A BUSCA DO SUJEITO RECEPTOR DA/NA
CONTEMPORANEIDADE
Adriana Hoffmann Fernandes
A verdade é que a imagem não é a única que mudou. O que mudou, mais exatamente, foram as condições de circulação entre o imaginário individual ( por exemplo, os sonhos), o imaginário coletivo ( por exemplo, o mito) e a ficção ( literária ou artística). Talvez sejam as maneiras de viajar, de olhar, de encontrar-se que mudaram, o que confirma a hipótese segundo a qual a relação global dos seres humanos com o real se modifica pelo efeito de representações associadas com as tecnologias, com a globalização e com a aceleração da história.
Marc Augé[1]
O presente texto tem o intuito de lançar uma reflexão
sobre como o sujeito está sendo pensado atualmente no mundo contemporâneo. Refiro-me
ao termo sujeito entendendo-o como indivíduo
ativo, sujeito de suas próprias escolhas.
Percebemos como tem se ampliado nos últimos anos o
interesse pelo estudo do leitor, consumidor, receptor, usuário. Não importa que
nomes usemos para nomeá-los, a maciça presença deles só denota o quanto a
preocupação com o sujeito tem permeado os estudos das diferentes áreas. Ele é o
receptor na TV e no cinema, é o leitor na literatura, é o consumidor na
propaganda, marketing e em alguns estudos de comunicação, é usuário no design mas
acima de tudo, em todos, ele é sujeito.
O olhar para as questões do sujeito
contemporâneo é interdisciplinar. A sociologia, a antropologia, a educação, a
comunicação, o design e outras áreas acrescentam visões e complementam-se nessa
construção.
A produção no sistema capitalista
iniciou-se ignorando completamente o sujeito. Produzia-se para uma massa sem
rosto, sem gostos e fazia-se tudo da mesma forma para todos. A massa, segundo
Barbero (2001), era entendida por estudiosos da psicologia no final do século XIX como um fenômeno em
que os indivíduos são dotados de uma alma coletiva que os faz comportarem-se em
grupo de forma totalmente diferente da individual. A formação dessa massa era
entendida como uma regressão a um estado primitivo no qual a afetividade e o
instinto passavam a dominar e a massa ficava a mercê da sugestão e do contágio.
A massa é vista, nessa época, como primitiva, infantil, impulsiva,
crédula...
Aos poucos foi se percebendo que os indivíduos faziam
diferentes usos dessas produções massificadas. Usar diferente ou perverter o
objetivo proposto pelo produtor foi a forma que o sujeito encontrou para
emergir, para fazer vir à tona seu rosto, mesmo que por pouco tempo, apenas para
respirar e não ser afogado pela "massa". Ele aprendeu a fazer a sua leitura do produto, criar usos
decorrentes da sua necessidade e encontrar "brechas" para se
expressar sobre e não sob esse mundo massificado. Atrás da aparente passividade, ele agia sem
ser percebido.
Tal fato fez produtores e pesquisadores
começarem a se questionar sobre o que os indivíduos faziam com os produtos
massificados e como os sujeitos se constituiam nesse contexto. As descobertas
do conhecimento e da produção do sujeito no consumo tiveram diferentes usos. A
indústria passou-se a querer personalizar cada vez mais a sua produção buscando
referências para adequar seu produto a diferentes públicos. Vemos hoje produtos
voltados para diferentes faixas etárias, gêneros, raças procurando incluir as
diferenças dos vários grupos na produção que antes não tinha nada de particular
e era totalmente massificada. O capitalismo iniciou fragmentando o processo de
produção e hoje fragmenta o próprio produto porque percebeu que o indivíduo é
heterogêneo no consumo e é sujeito dele, ou seja, faz escolhas próprias.
Na busca de entender quem é esse indivíduo na
contemporaneidade a universidade incorporou o sujeito em seus estudos.
Procura-se vislumbrar o que caracteriza a identidade desses sujeitos atuais
cada vez mais separados pelas suas diferenças. Ao voltar sua produção para
diferentes grupos o sistema deu voz a grupos que antes pareciam não existir.
Entender a produção do sujeito nos diferentes usos dos produtos passou a ser
encarado como necessário para conhecer como esse sujeito se constrói na
atualidade e, como dessa forma, subverte a ordem do sistema. Na sua ação
passa-se a ver um espaço de transformação dentro do próprio sistema.
