Narratividade Visual
Prof. Luiz Antônio Luzio Coelho
Alunas: Stela Kaz e Luiza Novaes
Texto:
Santaella, Lucia e Nöth, Winfried. Imagem. Cognição, semiótica, mídia. Iluminuras,
Aula: 18 de junho de 2003
Discussão inicial
Lúcia Santaella é professora de Semiótica na PUC-SP. Adotou a Semióica conforme conceituada por Peirce.
O texto que resumimos e cujo conteúdo procuramos passar aos colegas do curso de Narratividade Visual alinha as diferentes teorias sobre os modelos e esquemas mentais através dos quais entendemos o que vemos e formamos imagens mentais e representações.
O texto consiste em referencial bibliográfico e conceitual, ótimo para situar o pesquisador que quer se iniciar na questão das representações e imagens.
Em sala, surgiu uma discussão inicial, logo após a apresentação do tema, sobre as possibilidades da língua como um conhecimento inato. Foi lembrado pelo professor o caso das irmãs que cresceram em meio à uma confusão de diferentes idiomas, nos EUA, e criaram um dialeto próprio, incompreensível para os demais, o caso do menino criado pelos lobos na floresta, enfim, casos únicos de desenvolvimento de linguagens autônomas.
A linguagem oral foi comparada com a mtemática, que cria seu próprio código e passa de uma dimensão para outra, mas não é só numérica, depende da linguagem.
Foi diferenciado linguagem de língua.
A existência de uma linguagem presssupõe o compartilhamento de um código e de um repertório. A língua é um sistema com uma gramática estruturada.
Foi diferenciado nível de comunicação de nível de expressão. A comunicação pressupõe uma resposta, que a simples expressão dispensa.
Foi diferenciado significação, entendido como um processo de dar significado a alguma coisa, de significado, como sentido.
Foi diferenciado semiologia de semiótica. Semiologia é o estudo dos sintomas, têve origem na medicina e o termo foi aplicado à lingüística primeiramente por Peirce.
Semiótica é a ciência geral dos signos e abrange a própria semiologia.
Introdução
As imagens têm sido meios de expressão desde milênios antes do aparecimento do registro da palavra. Hoje, a preponderância da visão sobre os outros sentidos é tão forte a ponto de parecer ameaçar as mídias verbais. Porém, embora a palavra venha sendo estudada sob variados enfoques, ainda não existe uma ciência da imagem.
O estudo da imagem é um empreendimento interdisciplinar.
Objeto de estudo do livro
Gêneros imagéticos tradicionais (pintura, fotografia) e novas mídias imagéticas (holografia, infografia, fotografia computacional).
Capítulo 1
Estuda a imagem como representação visual (através de conceitos da semiótica) e a imagem como representação mental (com os conceitos da ciência cognitiva).
Semiótica e Ciência cognitiva são as ciências que estudam as representações visuais e mentais.
As representações visual e mental da imagem são domínios inseparáveis.
Representação visual: Objetos materiais, signos que representam o nosso meio ambiente visual: desenhos, pinturas, fotografias, gravuras, cinema, TV, info e holografia.
Representação mental: visões, fantasias, imaginações, esquemas, modelos.
Capítulo 2
Estuda a semiótica da imagem, ou seja, a imagem como signo.
Signo e Representação são conceitos unificadores dos dois domínios. Unificação do perceptível e do mental.
A imagem é um meio de expressão da cultura humana.
A imagem é um sistema semiótico ao qual falta uma metassemiótica (Benveniste). O discurso verbal é necessário ao desenvolvimento de uma teroria da imagem.
1. Representação
A teoria da ciência cognitiva trata de temas como representação analógica, digital, proposicional, cognitiva, ou, de maneira geral, representação mental.
Na semiótica geral, representação situa-se entre apresentação e imaginação, e estende-se a conceitos como signo, veículo do signo, imagem, significação, referência.
1.1 Representação como Signo
As palavras representação, linguagem e símbolo são virtualmente intercambiáveis em seus usos mais vastos (Howard).
veículo do signo = representação pública (Sperber) = representamen (Peirce)
representações mentais da ciência cognitiva = processos sígnicos intrasubjetivos (Sperber) = interpretante sígnico (Peirce)
Surgiu uma discussão sobre a diferença entre a representação de uma coisa e a coisa representada, entre representação e referente e entre ícone e metáfora. A aula terminou. O texto foi retomado desde o início na aula seguinte.
1.2 Representação como relação sígnica (ou função sígnica ou processo de utilização sígnica)
Na escolástica medieval, de Tomás de Aquino, representação é o processo de apresentação de algo por meio de signos.
