Uma leitura sensorial de Pedro Nava

1. Introdução

Corpo e memória

... a proveniência se relaciona com o corpo. Ela se inscreve no sistema nervoso, no humor, no aparelho digestivo. (Foucault p. 265)

Buscando construir o corpo de estudo de minha dissertação de mestrado em Design, que consiste justamente numa leitura semântica do corpo modelo da publicidade, escolhi ir desdobrando seus aspectos constituintes, dentre os quais os mais evidentes se me afiguraram a qualidade da presença (materialidade, virtualidade, concretude, fluidez) e a memória (e através dela a identidade, o pertencimento, a história). É a esse aspecto do corpo relacionado à memória que dedico meu estudo, por ora.

Nossos corpos contam histórias antigas. Nos expressamos por gestos, olhares, posturas, falas, densidades. A memória transpira por nossos poros e se inscreve na face, no gesto. Assim como não existem duas vidas absolutamente paralelas, não existem dois corpos iguais. Cada corpo manifesta uma tensão própria, de tal modo expressiva, que o gesto que ela produz torna-se um recurso capaz de diferenciá-lo de todos os outros.

A forma, o ritmo, a amplitude de movimentos, a postura, a interação com o espaço são elementos que traduzem a narratividade dos corpos. Contamos e recontamos, infindavelmente, nossas histórias em cada gesto do cotidiano. Somos personagens de nossa história e nosso tempo. E somos os personagens de nossa memória.

O corpo é uma construção social para proteger, isolar, separar e sacralizar a força que nos mantém vivos, que é a memória única de nossos pais, de nossos mundos perdidos, da emoção que transparece num gesto qualquer. O corpo é uma construção única porque inscrita na fala de seu sujeito narrador e plural porque decodificada pelos olhos de cada um que o observa.

Para estudar o corpo em relação à memória, ou a memória do corpo, busquei o primeiro capítulo de Baú de Ossos, livro do memorialista Pedro Nava. A idéia de utilizar a obra de Pedro Nava para trabalhar o aspecto da memória na construção do corpo nasceu da feliz coincidência entre um convite para montar uma exposição comemorativa do centenário de nascimento do escritor na Casa de Rui Barbosa, a redação do trabalho de final do curso de narrativa visual do Professor Luís Antônio Luzio Coelho, no curso de Pós-graduação em Design da PUC-Rio e a pesquisa para a dissertação de mestrado do mesmo curso.

Pedro Nava soube ler, com imensa sensibilidade, a escrita da memória nos corpos, vistos ou imaginados, de sua genealogia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

O corpo do qual falo é o corpo que Foucault conceitua como "superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto a linguagem o marca e as idéias o dissolvem), lugar de dissociação do Eu (ao qual ele tenta atribuir a ilusão de uma unidade substancial), volume em perpétua pulverização". Esse corpo é analisado pela genealogia como análise da proveniência, portanto, em sua articulação com a história, que o marca e o arruina. (Foucault p. 267)

2. Biobibliografia de Pedro Nava

O Médico reumatologista e admirável anatomista, escritor e desenhista, Pedro da Silva Nava nasceu em Juiz de Fora, em 1903. Perdeu o pai, também médico, aos oito anos. Aos dez anos perdeu também a avó materna, e mudou-se com mãe e irmãos para Belo Horizonte. Estudou em colégios internos, primeiro em Belo Horizonte e depois no colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, onde veio morar com o tio Antônio Salles.

Nava relata em Baú de Ossos a saga das famílias paterna e materna, desde os avós, até a perda precoce do pai, e no segundo livro de suas memórias, Balão Cativo, a adolescência nos colégios internos.

Ingressa na faculdade de Medicina, em Belo Horizonte, em 1921. Passa a conviver estreitamente com jovens intelectuais e literatos de Belo Horizonte que se reuniam no Café Estrela, na Rua da Bahia, e, por isso, ficou conhecido como o Grupo do Estrela. Deste faziam parte Carlos Drummond de Andrade, Abgar Renault, Emílio Moura, Aníbal Machado, João Alphonsus, Mílton Campos, João Pinheiro Filho, Gabriel Passos, Pedro Aleixo, Hamílton de Paula, Heitor Augusto de Sousa, Francisco Martins de Almeida, Mário Álvares da Silva Campos e Mário Casasanta.