Como o sujeito é sempre diferente
passa-se a olhar para a diferença de outra forma. A diferença desacostuma
olhar, obriga-nos a desconstruir preconceitos que massificam a nossa visão do
outro e dos aspectos que o envolvem no grupo social: suas relações e
construções cotidianas como formas de entendimento do mundo. A Antropologia
como área que tem como centro o entendimento do outro a partir das suas
diferenças passa a ser uma das áreas de referência, principalmente
metodológica, para quase todas as outras áreas e estudos da atualidade. Outra
área que é também um dos centros da discussão atual é a da Comunicação. A
comunicação inclui o sujeito e a sua linguagem. A linguagem de que se ocupa a
comunicação é a produzida pelos gestos, olhares e falas nas relações humanas
diretas bem como nas indiretas que se corporificam em produtos que são
veiculado por meios de comunicação escritos ou audio-visuais: TV, jornal,
revista, internet, etc.
A Comunicação e a Antropologia trazem elementos que
nos ajudam a compreender o ser humano da atualidade e por isso, perpassam e se
entrecruzam com todas as demais áreas que tem como objeto de estudo o ser
humano: a educação, a psicologia, a filosofia, a sociologia entre outras.
Mas porque essa preocupação com o
sujeito nos dias de hoje? Os produtos midiáticos de diferentes ordens, os conteúdos
educacionais, a literatura, os produtos do design todos trazem implícita a
idéia de um receptor/ leitor que é para
quem eles foram produzidos. Mas quem é ele? Ele é cada vez mais mutante nos
dias de hoje e cada área olha para ele diferentemente. Como nosso interesse está
na relação entre educação e comunicação escolhemos abordar aqui como vieram caminhando
os estudos de Comunicação em relação aos estudos do sujeito, nomeado pelos
comunicadores de receptor. O receptor dos meios de comunicação é também o aluno
de nossa escola. De que forma o olhar da Comunicação sobre o receptor pode nos
ajudar a olhar para esse sujeito aluno? É nesse sentido que pretendemos fazer
essa reflexão.
Itânia Maria Gomes(s/d) aponta que a
investigação sobre a Comunicação, na relação entre a midia e os receptores é
marcada por duas largas tradições: a dos Estudos dos Efeitos e a dos Estudos da
Recepção. Considera que estão inscritos na primeira tradição os estudos que
procuram medir o impacto dos meios sobre a audiência. O efeito é assim
entendido como o conjunto das conseqüências resultantes da presença dos meios
nas sociedades contemporâneas. É considerado conseqüência da atividade comunicativa
e pressupõe a finalização do processo de comunicação. O efeito é o resultado da
comunicação, é a resposta ao estímulo comunicativo realizado por um emissor e é
o impacto produzido num determinado público. Nessa perspectiva entende-se o
receptor como passivo pois está condicionado a um esquema linear de
comunicação.
Para a primeira tradição os meios
são concebidos como causa dos efeitos. A ênfase é na transmissão das mensagens
e quase não se leva em consideração as diferenças de cada meio de comunicação
em particular e dos diferentes receptores. Os receptores são entendidos como
uma massa de indivíduos anônimos à mercê dos poderosos meios e emissores, indivíduos
socialmente isolados.
Magno (s/d) mostra que ainda hoje percebe-se nos
estudos e pesquisas dos meios de comunicação de massa o ranço da tese da
manipulação e alienação do receptor que remonta a esses primeiros modelos
teóricos. Um deles é o da teoria da agulha hipodérmica, surgido na década de 30
entre as duas Guerras Mundiais, no qual o receptor é visto como alguém que é
pessoal e diretamente atingido pela mensagem. Baseada nos princípios da psicologia
behaviorista ( Watson, Pavlov e outros) a teoria hipodérmica se apoiava na
fórmula de estímulo-resposta.
Nessa forma de entender, os meios são instrumentos invasores.
Eles são usados isoladamente por indivíduos isolados. A idéia é a de que os
meios são “ligados” em sua casa produzem determinados efeitos e depois vão-se
embora. Parecem alienígenas isolados da sociedade. Sendo assim, a solução é escolher
se eles entram ou não em nossa casa.
È bom pensarmos também que os meios na década de 30 e
os meios hoje são totalmente outros. Portanto, essa forma de entender o
receptor era, em parte, devida também ao contexto da época. Os meios eram ainda
novidade e a pouca familiaridade do receptor com estes certamente os tornava um
pouco mais "influenciáveis". A TV já existia na Europa e EUA mas no
Brasil ainda nem havia nascido.
Os Estudos da Recepção de que Itânia nos fala estão
inscritos na segunda tradição e caracterizam-se, segundo a autora, por entender
o lugar do receptor no processo comunicativo a partir de sua atividade. São aqueles estudos que
procuram dar conta da relação entre os meios e os receptores argumentando que
essa relação não é um mero efeito de uns sobre outros.