Haveria quatro tipos de representação:
por tipo de uma imagem
por tipo de um vestígio
através de um espelho
através de um livro
Para Rosenberg (1974) A atividade humana característica e essencial é a representação quer dizer, a produção e manipulação de representações.
Para Dretske (1988) representar é desempenhar uma função significativa num sistema de representação.
Para Peirce representação é o processo de apresentação de um objeto a um intérprete de um signo ou a relação entre signo e objeto. Representar = estar para
Quando é desejável distinguir entre aquilo que representa e o ato ou relação de representar, o primeiro pode ser chamado de representamen e o último de representação.
1.3 Representação como referência e função de apresentação sígnica
Rosenberg (1974) Referência ou designação é a representação lingüística das coisas.
Bunge (1974) e Kaczmarek (1986) A relação referencial une um veículo do signo a uma coisa na sua totalidade, enquanto a relação representativa relaciona o construto conceitual a um determinado aspecto da coisa.
Referir-se é um remetimento ao mundo.
Representar significa apresentar algo por meio de algo materialmente distinto.
Jakobson denominou a função de apresentação de função referencial.
A função representativa é confrontada com a função comunicativa. A primeira serve à representação do mundo. A segunda à mediação do pensamento entre as pessoas.
Derrida sobre Husserl (Teoria do monólogo interno) "No discurso interno, eu não comunico nada a mim mesmo...Existem unicamente representação e imaginação."
1.4 Representação como signo icônico
Representação é um signo baseado numa relação de semelhança.
Desde o pensamento medieval, as "species", formas externas de manifestação das coisas são semelhanças (similitudes) das coisas.
Nelson Goodman representações são imagens que têm aproximadamente o mesmo tipo de função que as descrições.
Mario Bunge considera o critério de analogia como central.
2. Representação, re-representação e apresentação
2.1 Re-presentação e apresentação
A apresentação é utilizada tendencialmente para a presença direta de um conteúdo na mente.
Uma re-presentação parece reproduzir algo alguma vez já presente na consciência.
Max Bense (1986) Representação é um pressuposto da qualidade sígnica. " Objetos apresentados funcionam ontologicamente; objetos representados funcionam semioticamente."
O professor falou sobre a dicotomia entre o pensamento francês, com Decartes, e o inglês, com Locke, e como essas diferentes interpretações do mundo formaram correntes de seguidores no pensamento moderno.
Existem signos que não representam nada?
Dois argumentos se levantaram contra a visão da qualidade sígnica como re-presentação:
2.2 Semiótica fenomenológica
Braun (1981) diferencia os signos que representam e os que não representam em: símbolos (representativos), e índices ou indícios (não-representativos).
Husserl O signo de expressão é intencional e significativo. O indício não possui ""função significativa".
O que existe no mundo real é o símbolo, por isso ele é representativo (Peirce). O índice mantem uma relação simbólica com seu objeto. Índice é aquilo que deixa rastro no signo. O índice individualiza.
Surgiu uma discussão sobre a caricatura do Lula,, qua não seria um índice, porque, ao contrário do índice, é intencional; não seria um ícone, porque preza os aspectos individuais; seria um símbolo.
A fumaça pode ser um símbolo ou um índice. Fumaça no campo é indício de fogo. A fumaça no palco é um ícone.
2.3 A teoria da representação de Goodman
O conceito de representação é somente um entre vários "tipos de função" de signos.
Formas da função referencial:
A representação imagética (de objetos ou acontecimentos) e a descrição verbal caracterizam-se por uma relação denotativa com o mundo
A expressão de sentimentos ou qualidades e a exemplificação são relações não denotativas com o mundo.
O exemplo é um veículo do signo que possui as próprias qualidades às quais ele se refere, portanto o apresenta e o representa (como símbolo) a um só tempo.
Denotar é apresentar, conotar é atribuir sentido.
3. A crise da representação
Sob essa denominação encontram-se temas variados:
Lukács: Impossibilidade de representação do mundo na arte do século XX.
Lyotard: Perda de uma realidade que precede a representação em um mundo que se apresenta somente por frases, já que ele perdeu sua representatividade absoluta. Queixa pós-moderna da circularidade da representação.
Heidegger: repraesentatio como um resultado de "trazer para si o existente como um contrário, relacioná-lo consigo próprio e, neste sentido, recuperá-lo para si como um campo decisivo"
Duas teses apresentam interesse semiótico:
3.1 Foucault
(As palavras e as coisas, 1966), Tese sobre a perda da representação
É uma história da teroria e da história cultural semiótica do ponto de vista de uma semiologia estruturalista cujo fundamento é o modelo sígnico diádico de Sausurre.
3.1.1 Desde Port Royal (sec. XVII) modelo triádico dos estóicos até Saussurre. com o modelo diádico. Substituição do caráter copiador do signo pelo princípio da arbitrariedade.
