PUC-Rio
Departamento de Artes e Design
Mestrado em Design 2002
Irina Aragão dos Santos
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Filme: L’année dermière à Marienbad
França, 1961, 94’’
Direção: Alain
Resnais e Alain Robbe-Grillet
Com: Delphine
Seyring, Giorgio Albertazzi, Sacha Pitoeff
Textos estudados:
• COELHO, Luiz
Antonio L. Tal objeto tal dono. In:
______. _____: ______, ______.
• COELHO, Luiz
Antonio L. À sombra do objeto. In:
Comunicarte. ______: _____,vol. 1, nº 31, dezembro 2002, pp. 267-272.
• COELHO, Luiz
Antonio L. O objeto da condução
narrativa: o caso Ano passado em Marienbad. In: Anais do SOCINE 2001
(Quinto Encontro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema). Porto Alegre:
UCRS, 2001.
Coisas encerram metas, tornam
habilidades manifestas e dão forma à identidade de seus usuários. O homem não é
apenas “homo sapiens” ou “homo ludens”; é também “homo faber”, o fazedor e usuário de
objetos. Sua subjetividade, de certa forma é um reflexo das coisas com as quais
interage. Dessa forma, objetos também fazem seus criadores e usuários.
Como
o devaneio, é construído em cima de oposições que se ligam através de
repetições, mantras, que aparecem em forma de texto, música ou em marcações
gestuais (a posição do braço de A) ou cenográficas (mapas, corredores, aléias,
ornamentos), ora em marcações simbólicas - o jogo - ou ainda em movimentos de
câmera - circulares no interior e fixos ou em cima de trilhos no exterior. Tais
oposições podem ser vistas como elementos sólidos, enquanto que as repetições
existem como o meio líquido, o amalgama, que as envolve, assegurando alguma
linearidade dentro da não linearidade, embora preservando a angústia inerente
ao dilema proposto, já que insistem em tecer acordes visuais dissonantes.
Não
se trata de uma estória, de um triângulo amoroso, com personagens planos ou
redondos. Embora a estrutura triangular exista, no que tange às personagens,
estas parecem alegorias de entidades psíquicas, que, como tal, estão naquele,
como poderiam estar em qualquer outro contexto. Este aspecto transitório é
marcado de várias formas: na escolha de um espaço transitório como cenário - o
hotel; em suas personagens – os hóspedes – e na escolha de um estrangeiro – X –
como o vértice do triângulo que conduz a narrativa.
Muitos
são os recursos estético/formais que marcam na narrativa, sua irrealidade e sua
conseqüente não linearidade. Sendo a opção pelo preto e branco, num momento
onde a cor já era bastante comum, talvez o principal recurso estético que a
sugira.
No interior de corredores que não
configuram caminhos precisos em oposição ao jardim, com suas allées droites, sua disposição espacial
clara e geométrica, suas plantas podadas em forma de cones, vemos a razão e
lógica em oposição ao desejo, sensual e lúdico. Dentro x fora; lúdico x
concreto. A oposição é ainda marcada no uso do claro / escuro como recurso de
iluminação claramente teatral, que se repete nas roupas, sempre brancas ou
pretas. No peignoir branco com estola
de penas, escolhido para o momento da possível morte da personagem A, por
exemplo, podemos ver uma espécie de “alegoria da pomba”, representando, ainda
que simbolicamente, o par liberdade x prisão, ou a liberdade que se adquire
através da prisão definitiva que é a morte. Esta oposição é marcada ainda nos
diálogos, na insistente oposição entre o acaso “hasard” e a fatalidade,
“naturellement”.
Se
encararmos as personagens como entidades psíquicas, a oposição parece se dar
entre desejo e razão, sensualidade e controle. Como se tudo fosse o devaneio da
personagem feminina A, que hesita entre ceder ou não ao desejo – desejo este
que compreende inclusive a pulsão de morte e é representado por X.
Numa
das pontas do triângulo temos sedução e persuasão, na outra – M - temos a
intimidação e o controle. Na ponta feminina, temos como resposta o medo, a
ambigüidade e a dissimulação. Talvez por se tratar de uma entidade psíquica,
diz X, “Meu nome não importa”. Como alegoria do desejo, X tem todo o tempo do
mundo, por isso eles se encontram, “par hasard”, em todos os lugares.
Nesse
contexto, M representa o racional, o lógico, o super-ego, uma espécie de
oráculo da fatalidade, o vigia, que dá as cartas, que “pode perder, mas ganha
sempre...”. Com sua pontaria certeira, mata a imaginação como quem atira num
balão de gás, quando por exemplo descreve as estátuas, esvaziando-as imediatamente
da fantasia contida nos enredos sugeridos por A e X.
A
oposição entre desejo e razão é flagrante ainda na separação que há, por vezes,
entre o olhar e a fala de A: Em vários momentos, enquanto suas palavras negam,
seus olhos parecem lembrar perfeitamente, com doçura e prazer, de tudo o que
‘aconteceu’. Dividida, A cede e nega. Em dado momento, chega a pedir a M que
não a deixe partir…
Com relação às demais personagens
temos mais uma vez uma construção similar à do pensamento, já que estas parecem
imóveis e congeladas como objetos, presenças vazias como colunas, espelhos e
corredores, animadas apenas quando focadas pelas personagens principais.
A descrição minuciosa de fatos e
objetos aparece como recurso mnemônico, forma de convencimento ou sedução – não
tendo nenhuma importância a verificação destes no mundo “real”. Estava frio ou
calor? Foi em 28 ou 29? Em Mariembad ou em Frederiksbad? Qual o nome de X? …
No início, um dos diálogos que chega
a nós é o de um homem que conta um acontecimento para outro, este pergunta: -
você estava lá? Ele responde: - Não, foi um amigo que me contou. “Non, c’est un ami que me l’a raconté” e
o outro diz em tom irônico “- ah... il
vous a raconté...”. Há aí uma
brincadeira com o real e o imaginário, afinal para que serve a verificação
empírica dos dados se o que fica é a ambiance,
se estes mesmos dados – objetos - servirão para reconstituir uma atmosfera, um
clima, livre da precisão cartesiana “real”? “Si
non est vero est bene trovatto”.
Além de ter uma iluminação marcadamente
teatral, o filme começa e termina - com uma peça de teatro, cujo texto passa em
seguida para a boca de X. Tal opção não parece gratuita, e nos permite pensar
que, trata-se, não de uma estória de amor, e sim de uma alegoria, uma fábula,
como as de La Fontaine, onde há pessoas, do mesmo modo que poderia haver corvos
ou raposas... Fábula esta, que, em vez de possuir um conteúdo moral, versa
sobre a psiquê e sua dificuldade - demasiadamente humana - em equilibrar a
dialética instinto/razão.