Vem exercer a carreira de médico no Rio de Janeiro, tendo sido professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro, diretor do Hospital Geral Carlos Chagas, diretor da Policlínica Geral do Rio de Janeiro, chefe do Serviço de Reumatologia do Hospital Geral Pedro Ernesto, entre muitos outros cargos. Pedro Nava iniciou o estudo e a clínica da reumatologia no Brasil, tendo sido homenageado pela Sociedade Brasileira de Reumatologia com a criação do Prêmio Pedro Nava, em 1976, a ser atribuído ao especialista brasileiro que mais se destacar no combate à doença, a cada biênio.

Só aos setenta anos inicia a carreira literária, publicando Baú de Ossos, primeiro livro de suas memórias.

Em 13 de junho de 1984, suicida-se com um tiro na cabeça, na Rua da Glória.

Baú de Ossos. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1974.

Balão Cativo. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1974.

Chão de Ferro. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1976.

Beira-mar. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985.

Galo das trevas. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1981.

O círio perfeito. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1983.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

3. A escrita de Pedro Nava

Ali onde a alma pretende se unificar, ali onde o Eu se inventa uma identidade ou uma coerência, o genealogista parte à procura do começo ­ dos inumeráveis começos que deixam essa suspeita de cor, essa marca quase apagada que não poderia enganar um olho por pouco histórico que ele fosse; a análise da proveniência permite dissociar o eu e fazer pulular, nos lugares e recantos de sua síntese vazia, mil acontecimentos agora perdidos. (Foucault p. 265)

Pedro Nava deu vida a um universo de personagens, fatos, histórias e objetos relacionando-os numa teia de referências imateriais ao longo de seis livros de memória. Sons de risos, fragmentos de conversas, os elementos sensíveis de uma antiga história de algum parente distante nos traz como que pela mão e nos apresenta algum outro parente que lhe correspondia em simpatia ou visivelmente lhe destoava pela comparação.

Em Pedro Nava, as lendas parecem brotar aos borbotões, irrefreáveis. A beleza do texto se vale da decisão de valorizar o humano, da afetividade que transborda dos retratos da enorme parentela. Mesmo os tipos mais rudes ganham de Nava um tratamento condescendente, um comentário divertido, como é o caso da "crotálica Irifila".

Histórias são fatos que se sucedem uns aos outros no tempo, guardando relações entre si. A estrutura narrativa é determinada pela forma como os fatos apresentados são organizados, por sua localização num espaço e numa época identificáveis e pela participação dos personagens. Ação ou trama da narrativa ou enredo é a sucessão de fatos dos quais participam os personagens.

Em Nava o narrador é o próprio escritor, que comenta as histórias, quer participe delas, quer não. Nós vemos por seus olhos.

Antônio Sérgio Bueno em sua tese de doutorado Vísceras da memória, assim qualifica a escrita de Nava:

"O discurso memorialista de Pedro Nava é um lugar para o qual convergem relações infinitas ­ como em uma renda ou uma rede ­ que se tecem e proliferam a partir de qualquer ponto. (...) O tecido vertiginoso dessa escrita enciclopédica, de prevalência barroca, a frase encachoeirada que não abdica do instinto de precisão cirúrgica da palavra, a tensão local-universal... " (Bueno, p.11)

E ainda,

"A espiralada escrita de Nava move-se nos domínios do demasiado. Um impulso de expansão a anima. Luxo e luxúria no palavreado derramado. "(Bueno, p.12)

Em Nava, a paisagem valorizada opõem-se ao espaço alienado, desenhando um mapa afetivo do espaço. Os originais de suas obras são folhas horizontais ocupadas pelo texto só em uma metade, na outra metade há mapas desenhados, referências visuais, colagens, caricaturas. A sua habilidade para o desenho complementava com a sua habilidade para a escrita.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

"A dominante pictórica na escrita das memórias resulta dessa tensão fundamental entre o traço e a letra. A obra de Nava é um campo de tensões: sucessão e simultaneidade, vingança e gratidão, vilência e delicadeza, particular e universal, origem e ruína, documento e ficção, desejo e interdição, falta e excesso, fragmentação e totalidade." (Bueno, p.16)

O gosto pelo detalhe, a obsessão do pormenor, é o traço de linguagem que traduz essa necessidade de tudo registrar, de obturar todos os vazios. São esses vazios, entretanto, que nos permitem falar do sujeito das memórias. É comovente, enfim, o esforço desse narrador para recuperar a totalidade do vivido, mesmo consciente de que isso é um projeto utópico. Sua escrita, por isso mesmo, é mais que uma forma literária, é um formol que procura preservar o vivido da fatal decomposição e do esquecimento. (Bueno 18)

Como observa Foucault (p. 260), "A genealogia exige, portanto, a minúcia do saber, um grande número de materiais acumulados, paciência".