O signo "re-presenta" a racionalidade da uma lógica universal baseada na arbitrariedade e na convenção.
Questionamento da relação do objeto do signo a partir do limiar da Era Clássica.
3.1.2 O modelo clássico de representação
Port Royal: o signo não representa uma coisa, mas a idéia de uma coisa e, assim, representa a ligação de duas idéias, uma da coisa que representa, outra da coisa representada.
A ordem da representação lingüística determina a odrdem das coisas em geral.
Deslocamento das relações sígnicas do mundo das coisas a um mundo dos signos das coisas, ou seja, das representações, no sentido de Foucault. Após a mudança do paradigma da Renascença para a Era Clássica: " uma rede de signos coloca-se no lugar do conhecimento. [...] Através de signos as coisas tornam-se distintas, elas se conservam na sua identidade, se desfazem e se ligam. A razão ocidental entra na era do julgamento."
O professor disse que, ao prepararmos nossas dissertações, podemos voar, ainda que achemos que não lemos o suficiente. Que podemos nos aventurar a partir de referenciais atuais, não precisamos estar voltando sempre aos gregos. Que a ênfase maior deve ser dada ao raciocínio, e não à volta ao passado.
3.1.3 A perda da representação a partir do século XIX
A ordem das coisas não é mais fundamentada na razão e suas representações, mas nas regularidades históricas, que são inerentes ao sistemas das coisas.
... a linguagem existe dissociada da representação de forma não mais diferente do que dispersa. Foucault considera a fragmentação da linguagem na poesia de Mallarmé e o desaparecimento do discurso ligado a isso como paradigmáticos, para a nova discussão entre linguagem e representação.
A era do Empirismo e do Historicismo leva adiante a visão pré-clássica das palavras e das coisas.
Falou-se sobre a opacidade da escritura. Que a palavra constrói uma urdidura atrás do que ela está significando.
3.2 A desconstrução da re-presentação de Derrida.
A impossibilidade da representação
De acordo com a filosofia da presença de Derrida (1967), a representação não pode ser uma presentificação no sentido de uma repetição de algo presente anteriormente. Derrida opõe à idéia da presença fenomenológica, como último ponto de referência da representação, seu conceito da différance, e isto significa o adiamento infinito da presença e a diferença inanulável dentro do signo que, dividico em si mesmo, leva consigo vestígios de outros signos.
A diferenciação entre simples presença e repetição sempre já começada deve ser apagada.
4. Imagem e representação mental
O tema da representação mental pertence à ciência cognitiva, que desenvolve modelos de conhecimento, e portanto representações, e modelos de processamento de suas estruturas em processos mentais, ou modelos de processos cognitivos.
Para a semiótica,representações cognitivas são signos e operações mentais ocorrem na forma de processos sígnicos.
4.1 Formas e modelos da representação mental
Como o conhecimento das formas de representação mental de informações lingüísticas e visuais é armazenado? Será que a informação visual só aparece na forma de imagens mentais e a informação lingüística na forma de símbolos?
O que é o pensamento e como ele se processa
Cummins (1989) Existem 4 modelos de representação mental do conhecimento:
idéias no sentido de uma matéria mental estruturada
baseada na dicotomia aristotélica da matéria e da forma como essência de todas as coisas;
Idéias são ícones das coisas que representam.
Segundo a Escolástica, idéias são entidades sem existência física compostas de matéria e forma. As idéias são modelos mentais das coisas e têm, em comum com estas, a forma.
idéias no sentido de imagens
Representação analógica, discutida desde os epicuristas até à atual ciência cognitiva.
idéias no sentido de símbolos
Hobbes: A linguagem é representada mentalmente na forma de símbolos.
idéias como estados neurofisiológicos
Coneccionismo: o conhecimento é representado mentalmente na forma de processos de ativação ou inibição fisiológicas de ligações sinápticas em redes neuronais.
O Coneccionismo vigora como contramodelo para o cognitivismo (de Jorna). Defende que as representações mentais constituam somente processos neurofisiológicos.
Ambos podem ser adotados desde que se refiram a diferentes níveis de descrição de processos mentais.
4.2 Modelos da imagem mental
De que forma o conhecimento visual é representado?
Será que também existem representações visuais do conhecimento lingüístico?
Existem imagens mentais que representam aquilo que é copiado de maneira icônica? Ou será que até imagens são codificadas simbolicamente?
4.2.1 Imagens como idéias, idéias como imagens
Filósofos se colocaram a questão sobre a natureza das imagens mentais, sua relação com a realidade e seu comportamento relacionado ao pensamento linguístico.
Platão: Imagens não são o resultado da percepção (aisthesis). Elas têm origem na própria alma.
