PUC-Rio

Departamento de Artes e Design

Mestrado em Design 2002

Irina Aragão dos Santos

Julieta Sobral

 

 

Disciplina: ART 2205 – Tópicos Especiais em Design IV

O lugar do narrativo na mídia visual: temporalidade paralela

2003.1

Prof. Dr. Luiz Antonio L. Coelho

 

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O ano passado em Marienbad

 

Filme: L’année dermière à Marienbad

França, 1961, 94’’

Direção: Alain Resnais e Alain Robbe-Grillet

Com: Delphine Seyring, Giorgio Albertazzi, Sacha Pitoeff

 

Textos estudados:

COELHO, Luiz Antonio L. Tal objeto tal dono. In: ______. _____: ______, ______.

COELHO, Luiz Antonio L. À sombra do objeto. In: Comunicarte. ______: _____,vol. 1, nº 31, dezembro 2002, pp. 267-272.

COELHO, Luiz Antonio L. O objeto da condução narrativa: o caso Ano passado em Marienbad. In: Anais do SOCINE 2001 (Quinto Encontro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema). Porto Alegre: UCRS, 2001.

 

Coisas encerram metas, tornam habilidades manifestas e dão forma à identidade de seus usuários. O homem não é apenas “homo sapiens” ou “homo ludens”; é também “homo faber”, o fazedor e usuário de objetos. Sua subjetividade, de certa forma é um reflexo das coisas com as quais interage. Dessa forma, objetos também fazem seus criadores e usuários.

Csikszentmihalyi e Rochberg-Halton: 1998, p.1

 

 

 

 

… imagens em preto e branco; onde as sombras, o branco e o preto determinam o brilho, as silhuetas, a textura, a cor do ambiente; linguagem; música de fundo sem linearidade, repetições formando um ciclo sem começo, nem fim, talvez o órgão seja uma menção à música barroca, que acompanha um panorama por um palácio barroco, onde salões, corredores; Marienbad; teatro; galerias, escadarias; jogo de damas; elementos arquitetônicos e decorativos afirmam a opulência, o luxo, a nobreza, a sensualidade; A; o mistério das dimensões em perspectiva e labirintos; Frederiksbad; cartas; tempo; personagens imóveis ou em movimentos rígidos; M; dominó; feições sem expressão, modelados pelas sombras, ocupam o espaço como peças de xadrez; contraste entre o geométrico e o orgânico; fósforos; diálogos; olhares; jóias; smoking; jardim; esculturas; X; cumplicidade nas relações; vestidos elegantes; reflexos nos espelhos; gestos marcados; serviçais compõem o ambiente; narrativa; instante; memória; afetividade; projeção; simbólico; identidade; pensamento; objetos…

 

O objeto como condutor da narrativa

 

O homem, como ser social, se expressa, se comunica e se relaciona por movimentos, gestos, símbolos e sinais, sendo o produtor das mais variadas manifestações culturais. O patrimônio cultural, portanto, expressa valores, desejos, crenças, tradições e identifica o homem como indivíduo em um grupo e este grupo em uma sociedade.

 

Os objetos são produtos sociais, que se tornam extensões das necessidades humanas; são elementos que compõem e asseguram a um indivíduo sua identidade e individualidade; representam a convivência entre grupos no sistema social; fazem parte da existência humana, ocupando lugares variados conforme a hierarquia de valores a eles atribuída; são suportes de anseios, afetividade, sonhos e expectativas. São representações simbólicas dos valores sociais e testemunhos da história da humanidade.

 

Ao materializar suas idéias, desejos, necessidades, convenções e formas de se relacionar consigo e com o outro em objetos, transforma-os em personagens, atribuíndo-lhes um papel e/ou referência em dado contexto; compõem cenas, alimentam enredos e desenham narrativas.

 

E aqui, torna-se oportuno, apresentar o filme O ano passado em Marienbad, que ilustra de forma surpeendente as mencionadas relações. Iniciamos as observações chamando atenção para um filme todo produzido em preto e branco e que nem por isso torna-se menos colorido… O diálogo entre os tons de cinza, preto e branco é vivo, é brilhante, o jogo de oposições ressalta as cores, ora em tons fortes, ora em tons pastéis. As cenas vêm associadas a objetos, locais, eventos, situações, sons e personagens, inicialmente, todos apresentados como objetos; coisas que vão desencadear um relato narrativo.

 

A priori, as cenas não apresentam sequências lógicas de uma narrativa clássica, a trama não faz diferença… O somatório de todos os elementos sensoriais montam a narrativa: a narrativa, lógica, da memória humana, que não é linear tal como o pensamento… A narrativa do filme torna-se clara, quando percebemos que nos são apresentados os devaneios das personagens, como a própria música de fundo com textos recitados, que não buscam a lógica para ter sentido e significação, não têm começo, nem meio, nem fim…, como em nossas mentes…, onde o fantástico e o ilógico têm espaço (ora geométrico, ora sinuoso e orgânico). Os dispositivos que nos conduzem a perceber a proposta do diretor, são os objetos –  funcionam “como âncora da memória”.

 

A passagem do tempo e a memória são os elemetos centrais deste enredo, os objetos fazem a ponte com o momento da memória: vestidos, jóias, ternos, móveis, jogos, como no pensamento, sobrepõem vozes; diálogos antecipam a ação; palavras bloqueiam frases… O filme é construído com a estrutura do pensamento, fragmentária e eternamente presente. É enquanto está sendo. Não há antes ou depois. É uma “fatia” do pensamento em seu eterno devir. Existe enquanto está sendo vista, como ‘coisa em si’, fora disso cai no vazio, na ausência, ou, como diz o próprio texto, no silêncio de mármore.