3.1 Tempo e espaço

"Assim, quantas e quantas vezes viajei, primeiro no espaço, depois no tempo, em minha busca, na de minha rua, na de meu sobrado." (Baú de Ossos, p301)

A narração, a descrição e a dissertação articulam-se em um único texto. Assim, acontecimentos que se sucedem no tempo através de narrativas e outros que se alargam no espaço, em descrições, entremeiam-se.

A representação do tempo é elemento estrutural relevante da forma de conteúdo do texto, confere um horizonte existencial, físico e metafísico. Nava constrói tempos paralelos, em que diferentes histórias se desenvolvem, umas a partir e dentro das outras, como em "As mil e uma noites". Ele experiencia o tempo como "objeto de consciência, incrustrado numa memória".

O memorialista mergulha no tempo, mas é antes um mestre das superfícies e dos espaços, talvez porque o espaço materialize o tempo. (Bueno, p.13)

O memorialista não aceita as mutações operadas pelo tempo e por baixo das ruínas reconhece antigas paisagens, nega a imagem do espelho, recordando as formas jovens do corpo.

3.2 A narrativa e seus elementos conectores

A memória dos que envelhecem (...) é o elemento básico na construção da tradição familiar. Esse folclore jorra e vai vivendo do contato do moço com o velho ­ porque só este sabe que existiu em determinada ocasião o indivíduo cujo conhecimento pessoal não valia nada, mas cuja evocação é uma esmagadora oportunidade poética. (...) E com o evocado vem o mistério das associações trazendo a rua, as casas antigas, outros jardins, outros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

homens, fatos pretéritos, toda a camada da vida de que o vizinho era parte inseparável e que também renasce quando ele revive ­ porque um e outro são condições recíprocas." (Baú de Ossos, p.17)

"O verossímil não é senão um esqueleto da verdade encarnado pela poesia."

A estrutura narrativa em Nava é montada a partir de elementos sensoriais: risos, expres-sões, odores. Ela é determinada pelo sentimento humano. Há um permanente afeto pelo que é humano, que parece haver desaparecido completamente, nos tempos que correm.

O texto é barroco, de tanta riqueza de detalhes. Há de tudo muito: parentelas, comidas, casas, casos, amores e desamores. A impressão que dá é a de que se Nava não tivesse se disposto a nos contar seus guardados, eles transbordariam por si.

Não há ação entre os personagens. Há uma narrativa que transcorre mansamente, como conversa ao pé do fogo, em um tempo e lugar da memória.

Para transpor não o texto, o que seria impossível, mas o sentimento do texto para a atmosfera protegida do espaço da exposição comemorativa do centenário do escritor, marquei os elementos conectores da narrativa no primeiro capítulo de Baú de Ossos, que assim se inicia:

"Eu sou um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais."

O primeiro gesto do narrador para se identificar diante do leitor faz-se em termos espaciais. Há um movimento sacralizador dos primórdios e uma necessidade de fazer do passado uma presença. Como em Foucault (p. 264), "O genealogista tem necessidade da história para conjurar a ilusão da origem, um pouco como o bom filósofo tem necessidade do médico para conjurar a sombra da alma".

Descreve os quatro quadros de retratos do avô, e continua:

"É por ser neto do retrato que sou periodicamente atuado pela necessidade de ir a São Luís do Maranhão."

"Essa sempre procrastinada viagem, se não a faço com o corpo, realizo em imaginação."

O elemento conector da passagem para o Maranhão é o retrato do avô.

Na página 31 de Baú de Ossos ele apresenta a família através dos olhos da avó:

"Minha avó era linda. Linda de pele, de dentes, de cabelos, de corpo e do airoso porte. (...) Os extraordinários olhos dos Pamplonas que, esmeraldinos como os dela, ou azuis, ou castanhos ou pretos, são sempre os mesmos ­ doces, rasgados, cheios das sugestões das coisas curvas e infinitas, lembrando a placidez das noites de lua e a distância de calmos mares."...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

A doçura do olhar da avó leva à doçura das batidas de açúcar, um tipo de rapadura do Ceará que ele comia em casa da avó, e a que chama de sua madeleine, em alusão a Proust. É aí que a narrativa toma corpo.

Da rapadura passa para o café (conexão pelo paladar), descreve como se fazia um café (com duas negras para torcer o pano de coar), o cheiro que invadia a casa.

