Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Departamento de Artes e Design

Programa de Pós-graduação em Design Período 2003 -1

Disciplina: O lugar do narrativo na mídia visual: temporalidade paralela (ART-2205)

Prof: Luiz Antonio L. Coelho

 

Livro: Imagem: Cognição, Semiótica, Mídia

         Lúcia Santaella e Winfried Nöth

         Introdução - págs 13/14 e capitulo 13 pág 195 a 208

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

 

 

 

 

A imagem, segundo os autores, foi, desde a pré-história através de pinturas rupestres, meio de expressão da cultura humana, até o registro da palavra pela escrita.

Hoje nos encontramos na idade do vídeo e da informática, que é permeado de mensagens visuais, levando os observadores, com enfoque na cultura ocidental, a lamentar o declínio das mídias verbais.

 

 

 

 

Os autores nos esclarecem que a palavra humana ganha uma nova dimensão a partir de Gutenberg, acompanhada de pesquisas sobre a natureza e estrutura das mídias, palavra, propagada pelos acadêmicos das artes da gramática, retórica e filologia.

E colocam que os estudos da imagem não criaram tradições similares, permanecendo sem “suporte” institucional próprio de pesquisa.

 

Acrescentam que as investigações das imagens estão distribuídas pelas disciplinas de História da Arte, Crítica da Arte, Estudo das Mídias, Semiótica Visual, Teorias da Cognição; este estudo das imagens se dá de forma interdisciplinar, tratando como objeto de estudo os gêneros imagéticos tradicionais – pintura, fotografia e as novas mídias imagéticas – holografia e infografia e fotografia computacional.

 

 

Acrescentam também, que o semoticista Émile Benveniste observa que as imagens são um sistema semiótico, separa os códigos em verdade visuais, e complementa observando que o verbal é mais completo que o visual.

 

 

 

 

Sendo as imagens um sistema semiótico ao qual falta uma metassemiótica, e, portanto não pode servir como meio de reflexão sobre imagens e que necessita de um discurso verbal – porque imagens não podem servir como meio de reflexão sobre as imagens. O discurso verbal sobre imagens gera uma teoria das imagens, porém não é possível separar os dois códigos, segundo Pierce por conta da iconicidade, e sempre implicará no uso da imagem. Os autores propõem então uma abordagem teórica para este estudo das imagens.

 

 

 

 

Capítulo 13

As imagens podem mentir?

 

 

1.      Os persuasores ocultos?

 

 

 

 

 

As imagens tem sido priorizadas nos estudos dos meios de comunicação de massa e, segundo alguns críticos, é o “declínio da era do discurso lógico verbal”, e, função da imersão nos meios visuais – da propaganda a tela do computador – resultando, de acordo com esta visão, em um “envolvimento emocional incontrolado sem a devida distância crítica da mensagem pictórica (Buddmeier 1993:20)”.

Coloca-se também que as imagens têm o poder de manipular e enganar – centrada no aspecto que se origina de um potencial semiótico para mentir, ou seja – fazendo afirmações pictóricas com objetivo de iludir.

Já em 1895, Gustave Le Bon em “Psicologia das massas” descreve imagem como “um meio de manipular as mentes das massas primitivas”, e acrescenta que as massas... só podem pensar e ser influenciadas através de imagens; somente as imagens podem amedrontá-las ou persuadi-las, tornando-se as causas de suas ações [...] para elas, o irreal é quase tão importante quanto o real [...] elas possuem uma clara tendência para não fazer quaisquer distinções” (Le Bon 1895).

 

 

 

2.      Verdade, Imagens e Signos

 

 

 

 

Segundo Eco na Teoria da Semiótica, o uso de fenômenos pra transmitir uma mentira deve ser considerado como “evidência crucial de sua natureza sígnica”, o contrário, “algo que não pode ser usado para mentir não deve ser considerado objeto de investigação semiótica”. Em citação na pág 196, ele nos informa que semiótica se refere ao que pode ser considerado signo e este tomado como substituto significante de algo mais, porém este algo não necessariamente existe ou está onde o signo o substituiu. Assim, a semiótica é em princípio ”tudo que pode ser utilizado com objetivo de mentir” então, se algo não pode mentir, também não pode dizer a verdade.

 

 

 

 

As imagens podem se referir a algo que não existe e a algo que nunca existiu, o surrealismo trabalhou com os objetos imaginados, e Salvador dali, com sua obra Girafas em chamas – 1935 – por exemplo, com a figura de uma mulher com gavetas na perna, representa não mentira, mas não é verdade.

 

 

As imagens podem se referir à realidade e ao irreal, transmitindo verdade ou mentira, e a questão , segundo os autores, permanece em discussão.

 

 

 

 

O potencial semiótico das imagens expressa idéias que correspondem a mensagens verbais “uma imagem vale por mil palavras”.

Ou seu potencial é inferior à língua porque a imagem é necessariamente vaga em principio, e segundo os autores, é “incapaz de representar qualquer verdade sobre o mundo”. Então, se as mensagens não podem dizer a verdade, também não podem transmitir mentiras.