 

Como o devaneio, é construído em cima de oposições que se ligam através de repetições, mantras, que aparecem em forma de texto, música ou em marcações gestuais (a posição do braço de A) ou cenográficas (mapas, corredores, aléias, ornamentos), ora em marcações simbólicas - o jogo - ou ainda em movimentos de câmera - circulares no interior e fixos ou em cima de trilhos no exterior. Tais oposições podem ser vistas como elementos sólidos, enquanto que as repetições existem como o meio líquido, o amalgama, que as envolve, assegurando alguma linearidade dentro da não linearidade, embora preservando a angústia inerente ao dilema proposto, já que insistem em tecer acordes visuais dissonantes.

 

Não se trata de uma estória, de um triângulo amoroso, com personagens planos ou redondos. Embora a estrutura triangular exista, no que tange às personagens, estas parecem alegorias de entidades psíquicas, que, como tal, estão naquele, como poderiam estar em qualquer outro contexto. Este aspecto transitório é marcado de várias formas: na escolha de um espaço transitório como cenário - o hotel; em suas personagens – os hóspedes – e na escolha de um estrangeiro – X – como o vértice do triângulo que conduz a narrativa.

 

Muitos são os recursos estético/formais que marcam na narrativa, sua irrealidade e sua conseqüente não linearidade. Sendo a opção pelo preto e branco, num momento onde a cor já era bastante comum, talvez o principal recurso estético que a sugira.

 

No interior de corredores que não configuram caminhos precisos em oposição ao jardim, com suas allées droites, sua disposição espacial clara e geométrica, suas plantas podadas em forma de cones, vemos a razão e lógica em oposição ao desejo, sensual e lúdico. Dentro x fora; lúdico x concreto. A oposição é ainda marcada no uso do claro / escuro como recurso de iluminação claramente teatral, que se repete nas roupas, sempre brancas ou pretas. No peignoir branco com estola de penas, escolhido para o momento da possível morte da personagem A, por exemplo, podemos ver uma espécie de “alegoria da pomba”, representando, ainda que simbolicamente, o par liberdade x prisão, ou a liberdade que se adquire através da prisão definitiva que é a morte. Esta oposição é marcada ainda nos diálogos, na insistente oposição entre o acaso “hasard” e a fatalidade, “naturellement”.

 

Se encararmos as personagens como entidades psíquicas, a oposição parece se dar entre desejo e razão, sensualidade e controle. Como se tudo fosse o devaneio da personagem feminina A, que hesita entre ceder ou não ao desejo – desejo este que compreende inclusive a pulsão de morte e é representado por X.

 

Numa das pontas do triângulo temos sedução e persuasão, na outra – M - temos a intimidação e o controle. Na ponta feminina, temos como resposta o medo, a ambigüidade e a dissimulação. Talvez por se tratar de uma entidade psíquica, diz X, “Meu nome não importa”. Como alegoria do desejo, X tem todo o tempo do mundo, por isso eles se encontram, “par hasard”, em todos os lugares.

 

Nesse contexto, M representa o racional, o lógico, o super-ego, uma espécie de oráculo da fatalidade, o vigia, que dá as cartas, que “pode perder, mas ganha sempre...”. Com sua pontaria certeira, mata a imaginação como quem atira num balão de gás, quando por exemplo descreve as estátuas, esvaziando-as imediatamente da fantasia contida nos enredos sugeridos por A e X.

 

A oposição entre desejo e razão é flagrante ainda na separação que há, por vezes, entre o olhar e a fala de A: Em vários momentos, enquanto suas palavras negam, seus olhos parecem lembrar perfeitamente, com doçura e prazer, de tudo o que ‘aconteceu’. Dividida, A cede e nega. Em dado momento, chega a pedir a M que não a deixe partir…

 

Com relação às demais personagens temos mais uma vez uma construção similar à do pensamento, já que estas parecem imóveis e congeladas como objetos, presenças vazias como colunas, espelhos e corredores, animadas apenas quando focadas pelas personagens principais.

 

A descrição minuciosa de fatos e objetos aparece como recurso mnemônico, forma de convencimento ou sedução – não tendo nenhuma importância a verificação destes no mundo “real”. Estava frio ou calor? Foi em 28 ou 29? Em Mariembad ou em Frederiksbad? Qual o nome de X? …

 

No início, um dos diálogos que chega a nós é o de um homem que conta um acontecimento para outro, este pergunta: - você estava lá? Ele responde: - Não, foi um amigo que me contou. “Non, c’est un ami que me l’a raconté” e o outro diz em tom irônico “- ah... il vous a raconté...”.  Há aí uma brincadeira com o real e o imaginário, afinal para que serve a verificação empírica dos dados se o que fica é a ambiance, se estes mesmos dados – objetos - servirão para reconstituir uma atmosfera, um clima, livre da precisão cartesiana “real”? “Si non est vero est bene trovatto”.

 

Além de ter uma iluminação marcadamente teatral, o filme começa e termina - com uma peça de teatro, cujo texto passa em seguida para a boca de X. Tal opção não parece gratuita, e nos permite pensar que, trata-se, não de uma estória de amor, e sim de uma alegoria, uma fábula, como as de La Fontaine, onde há pessoas, do mesmo modo que poderia haver corvos ou raposas... Fábula esta, que, em vez de possuir um conteúdo moral, versa sobre a psiquê e sua dificuldade - demasiadamente humana - em equilibrar a dialética instinto/razão.