Na página 41, Nava diz como usar um riso para desfilar um colar de lembranças.

E na página 49, o tio Itriclio é nosso guia através da familia da mãe, ele vai visitando os parentes e nós o acompanhamos. As várias narrativas se entrecruzam, como numa conversa.

Ao falar do avô, na mudança para o Rio de Janeiro e instalação da sua casa comissária na rua General Câmara, descreve o centro da cidade. Descreve Laranjeiras e o Largo do Machado para falar da ida do avô ao trabalho. Vemos a cidade pelos olhos de seu avô.

4. Uma pátria de signos

"A obra memorialística de Nava é mais que o precioso material de sua história pessoal e um retrato de época. É, antes de tudo, uma pátria de signos." (Bueno, p.158)

Esses signos a que Bueno se refere, formam o referencial para a contextualização do espaço tridimensional da exposição, que, a exemplo do discurso de Nava, não fala do lugar atingido, mas faz com que ele fale, dá uma voz à luminosidade desse espaço.

Barthes em "Introdução à análise estrutural das narrativas", indica que "a narrativa pode ser sustentada pela linguagem articulada, oral ou escrita, pela imagem, fixa ou móvel, pelo gesto e pela mistura ordenada de todas estas substâncias... A exposição pode utilizar múltiplos meios de expressão (cinema, fotografia, literatura, vídeo, ilustração) para empreender uma narrativa. Nenhuma exposição pode pretender esgotar um tema, apenas abrir uma possibilidade, insinuar, deixar entrever.

A exposição é a representação visual de um fato. Ela se utiliza de um imaginário para narrar uma história num espaço cenográfico. Na caixa de mistério do espaço cenográfico as ações são figuradas. A própria palavra figura é uma metáfora corporal. Ela tem um viés dado pela coisa figurada e outro construído pelo olhar do observador, que nela inscreve sua "imago" interna. (Bueno, p. 15)

O espaço da exposição pode permitir múltiplas leituras ou conduzir um visitante através de um caminho pré-determinado, de qualquer forma, ele é um espaço de experiência sensorial, sempre traduzido de acordo com o repertório de cada um que com ele interage.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

5. A Casa de Rui Barbosa

5.1 O acervo Pedro Nava

Pedro Nava considerava não só o que produzia, mas ainda qualquer documento ou correspondência que pudesse conservar como parte integrante da sua história e da sua obra. Durante toda a vida preocupou-se em guardar papéis e o declarava sempre. Lembra-se de que, em certa ocasião, ainda criança, observou que um parente seu gastara

o dia distribuindo objetos, jogando fora roupas velhas, suas fardas da Briosa, suas espadas ferrugentas, as do pai visconde ­ do Paraguai, da Corte. Chegou a vez dos retratos de família e da papelada do Halfeld. Passava com maços tirados de suas gavetas, atravessava sala de jantar, copa, cozinha e despejava tudo nas latas usadas de querosene que nos serviam de lixeiras. Aquela liquidação apertou meu coração. Ousei pedir. Se ele não quisesse mais, eu guardava aqueles documentos e retratos. Querer não quero, a prova é que estou jogando fora. Agora, se você se interessa por esse restolho todo, fique com ele. Só que não quero mais ver essa porcaria na minha frente. E que lhe aproveite. Aproveitaram. Sem esse arquivo eu não teria podido completar a história da minha família materna e seria impossível o Baú de Ossos.

Segundo Eliane Vasconcellos, no Inventário do Arquivo Pedro Nava, até recentemente era comum o artista ocultar o mecanismo do seu labor, a sua planta-baixa, deixando vir à tona, à luz da expressão, apenas a obra já realizada. Entretanto, quando se tem acesso ao arquivo de Pedro Nava, principalmente à sua produção intelectual, pode-se depreender com facilidade o seu modo de criar: um processo de escritura que é absolutamente sui generis. Desta forma, a conservação dos documentos do memorialista permite ao pesquisador conhecer facetas de sua obra que ficariam completamente ignoradas, caso esse material se tivesse perdido.

O arquivo de Pedro Nava foi arranjado em oito séries, assim distribuídas: Correspondência Pessoal, Correspondência Familiar, Correspondência de Terceiros; Produção Intelectual do Titular, Produção Intelectual de Terceiros; Documentos Pessoais; Diversos; e Documentos Complementares.

O arquivo contém 6.110 documentos e cobre um período que vai de 30 de junho de 1836 até 2 de novembro de 1993.

