Departamento de Artes e Design
Programa de Pós-Graduação em Design
Tópicos Especiais em Design IV: O lugar do Narrativo na mídia visual: temporalidade. 2003 –01

Professor: Luiz Antônio Coelho

Aluno: José Francisco Sarmento Nogueira

 

 

 

 

“O objeto é aquilo que o homem utiliza em sua vida cotidiana, ultrapassa o quadro doméstico e, aparecendo como utensílio, também constitui símbolo, um signo”

Baudrillard

 

 

 

Trabalho Final:

 

 

“Filme, O jarro: objeto como protagonista”

 

Introdução:

 

 Este trabalho tem como objetivo mostrar que um objeto pode ter um papel no processo narrativo, um objeto pode informar, simbolizar, etc...como acontece na sociedade indígena em que a forma ou o grafismo inseridos no corpo do objeto traduzem histórias, informam códigos e determinam a cosmovisão de uma determinada cultura. Utilizou-se aqui o filme iraniano: O Jarro, que através de sua história nos faz entender melhor com um objeto pode, além de informar o que já foi dito anteriormente, protagonizar um filme.

Sobre o filme: O JARRO

 

Roteiro: Ebrahim Foruzesh

Fotografia: Iraj Salavi

Montagem: Changiz Sayad

Música: Mohammad Reza Aligholi

Elenco: Fatemeh Azrah, Behzad Khodaveisi, Hossein Balai, Alireza Haji-Ghasemi.
Livre/ 83 min/ legendado/ NTSC VHS/ colorido/ Irã 1992

Em uma escola do deserto, o jarro que serve para as crianças matarem a sede trinca. Isso mobiliza as pessoas da aldeia, cada uma com uma reação diferente.“O Jarro” foi filmado com atores não profissionais numa aldeia do escaldante deserto iraniano. Todos os intérpretes mal conheciam o cinema até então. O filme venceu o Leopardo de ouro no Festival de Locarno em 94, e o prêmio do Júri da 18 Mostra Internacional de cinema em São Paulo.

O que cativa e comove no filme de Foruzesh é o despojamento do seu argumento simples e o da sua produção. Conforme relato pessoal do próprio cineasta, o filme premiado não teria ultrapassado a soma de US$ 100.000, juntando-se todas as despesas nas filmagens. Uma das principais características dos cineastas iranianos é filmar belas histórias a partir de fatos banais. No filme “O Jarro”, o diretor Ebrahim Foruzesh em meio ao deserto iraniano em uma escola, o único jarro que serve como recipiente de água racha, fazendo com que os alunos passem sede e tenham que fazer uma longa caminhada até o rio para se refrescarem.

 

 

O jarro: objeto como protagonista

 

Logo no início do filme o diretor nos provoca a sede, durante a apresentação das legendas ele nos mostra em câmera parada, com vista panorâmica, vários ângulos do deserto. É interessante notar que, essa aridez inicial nos remete a um lugar onde a água é fundamental. A partir de então, começa o filme mostrando suas personagens em torno de um objeto de extrema importância para aqueles alunos sedentos de água em um calor escaldante. Surge então o protagonista do filme: o jarro.

Um tumulto em torno do jarro na disputa pela água faz com que o professor da escola apareça para apaziguar a confusão. Neste momento em meio ao tumulto, um aluno aponta para uma rachadura no jarro. Inicia-se então a história. O professor argumenta sobre a possibilidade de se consertar o jarro, visto que, através dos meios oficiais, ou seja, através do governo seria muito difícil e demorado conseguir outro recipiente para a escola.

Vale a pena perceber que no momento em que nosso protagonista aparece agonizando (vazando) o diretor toma o cuidado de dar um close no exato momento em que o professor toca no jarro com carinho, percebendo ainda mais a gravidade do que está ocorrendo naquele momento. As crianças também o tocam. Uma delas alerta que o pai de um menino da vila teria condições de consertá-lo. O professor então o procura, mas é recebido com desdém por aquele que poderia resolver o problema.

Depois de muita insistência o tal homem decide consertar o jarro e pede que providencie cinza, cal e ovos. Começa então a surgir os antagonistas do filme que são os próprios pais dos alunos encarregados de tal tarefa, que vêem no fato de doar ovos para o conserto um absurdo, visto que conseguir um ovo era difícil para a gente daquela vila. O professor (é bom lembrar que o professor neste filme divide com o jarro a condução do filme) então descobre uma maneira de fazer com que as crianças levem os ovos para a escola. Ele propõe um trabalho de artes utilizando ovos crus. Seu objetivo é alcançado, mas por alguns instantes a relação do docente com os alunos fica estremecida visto que os boatos que corriam na vila levavam a crer que ele aproveitara a boa vontade dos alunos para consumir as gemas dos ovos (uma vez que para o conserto apenas as claras eram necessárias). Fato este que fez com que o professor ao ouvir a história pedisse aos alunos para levarem os ovos de volta para a casa. Ao se recolher em seu aposento na escola, o professor é surpreendido com um aluno que leva até ele todos os ovos deixado pelos demais.

