ”The context into which people place the object they see is cognitively
constructed, whether recognized, or wholly imaginary.” (Krippendorff, 1989:
159)
Conclusão
Embora tenha chamado
este item de conclusão, tenho clara a
idéia de que não há conclusão final, nem verdade fixa e única que descreva,
disserte e/ou discuta as diversas questões do universo da cultura material das
sociedades humanas. Percebemos que ao pensarmos os objetos – jóias, torna-se
inevitável falarmos da expressão, comunicação, narratividade e relação entre
indivíduos e grupos.
A partir de um presente,
analisam-se referências e experiências passadas, identificando nelas os
produtos sociais, que são resultados de formas de exercer a política, pensar a economia, os
aspectos sociais e culturais. Estudamos fatos, nomes e personalidades, datas,
convenções e construções, causas e efeitos de condutas e ações, dos mais
variados contextos e grupos sociais. Reflexões sobre a natureza humana: a necessidade de produzir idéias e
materializá-las; dar sentidos e significados à vida e a estas produções; a
necessidade de expressar, comunicar e compartilhar suas realizações, anseios,
angústias, medos e desejos formatam e modelam as sociedades humanas, portanto
sua história. O conhecimento necessário para o
sujeito poder perceber a si mesmo apresenta-se árduo, já que nos encontramo
afastados de nossa essência, afastados da real forma de ser em consequência do
processo civilizador, que cada sociedade contrói para que a ordem seja mantida
e a coexistência possível. Normas de conduta, ordens, valores morais e
simbólicos, demandas e desejos são configurados, em que a classificação
torna-se natural, a busca pelo domínio pela relação hierarquizada faz-se comum
e assegurada por diversos mecanismos que cuidem desta naturalização e forma de
ver a vida. O medo da finitude torna o homem ansioso por controlar todos os
fenômenos que não conhece ou não entende, percebe o conhecimento como um
instrumento fundamental no controle de seu passado, presente e futuro. O
mal-estar com o vazio, resultante da forma convencionada de dar sentido à vida
e das limitações humanas em dominá-la, tornam-se sombras nesta trajetória em
que cada indivíduo, grupo e sociedade estabelece metas e valores para atingir a
plenitude do bem-estar.
1.
Ilustração 01: SCHMUCK Magazin. Ulm: Ebner Verlag GmbH, julho,
3/1998 (E5209), p. 75. ISSN 1432-8313
2.
Ilustrações 02: ORNAMENT – The art of personal
adornment. San Marcos (CA): ________, vol. 23, nº 4 / summer 2000, p. 58.
3.
Ilustração 03: Marie Claire. São Paulo:
Editora Globo, nº 133, abril 2002, p.__.
4.
Ilustrações 04: CLARKE, Duncan. African Hats and Jewellery. Londres: PRC
Publishing, 1998, p. 8.
5.
Ilustração 05: MACK, John. Ethnic Jewellery. Londres: British Museum Press, 1995, p.05.
[1] Neste trabalho, bem como na dissertação em andamento, denominaremos de
adorno, ou adorno pessoal, ou objeto de adorno, todos os objetos utilizados
pelo homem sobre o corpo, envolvendo partes do corpo, interferindo no corpo,
aplicados sobre o corpo, que desempenham várias funções e têm distintos
significados dentro das sociedades: símbolo de status social, econômico e
cultural; símbolo de fé, devoção e religiosidade; veículo de cura; dote; riqueza;
jóia; bijuteria; folheado e similares. Busca-se um termo amplo para os diversos
significados atribuídos a este objeto, aqui citamos sinônimos para o termo
adorno: adereço, acessórios, enfeite, ornato, ornamento, atavio, objeto ritual
ou simbólico. Fonte consultada: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa.
Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2ª edição, 1986).
[2] folheado 2. [Part. De folhear 2.] Adj. 1. Que se folheou, revestido,
foliado: (…); relógio folheado a ouro. (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa.
Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2ª edição, 1986, p. 796).
[3] bijuteria. [Do fr. bijouterie.] S.f. (…) 2.Ramo da ourivesaria que trabalha com obras baratas, de
metal sem valor. (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova
Fronteira, 2ª edição, 1986, pp. 257-258).
[4] Gema [Do lat. gemma.] S. f. 4. Pedra
preciosa. (…). Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa.
Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2ª edição, 1986, p. 843.
[5] Segundo DEE (Documento Especial de
Exportação) 2001-2002 / MDIC / SECEX / DECEX / IBGM.
[6] Escarificação. [ Do lat. scarificatione] S.f. 1. Ato ou efeito de escarificar. 2. Med. Produção de pequenas incisões simultâneas e superficiais na
pele. Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa.
Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2ª edição, 1986, p. 685.
[7] IBGM (Instituto Brasileiro de Gemas
e Metais Preciosos)
[8] Gold Fields Mineral Services Ltd.
Gold 2000