Produção intelectual é a série que reúne, com exclusividade, a produção de Pedro Nava. Inclui manuscritos e textos datilografados, em sua versão definitiva ou em estado de elaboração, além de alguns esboços e notas significativas.

Completamente absorvido por sua vida profissional, deixou de lado sua produção literária e passou a se dedicar exclusivamente a redigir trabalhos sobre sua especialidade médica, tendo acumulado uma obra bastante vasta, com mais de 300 textos publicados.

A subsérie Memória é, sem dúvida, a parte mais importante do arquivo de Pedro Nava, porque nos permite entender seu processo de criação. Segundo ele:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

Tudo começou quando Drummond fez cinqüenta anos, e me pediram para escrever alguma coisa. E eu escrevi uma coisa chamada "Evocação da Rua da Bahia". E essa Evocação foi sendo transcrita em vários jornais, e caiu mais ou menos no conhecimento de todo mundo. Fernando Sabino e Oto Lara Resende, que gostaram muito, viviam me repetindo: "Você tem que escrever suas memórias, tem que contar aquelas histórias de Belo Horizonte..." E eu fiquei tentado em contar nossa vida estudantil de Belo Horizonte. Mas achei um contra-senso só contar isso. Então, resolvi começar do princípio.

Quando me julguei mais ou menos livre para dizer certas coisas, com a morte de diversos parentes, fiquei liberado de uma série de considerações, então, comecei a contar muita coisa que ouvi.

Nava escreve sempre à máquina, em folha de papel sem pauta (44,4 x 33,0 cm), dobrado em dois. Utiliza somente uma página para o texto; na outra, faz correções à mão, descrições de tipos, desenhos, muitas caricaturas e colagens de recortes. Usa, com freqüência, plantas de cidades e de casas, além do mais variado material de apoio necessário à sua criação. Na folha 35 do datiloscrito de Chão de Ferro, na página em branco, ao lado do texto, encontra-se, colado, um pedaço de papel manuscrito, com a seguinte observação: "Mostro aqui um pequeno fragmento do que eram nossas colas em formato de sanfona. A letra que estou pondo aqui e os claros entre as linhas são enormes comparados às miniaturas que conseguíamos com nossos olhos de lince de meninos de 13 a 17 anos."

Seus originais estão repletos de desenhos: nos de Baú de Ossos, folhas 242, 287 e 300, há mapas de ruas; nos de Balão Cativo, na de n 70, há a cabeça de Pedro Álvares Cabral em formato de mapa do Brasil; na de n 339, apôs o desenho e fez a descrição minuciosa da chácara da Rua Direita, 179, com observações do tipo: "barraco da Lúcia", "Em verde: futura casa do Bicanca e em pontilhado verde o pedaço da chácara que lhe coube", "riacho", "cemitério dos micos"; na de n 392, desenho de uma cabine de trem, no qual se lê: "o veludo do tapete central passadeira imunda", "quando se queria água para as mãos não era abrindo torneira mas tocando a bomba de cobre." Em Chão de Ferro, folhas 6, 13 e 20, encontramos caricaturas de Álvaro Moreira, Badaró e Bené (o professor de desenho Benedito Raimundo da Silva); na 31, há uma representação do jogo infantil amarelinha. Beira-Mar é o único original em que não há desenhos, mas colagens e uma xilogravura de Luís Ventura; em Galo-das-Trevas, salientamos os desenhos das folhas 165 e 180; e em Cera das Almas, limitou-se apenas a trabalhos de colagem.

Os desenhos eram muito importantes para Nava, porque lhe facilitavam enormemente a associação de idéias; funcionavam como um instrumento da lembrança. Se queria falar de uma residência onde morou, reconstituía-lhe a planta, desenhava-lhe cuidadosamente portas, janelas, móveis e quadros, depois, ao lado, comentava os pormenores do ambiente, usando o lápis de cor.