 

 

 

 

A questão verdade ou mentira de uma imagem tem três aspectos:

Semânticos – verdadeiras são aquelas que correspondem aos fatos que representam

Sintáticos – representam um objeto e transmite um predicado sobre lê

Pragmático – quando há intenção de iludir por parte do emissor da mensagem pictórica

 

 

3.      A Dimensão Semântica

 

 

 

 

 

As fotografias são consideradas protótipos de mensagens visuais porque são verdadeiras, preenchem critérios semânticos, e existe uma correspondência com os fatos – são utilizadas em tribunais como evidencia documental porque tem correspondência. É um significante e seu objeto referencial.

Tomando-se como exemplo as fotografias de passaporte, semióticamente, o significante fotográfico corresponde ao objeto que ele representa; Pierce coloca como natureza da fotografia, que ela pode ser: Icônica – que corresponde ao mundo representado, e acrescenta que “sabemos que eles são em certos aspectos exatamente como os objetos que representam”. Ou de natureza Indicial que corresponde a realidade por sua contigüidade no momento de sua produção, e possui conexão física entre o significante e o objeto referencial; “as fotografias foram produzidas sob tais circunstâncias que foram fisicamente forçadas a corresponder ponto por ponto à natureza é a existência e ao objeto representado”; e vemos o significante fotográfico em Barthes, ao colocar que a fotografia é uma “emanação da realidade passada”.

No entanto a “correspondência fotográfica pode ser manipulada” alterando o objeto na imagem dando a parecer que se trata de um objeto não existente, ou ser subtraído ou até mesmo ser acrescentado à cena. A diferença entre a verdadeira simulação ilusória, “uma legítima mentira visual” e uma brincadeira, está na dimensão pragmática da mensagem fotográfica.

Pelo viés semântico, esses exemplos de fotografias nos mostram o potencial pictórico da mentira, são mensagens visuais que representam, mas não correspondem a realidade representada.

 

4.      A dimensão sintática

 

 

Em linguagem somente sentenças são verdadeiras ou falsas – sentenças onde o sujeito ou argumento está em relação sintática com o predicado. Como não há palavras nem proposições verbais nas imagens, recorreu-se a Pierce que na Teoria dos Signos que colocou rema como o equivalente semiótico mais geral e dicente como equivalente geral de proposições.

A questão é se as imagens podem funcionar como signos dicentes autônomos ou apenas se consistem em signos remáticos, ou seja, se elas somente representam objetos ou podem representar objetos junto com predicado sobre estes. A resposta tem sido negativa em função dos três argumentos - incompletude contextual, não-segmentabilidade e vagueza dicente, ou seja:

1. Incompletude contextual

Somente quando a imagem vem acompanhada de título ou rótulo; mensagem, texto,- imagem pode transmitir uma proposição – falsa ou verdadeira – neste caso considera-se a imagem como remática, incompleta que funciona como parte do todo dicente.

2. Não-segmentabilidade

É contra suposição de uma estrutura dicente de imagens – considera a possibilidade de uma linguagem onde imagens ocupam o papel que as palavras ocupam na língua natural.

3. vagueza dicente

É contar a possibilidade de designar valores de verdade as imagens, ou seja, as imagens não podem transmitir algo como afirmação, portanto nem falsa nem verdadeira.

 

5.      A dimensão pragmática

 

 

As imagens podem ser afirmativas? Nada podendo ser julgado como verdadeiro ou falso se for somente expresso na modalidade possibilidade, funcionalidade, imaginação, exemplificação, mera questão – no caso tem que verificar a função restrita da imagem, mostrar o real ou o imaginário – segundo Wittgenstein, “a função pragmática da imagem é, portanto aberta e indeterminada”.

A função assertiva da imagem pode originar-se das imagens sozinhas, ou se signos não pictoriais são requeridos indicadores de sua declaração de verdade.

Tanto as mensagens verbais quanto as pictoriais devem ser interpretadas dentro de seu contexto mais amplo. Os indicadores de contexto de uma asserção por meio da verbal podem ser expressos nesse mesmo meio e o das mensagens pictoriais não podem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6.      Conclusão

 

 

 

 

O questionamento do valor das verdades das imagens existe há muito tempo. É centrado na razão – tendência logocêntrica - contra o potencial de verdade da imagem.

Em Platão encontramos: “a pintura está longe da verdade, e, portanto tem o efeito de atingir só um pouco de tudo, e isso somente através de uma imagem de sombras”. A evolução das imagens leva a uma reconsideração do assunto observando desde as sombras de Platão até fotografias documentais e as fotografias manipuladas. a semiótica dá suporte a analise da questão da mentira ou verdade nas imagens. Sebeok (1986) mostrou que mentir não está de maneira nenhuma restrito a semiose verbal, a semiótica das imagens investiga imagens como um sistema de signos autônomos em relação a linguagem verbal.

O resultado do estudo ajuda a concluir que as imagens podem ser usadas para asseverar ou enganar sobre fatos e das dimensões semânticas, sintática e pragmática, não significando que são modos típicos da informação pictorial.

As estratégias manipuladores da informação não são falsificações diretas da realidade expressas de maneira assertiva, mas manipulações através de uma pluralidade de modos indiretos de transmitir significados.