No dia seguinte, começa-se o conserto do jarro. O professor então havia pedido que cada aluno levasse um pedaço de pão sem dizer o motivo. Durante o conserto ele começa a fritar as gemas e as divide com todos os alunos.

O jarro trincado cria um conflito ideológico na pobreza latente em meio ao clima árido. Na escola, além da falta d’água, não há lápis para os alunos, não tem energia elétrica e a comida é escassa para toda a comunidade.

Em meio a esse ambiente, durante a comemoração do conserto os alunos decidem que o professor deve ser o primeiro a beber daquela água. Neste exato momento todos são surpreendidos pela notícia de uma nova rachadura no jarro. Os alunos então voltam para a casa tristes e decepcionados. Então surge a figura de uma das mães da comunidade inconformada com situação e decide tomar a iniciativa de arrecadar dinheiro e outros tipos de colaboração para que seu filho possa ir até a cidade mais próxima comprar outro jarro. Logo essa mulher é repreendida pelo machismo iraniano.

Sua atitude é interpretada como desafio aos homens da comunidade que debocham dela. Finalmente após decepções e agruras eles conseguem comprar um novo jarro, fazendo com que as crianças da escola possam beber sua água tranqüilamente, pois beber uma caneca com água do jarro é o momento mais feliz do dia daquelas crianças.

         É interessante perceber como um objeto pode protagonizar um filme. O jarro, nessa narrativa, não possui uma simples função de armazenar água. O objeto neste momento (no filme) deixa de lado a sua função primeira para se tornar algo de uma importância muito maior. O jarro deste filme tem um papel fundamental de sociabilizar aquelas crianças que todo dia se reúnem ao seu redor para desfrutarem do frescor da água que ele comporta.

        Durante o filme é fácil perceber os conflitos que a restauração do jarro pode provocar. Tais conflitos não seriam possíveis se o jarro tivesse a função de mero coadjuvante na vida daquelas pessoas. Logo como o filme trata da vida dessas pessoas, ele não poderia ser em momento algum um simples coadjuvante, pois na vida deles ele desempenha o papel principal. Em um lugar em que o ambiente desértico nos provoca sensações de calor e sede, um objeto que tem a função de armazenar o produto que nos alivia de tais sensações não poderia ser um mero coadjuvante. O objeto jarro do filme “O Jarro” não pode ser tratado como uma coisa. Segundo Baudrillard, o objeto seria “aquilo que o homem utiliza em sua vida cotidiana, ultrapassa o quadro doméstico e aparecendo como utensílio também constitui um símbolo, um signo”. O objeto tem uma existência própria, resultado de uma história própria e tem a capacidade de informar mitos e ritos. Em uma tribo indígena o grafismo contido no artefato traz em si uma história, a narrativa de um acontecimento.

É através da interpretação e decodificação desses desenhos (grafismo) que essa sociedade viva preserva sua cultura e suas histórias, somado ao discurso oral. O grafismo serve como fio condutor dessas histórias. O objeto indígena é produzido não somente com o objetivo de cumprir sua função prática, mas traz consigo a função narrativa, pois desde os adornos até um simples cesto, todos eles têm esta função. Eles se localizam dentro dessa sociedade como verdadeiros fios condutores da história dessa gente. É de se estranhar que após o comentário de um filme iraniano, esses escritos passem a definir objetos e a contextualizar objetos em uma sociedade “primitiva”. Esse estranhamento não se fundamenta a partir do momento em que o que se pretende neste texto é priorizar a relação entre objeto e narratividade.

Hoje em dia, uma linha da antropologia denominada antropologia simbólica tenta descrever as expressões (forma) e conteúdo (significado). Ou seja, formas que remetem à referentes que lhe são exteriores: sistema de organização social, mitos e papéis rituais. Trata-se segundo Berta Ribeiro “... da exteriorização material de idéias e conceitos que podem ser decodificados, ou melhor, interpretados segundo o contexto cultural em que se insere. Em outras palavras, trata-se de estudar o conjunto da parafernália que identifica o indivíduo e o grupo como uma linguagem visual, um código, uma iconografia”.

No filme “O Jarro” o objeto jarro tem as funções pretendidas a um objeto que se propõe a determinar dentro de uma determinada cultura o seu papel. Neste caso, o jarro se afirma como tal instrumento, pois ele nos localiza e nos sinaliza a respeito da história das necessidades, esperanças e desejos daquele povo. O jarro não só delimita tempo (temporalidade), através de suas fissuras e, por conseguinte consertos, como também nos remete a um espaço determinado.

O jarro da aldeia (como o do filme) e o jarro de uma tribo indígena têm uma relação entre si através da importância cosmológica que os mesmos tem em suas respectivas culturas, ou nas culturas que o representam. O processo de cosmovisão proporcionados pelo corpo destes objetos fazem com que determinados objetos saltem da condição de “coisa”  a algo que possa transportar informações a uma determinada cultura.