Percorrendo, ainda, o manuscrito de Baú de Ossos, podemos ler observação de Nava, na folha n 201: "Um mês sem tocar nas Memórias e preparando dois trabalhos médicos. A 29 de dezembro 1969 morte da tia Bibi que completara 90 anos a 25. Foi a última da família de meu Pai. Hoje sou o mais velho... O tempo urge", e, na de n 317 "Aqui ficou o fim de Baú de Ossos por sugestão (boa) do Chico Barbosa e do Sabino. O resto foi para o 2 volume".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

Todos os originais de Pedro Nava vieram acompanhados de anexos, que são as pesquisas realizadas por ele, a fim de que pudesse escrever suas obras. A única exceção foi Baú de Ossos. Tais anexos são compostos por "suportes móveis onde se inscrevem notas rápidas, mas destinadas agora a uma obra já em andamento ou pelo menos a um projeto de escrita". São, em última instância, um conjunto de notas, a que PN dava o nome de boneco. Seu sistema de armazenamento consistia no seguinte: anotava tudo o que lhe ocorria de interessante; fazia observações diretas sobre os fatos; registrava fontes históricas, testemunhos, curiosidades; guardava documentos, recortes de jornais, fotos, desenhos. As folhas do seu caderno acabavam se transformando em fichas que iam recebendo, cada uma, um número. Depois disso, Nava as colocava em ordem, formando, assim, um esqueleto da obra. Depois de usada, a ficha era jogada fora. Mais tarde, porém, a conselho de Carlos Drummond de Andrade, passou a guardá-las. Hoje elas se encontram numeradas e arquivadas numa pasta especial. É um material sem muitas rasuras, correções ou substituições; não possui outra versão e nem foi feito para ser publicado. Atualmente, entretanto, com o advento da crítica genética, adquiriu um novo status, tornou-se parte indispensável da totalidade dos manuscritos. O mesmo se aplica ao caderno de anotações e ao caderno de viagens que podem ser encontrados na subsérie Nota e na série Diversos.

Todo o restante do material é fichado e organizado.

Dentre o material relacionado com a vida pessoal do memorialista, há boletins, certificados, certidões, contratos, declarações, procurações, entre outros. Arquivaram-se, nesta série, os inúmeros documentos que comprovam as variadas atividades de Pedro Nava, no campo da Medicina, e que possibilitam ao pesquisador acesso a dados e datas corretos, como, por exemplo, os currículos e as bibliografias de sua obras médicas elaborados pelo próprio titular, bem como a todo o material por ele reunido referente à aposentadoria compulsoriamente decretada por Getúlio Vargas. Além destes, chamamos a atenção para os contratos de edição e notas de direitos autorais, por darem ao pesquisador uma boa visão do trabalho realizado pelo titular e das diferentes pessoas e entidades que nele se envolveram: o contrato com a Editora Sabiá, datado de 16 de maio 1972, para a publicação de Baú de Ossos, em que é prevista uma tiragem de 3.000 exemplares, por exemplo.

Há curiosidades, como os boletins escolares do Colégio Andrés e do Anglo-Mineiro, num dos quais se lê que a saúde "atual do aluno: [é] boa, mas teve a garganta inflamada", e, noutro, que seu comportamento, em 1914, deixava a desejar: tirou nota 34.

Entre os documentos dos Navas, há a certidão de casamento dos seus pais; a certidão de óbito do pai, José Pedro da Silva Nava, em que se registra como causa mortis uma gripe, em 30 de julho de 1911; e o decreto que nomeou sua mãe, Diva Jaguaribe Nava, para o lugar de Auxiliar de Estações, em 22 de fevereiro de 1921. Ressaltamos, especialmente, os cadernos de anotações. Existe um caderno de viagem de quando Pedro Nava foi estagiar na Europa entre 1948 e 1949, que, junto de anotações médicas, traz rascunhos de correspondências e desenhos.

Junto do arquivo de Nava vieram também alguns objetos, como o sabão anti-séptico Aseptol, que aparece descrito em Chão de Ferro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

Este material, ordenado e exposto, se constitui em preciosa arqueologia.

5.2 Sala de exposições

O espaço disponível para montagem de exposições na Casa de Rui Barbosa é composto por dois ambientes: o hall de entrada do prédio, que é local de passagem, e a sala de exposições, com 120 m2, unidos ambos por um corredor. Todos os ambientes têm teto de serviço (com estrutura de ferro para fixação de luzes e suportes de informação). Há equipamento vertical e vitrines horizontais.

6. A exposição Pedro Nava

6.1 Concepção visual/Cenografia

O hal pode ser utilizado para exposição dos elementos complementares: painel de abertura com título, relação de créditos, exposição de livros.

O corredor de acesso à sala principal introduz o visitante ao tema, como as páginas iniciais do livro introduzem ao corpo do texto propriamente dito. Essa nossas "páginas iniciais" podem se configurar numa "parede dedicatória", que a exemplo do livro traria a homenagem do autor aos amigos e escritores, e a resposta dos amigos, compondo um diálogo; a citação de Anatole France que abre Baú de Ossos, reafirmando a intenção da transposição de conteúdos; a apresentação da família. A parede defronte traria uma biografia do escritor em forma de "linha do tempo", ou seja, um gráfico que apresenta os fatos numa representação cronológica.