Aprofundando surge a tese dos “usos e
gratificações” que muda a pergunta
sobre “o que os meios fazem às pessoas?” para “o que as pessoas fazem com os
meios?”. A tese dos “usos e gratificações” inverte a perspectiva adotada nas
primeiras décadas da pesquisa em comunicação priorizando a esfera das
necessidades conscientes e inconscientes do indivíduo. Segundo tal tese os meios são eficazes na
medida em que o receptor lhes atribui tal eficácia baseando-se na satisfação de
suas necessidades. O problema dos “usos e gratificações” consiste em
hipervalorizar a esfera da recepção e a meta dos meios seria orientar-se para o
atendimento das necessidades dos indivíduos. A recepção é entendida aqui como individual,
particular de cada receptor.
Assim fomos de um extremo a outro: da
hipervalorização do emissor ou dos MCM à hipervalorização do
receptor-consumidor. Mas, segundo
Magno, estudos teóricos recentes na área de recepção vêm buscando corrigir os
exageros da tese dos “usos e
gratificações”.
A abordagem dos "usos e gratificações" foi
a primeira desta linha de estudos. Hoje, a Teoria da Recepção tenta relativizar
o papel do receptor. Não é mais ele que, sozinho, atribui significados mas sua
produção de sentidos relativos ao audiovisual está entrelaçada às várias
mediações: família, amigos, etc. e são construídos na interrelação com as pessoas e ambientes de seu cotidiano.
Hoje os meios são estão tão incorporados em todas as
relações sociais que passa-se a considerar que eles não podem mais ser isolados
da sociedade pois já são instituições da mesma. Mesmo sem ligar a televisão,
sem ouvir o rádio ou ler o jornal você estará se relacionando em ambientes e com pessoas que farão chegar
a você suas leituras da TV, do jornal e do rádio por exemplo. Estar em contato
com os meios ajuda você a se relacionar com as pessoas nas
diferentes situações como também lhe possibilita fazer uma leitura um pouco
mais pessoal dos fatos veiculados e
comentados em seu cotidiano.
Temos
variados meios, variados produtos e esse aumento de possibilidades na
produção gera, por conseguinte, mudanças no consumo. Assim como as mudanças no
consumo também geram mudanças na produção. Essa é a diferença entre se ter
apenas um canal de televisão e ter vários. A variedade cria a multiplicidade de
visões, deixa claro que a mensagem pode ser veiculada de várias formas e faz
com que o receptor possa, nessa
relação, começar a comparar o que vê, se assim desejar. A situação da mídia
atual abre maiores possibilidades para que o receptor seja mais ativo embora
não se possa dizer que ele será crítico somente porque há uma maior variedade e
possibilidade de escolhas. Nesse processo de escolha outros fatores orientarão
suas escolhas num caminho mais ou menos crítico.
Os estudos da Teoria da Recepção começam
a levar em consideração as características sócio-estruturais e culturais (grau
de instrução, classe social, profissão, faixa etária, gênero) dos indivíduos
que integram a audiência percebendo que os receptores não comparecem vazios à
relação com os emissores, meios e mensagens. Essas características aparecem
como filtros, instâncias mediadoras, e serão responsáveis por determinar a
seletividade dos receptores e portanto, limitar os efeitos.
Perceber que o social implica em
filtros na compreensão dos meios começa também a ampliar a variedade dos programas e textos dos meios
porque assim procura-se atender a esses diferentes seleções. Isso nos mostra que a ampliação do acesso amplia o
olhar sobre o receptor e com isso, amplia também o olhar sobre a produção que
busca novas formas de “seduzir” esse receptor. A ampliação do uso vai mudando o
formato das programações televisivas.
Canclini (1999) nos mostra que o
crescimento vertiginoso das tecnologias audiovisuais de comunicação tornou
patente desde o século passado como vinha mudando o exercício da cidadania.
Segundo ele, estes meios eletrônicos que fizeram irromper as massas populares
na esfera pública foram deslocando o desempenho da cidadania em direção às
práticas de consumo. E assim foram se estabelecendo outras maneiras de se
informar, de entender as comunidades a que se pertence, de conceber e exercer
os direitos. Canclini vincula consumo e cidadania salientando que a cidadania
hoje se faz mais pelo consumo do que eminentemente pelos velhos agentes como
partidos, sindicatos. Isso, em parte, porque estes foram um pouco substituídos
pelos meios de comunicação e depois porque devido a tais meios houve uma
reestruturação geral das articulações entre o público e o privado.