Aristóteles: O pensamento é impossível sem imagens.
Locke (1690) caracteriza pensamentos e significados de palavras também como "idéias invisíveis".
Berkeley (1710) atribui a Locke uma teoria imagética da significação e contrapõe que a idéia geral de um triângulo, por exemplo, não pode ser imagética porque não se pode desenhar uma imagem de todas as formas de triângulos.
4.2.2 Idéias como cópias da realidade
A teoria imagética do pensamento considera as imagens mentais como cópias icônicas da realidade.
Epicuristas: Os objetos da realidade irradiam, na forma de átomos invisíveis, cópias materiais que alcançam o cérebro humano como eidola ou simulacra. Assim, a imagem mental é um ícone da realidade.
Locke e Descartes (Teoria representativa da percepção): o percebido provoca representações internas que tem uma relação de semelhança com os objetos percebidos sem, no entanto, possuir necessariamente o caráter de imagens reais.
4.3 A teoria marxista do pensamento (e do signo) como cópia
Cada ato de cognição tem uma imagem mental como resultado. Essa cópia mental é um tipo de cópia da realidade, resultado ideal de um processo de espelhamento no qual o homem adquire mentalmente uma "realidade objetiva".
Os objetos e a cópia são dependentes e congruentes um com o outro.
Klaus (1969): a relação sígnica entre a cópia mental e a realidade significada é uma relação de homomorfia.
Neumann (1976): a relação sígnica entre a cópia mental e a realidade significada é uma relação de similaridade.
A teoria Marxista da cognição como cópia foi também transferida para a semântica da linguagem; enquanto cada processo cognitivo tem como consequência um processo copiador ideal, significados de palavras são unicamente aquelas cópias mentais que se ligam mais ou menos rigidamente a uma determinada cadeia de sons em uma comunidade linguística.
4.4 Teoria lógica do pensamento imagético de Wittgenstein
Nós formamo-nos imagens dos fatos.
A imagem é um modelo da realidade.
A imagem lógica dos fatos é o pensamento.
Esses conceitos não se referem a uma imagem mental ou visual e sim a uma relação complexa e abstrata que Stenius (1969) interpreta no sentido do conceito matemático de cópia isomorfa, que corresponde ao conceito peirceano do ícone diagramático.
Wittgestein associa a idéia do indexical à teroria imagética da significação, pois: "A frase [como imagem da realidade] mostra seu sentido." Mais tarde, Wittgenstein vê a realidade do mundo como resultado de interpretações lingüísticas e não ontologicamente como dada. Os fatos ontológicos se tornam projeções de estruturas lingüísticas dadas primariamente, com as quais falamos com o mundo.
4.5 Modelos da psicologia cognitiva
Imagem também é a reprodução mental ou representação de uma experiência perceptiva não-presente [lembrança].
4.5.1 A Imagem interior de Piaget é um esquema representativo de um acontecimento externo, uma imitação interiorizada e uma transformação do acontecimento.
Função semiótica é também a capacidade de trazer à mente imagens internas. Função semiótica é a capacidade geral do ser humano de representar algo através de um signo ou um símbolo ou um outro objeto. A imagem mental é um veículo do signo que representa o objeto de referência externo. De acordo com a Teoria assimilatória da imagem, a imagem interna é o produto de uma imitação internalizada. A imagem é um significante figural cujo significado é o objeto de referência.
Saussure definiu até o significante verbal como uma imagem mental, que ele chama de imagem acústica.
4.5.2 Imagens mentais nas ciências da cognição
O que é o pensamento? Como uma idéia é representada?
Há 2 modelos cognitivos de processamento de informação:
Modelos simbólicos e proposicionais da representação mental: todo pensamento é codificado simbolicamente, na forma de símbolos digitais elementares, dos quais se originam redes de sistemas simbólicos através de regras de combinações.Teoria da representação unitária que aceita tudo: linguagens e imagens como codificação abstrata e simbólica;
Proposições representam idéias. A linguagem expressa proposições e, consequentemente, idéias.
Modelo analógico: o pensamento se dá em forma de imagens; o conhecimento tem o caráter de imagem como um mapa cognitivo ou uma estrutura mental espacial. Teoria da representação dualista que postula, ao lado da representação simbólica, também um modo de representação icônico.
Há várias posições conciliadoras entre as duas abordagens: de acordo com a teoria de Paivio (1986) da codificação dual, existem dois sistemas mentais separados, nos quais informações verbais e visuais são processadas dominantemente. cópias verbais da imagem se originam paralelamente à codificação imagética, que é assim codificada duplamente.
Kosslyn (1980) diferencia entre representação de imagens de superfície e profunda. A primeira se refere à memória de curto prazo e a última à memória de longo prazo.