A sala se constitui em espaço único, sem compartimentos fechados.

Os cenários coabitam num mesmo espaço ­ que é o espaço virtual da memória, espaço compartilhado, tudo e lugar nenhum. As diferentes referências ocupam nichos, pensamentos. a proposta é corresponder fragmentos de cenários aos fragmentos da memória.

É importante para essa proposta a iluminação. Um ambiente à meia-luz e pontos fracos, localizados.

As paredes, forradas de papel camurça castor e verde musgo, mostram uma colagem de referências: retratos em molduras antigas em toda parte, à volta da sala, quadros, recortes, ilustrações, numa profusão de elementos organizados na ordem em que são apresentados na narrativa. Nichos temáticos são formados por painéis suportes verticais, que mostram destacadamente os originais (textos, desenhos, colagens) de Nava, anteriormente mecionados.

Cada visitante construiria o seu trajeto pelo espaço, e portanto, a sua ordem de leitura.

Organização do espaço (em diferentes níveis de informação):

­ Os originais de Pedro Nava suspensos em suportes verticais presos ao teto, que deixam entrever o piso, marcam os espaços e são os únicos elementos que interrompem a narrativa contínua do espaço maior da sala, formando nichos e "dando nome" a eles.

­ As fotografias da enorme parentela (acrescida de outras mais que comporíamos) em

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

molduras antigas forrariam as paredes, como testemunhas, que tudo veêm. Todo tipo de ilustração e material visual bidimensional pode acompanhá-las.

­ Objetos de cena e peças de mobília sugerem fragmentos de cenários.

Mesa grande, no centro do espaço, sem cadeiras. A mesa, como signo de união familiar, marca o centro do salão. O espaço é construído circularmente em torno da mesa.

As legendas são as referências nos livros. É importante que todas as legendas sejam do próprio Nava. Os textos de terceiros devem estar todo na ante-sala, porque ali, a sala, é a cabeça dele.

7. Baú de Ossos / Primeiro capítulo: Setentrião (90 pp)

Relação de referências materiais e sensoriais para montagem de cenário

Todo esse primeiro capítulo de Baú de Ossos vai se organizar em tornos dos avós paternos. O segundo capítulo (Caminho novo) descreverá os avós maternos.

Nicho 1. Rua Direita, Juiz de Fora, Minas, 1903.

"...a rua Direita é a reta onde cabem todas as ruas de Juiz de Fora." BO. 13

Foto da Rua direita, à época. [para fundo]

Cervejaria Weiss / Maçonaria / Forum / Cinema / Parque Halfeld

BO18 Nasce PN / e apresenta a família: Pedro da Silva Nava

("Meu avô, negociante e dono de casa comissária"... )

e Antônio Ennes de Souza (tio)

velórios / mesa de madeira antiga, café, vinho do porto, varandas, jardins

Descreve os retratos do avô. [Retratos emoldurados na parede]

1.2 Referência a São Luís / Passagem temática:

sobrados de vidraça e azulejo / alegria /

BO 22 /negras/navios que desenhava nos cadernos

O navio em maquete (de madeira, desses de Parati) pode entrar pelo cenário (pendendo do teto)

São Luís é uma passagem na descrição do avô, que segue da página 20 até a 27, quando o avô apresenta a avó.

Descrição do casamento dos avós. E junto o autor apresenta a cunhada e antagonista de sua avó, Irifila. A conexão se dá através da descrição dos presentes ao casamento. Ao falar dela, ele fala de sua casa e de sua comida, já no Rio de Janeiro.

1.3 A descrição de Irifila se faz acompanhar do relato do fato pelo qual ficou conhecida, quando serviu fezes em compoteira de cristal...

Descreve o marido, a casa e as reuniões noturnas, nas quais servia chea, chocolate,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

vinhos, licores, pinhão-de-coco, mães-bentas, cartuchos, fofas, siricaias, tarecos, bolo ilhéu, bolos de raiva, esquecidos, brincadeiras, doce-do-padre, toucinho do céu, lingua-de-moça, marquinhas, veranistas, creme virgem...

Nicho 2. A AVÓ

Retoma o assunto, descrevendo a casa onde sua avó nasceu.

Ceará / música

Na página 31 ele apresenta a família através dos olhos da avó ­ quem tem e quem não tem olhos iguais aos dela/ passa para as filhas / a rotina da casa / a descrição dos haveres: potes, jarras, alguidares, panelas, canadas, tabuleiros de baraúna, tachos de cobre, bandejas de latão...

2.1 a doçura do olhar da avó leva à doçura das batidas de açúcar

p.34 descrição dos tipos de açúcar/ rapadura.

p. 35 batida ­ doce que a avó mandava para ele (ele chama de sua madeleine).Desceve o cheiro, o gosto,

A batida é viagem no tempo.

(...)

Docemente mastigo, enquanto uma longa fila de sombras vem dos cemitérios para tomar o seu lugar ao sol das ruas e à sombra das salas amigas...

2.2 Volta à avó e seu cotidiano.

reza / murmúrio / oratório / lamparina / Cristo / as rendas / som dos bilros

2.3 p. 37 Da rapadura para o café/como se faz um café/ cheiro

BO 40 rede de casamentos consanguineos

2.4 BO 44 linda descrição do sobrado da rua Formosa, 86 / Fortaleza

Gamão/ Falando da família cearense, passa para o tio Itriclio

BO 50 fala da originalidade dos nomes

2.5 fala dos serões e vai apresentando os seus frequentadores: "Às vezes vinha a esses serões a mãe de minha avó..."

Nicho 3. Rio / O AVÔ

p. 57 Sociedade Abolicionista Cearense

Ele volta a falar várias vezes no Tio Itriclio.

p. 58 Casa importadora de Pedro da Silva Nava (avô) importava tecidos da Europa/ letreiros dos portos do mundo

p. 59 viagem dos avôs à Europa

p. 60 cartas do avô para amulher

p. 62 de volta à Fortaleza. Nasce o pai, morre o seu irmão gêmeo/série de nascimentos e mortes/ vinda para o Rio por causa da seca e da varíola

1878 - vem residir na rua Ipiranga, 61, em frenta ao Colégio Abílio (O Ateneu)

p. 64 vinda dos cunhados para o Rio

Neném - filha da Irifila, com o mesmo nome, a apresenta comparando-a com a mãe

apresentação das pessoas que frequentavam a casa do Rio: Cordeiro, que lutou na guerra do Paraguai.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

3.1 p. 66 Casa Comissária - Rua General Câmara, 74

brincadeira com Cordeiro em piquenique na Lagoa.

p. 67 Era a primeira face do espelho ­ a serena e sem risos... avô-sobrecasaca

p. 68 e 69 ­ descrição das ruas do Rio, paisagem que o avô via do bonde, vale uma parte de fotos da cidade/Gonçalves Dias/O Alcazar/ multidão de rua / burros sem rabo

A paisagem vai passando até a rua ... O avô chega ao trabalho.

p. 70 ... inserção: corte diacrônico da rua onde o avô tem o armazém para a história da rua. Caminho de Gonçalo Gonçalves, antigo nome da General Câmara, onde o avô trabalha. Ele passa a descrever o centro do Rio. Ele descreve até os moradores famosos da rua. prostíbulos. La ficava o G.Lobo, restaurante onde se iniciou a feijoada (?)

"Evocando meu avô morto, não posso separá-lo da rua morta de seu trabalho." Parece que ele transforma essa rua em símbolo de todo o centro. O que vem reforçar a idéia de não ser rígido com a verdade, mas fiel à intenção.

p. 75 ­ Inserção para falar de Ennes de Souza

p. 78 ­ morte do avô / a avó volta para o Ceará

Obs: Essas anotações referem-se a apenas um capítulo dentro da obra de Pedro Nava. Para a montagem da exposição, toda a sua obra deve ser "escaneada" em busca das referências visuais.

Bibliografia

Cardoso, João Batista. Teoria e prática de leitura, apreensão e produção de texto: para um tempo de "PÁS" (Programa de avaliação seriada). Brasília. UnB, 2001. p.33/55.

Foucault, Michel. Nietzsche, a genealogia, a história. In: Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Ditos e Escritos. V.II. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2002. p. 260/281.

BUENO, Antônio Sérgio. Vísceras da memória: uma leitura da obra de Pedro Nava.Tese de Doutorado, Faculdade de Letras da UFMG, 1994.

Inventário do arquivo Pedro Nava. Org. Eliane Vasconcellos. Rio de Janeiro: FCRB, 2001.

Barthes, Roland. Introduçnao à análise estrutural das narrativas. In: A aventura semiológica. Portugal, Edições 70,