Mas para articular consumo e cidadania é preciso desconstruir as concepções que julgam o consumidor como
passivo, com comportamentos irracionais, supérfluos. Segundo o autor, o consumo
também serve para pensar porque quando selecionamos os bens de que nos
apropriamos, definimos o que consideramos publicamente valioso, o modo como nos
integramos na sociedade e como combinamos o pragmático ao aprazível. Ser
cidadão hoje, segundo ele, não tem a ver apenas com os direitos reconhecidos
pelos aparelhos estatais para os que nasceram num determinado território mas
também com as práticas sociais e culturais que dão o sentido de pertencimento a
um mesmo grupo. Os direitos são vistos não como valores abstratos mas como algo
que se constrói e que muda em relação a práticas e discursos.
Segundo Sousa
(1995) a partir de 1980 têm aumentado as análises sobre a interação entre
recepção e comunicação. A Teoria da Recepção surge tentando distanciar-se da
tese da manipulação/alienação mas sem cair na hipervalorização da audiência
proposta pela tese dos “usos e gratificações”. A posição apocalíptica em
relação aos MCM é criticada principalmente a partir dos anos 80. Segundo Dieter
Prokop (apud Magno, s/d) existem posicionamentos e opiniões que se formam ao
longo da história de vida do sujeito e que são mais influentes que os MCM.
Segundo ele, não há necessidades falsas que forcem os receptores e fazer coisas
que não querem, não há a ditadura dos meios. Magno nos lembra, no entanto, que
não podemos cair no lado oposto de achar que não existe manipulação. A
manipulação existe só que ela é sutil, subliminar a não chega a ser formadora
de padrões de comportamento e de conduta definitivos.
No caso brasileiro, por exemplo, as questões ligadas
ao sujeito são quase sempre remetidas às dimensões da psicologia, da filosofia
ou da política; já as questões da recepção são ainda vinculadas a estudos de
audiência, de opinião pública, de consumo ou a áreas como publicidade,
marketing, pesquisas de opinião, etc. Os estudos do sujeito e os estudos do
receptor tinham uma visão completamente distinta. O modelo funcionalista foi, desde o início dos estudos brasileiros,
o eixo de análise da comunicação. Nele o receptor é o indivíduo reificado
enquanto peça de um sistema, indivíduo-mercadoria. Embora este tenha sido um
dos modelos predominantes nas pesquisas da área muitos são os modelos que
influenciaram os estudos em comunicação e, conseqüentemente, o estudo do
receptor.
Assim Itânia ressalta que o conceito de receptor é
hoje um conceito geral que designa qualquer indivíduo humano na situação em que
participa de qualquer processo comunicativo. A recepção vem sendo entendida
significando desde o uso ou o consumo dos meios de comunicação de massa até os
processos gerais de produção de sentido. Os investigadores da recepção
pretendem que ela seja um lugar novo, de onde o processo comunicativo deva ser
repensado.
Nas duas tradições citadas por Itânia
e comentadas por Magno: a Teoria dos Efeitos e a Teoria da Recepção percebe-se
implícito um conceito de cultura. Na Teoria dos Efeitos o produto cultural
transmitido pela TV é algo acabado, selecionado e orientado para o receptor. A
cultura é produzida por poucos e para poucos. Daí, falar em cultura de massa é
desvalorizar a cultura, que não é vista como algo para todos, mas para uma
determinada elite. É a chamada alta cultura. O receptor, nessa perspectiva, é
alguém que apenas recebe o produto já pronto e age sobre ele como esperado. O
receptor não é sujeito, é passivo.
Na Teoria da Recepção originou-se de
um novo entendimento do conceito de cultura. Ao perceber-se que o receptor age
sobre os produtos de forma diferente deformando e recriando os produtos
percebe-se que ele também faz parte da produção, ele também produz um outro
produto ao modificar o uso para o qual este foi pensado. A cultura passa a ser entendida
como um "processo inteiro" por meio do qual o significado e as definições
são socialmente construídos. A cultura é essa rede de práticas e relações que
constituem a vida cotidiana. A cultura é produzida socialmente e transformada
em seu uso num processo constante. Ë um conceito totalmente diferente do
anterior no qual havia um ponto final para a produção cultural: o consumo do
receptor. Os estudos atuais percebem que o receptor continua a produção
modificando usos, significados num processo sem fim.
Foi esse deslocamento do conceito de
cultura da tradição elitista para as práticas cotidianas que tornou possível o
desenvolvimento dos Estudos Culturais.
Os Estudos Culturais, segundo Itânia,
procuram conceber os meios como forças sociais e políticas cuja influência é
indireta e sutil e se distinguirão como uma corrente de investigação que põe
sua atenção no processo ativo e consciente da construção de sentido na cultura
pensando a cultura como expressão dos processos sociais. Assim, os Estudos
Culturais tentam superar a concepção da comunicação oriunda do modelo
matemático, informacional na medida em que procuram compreender os meios de
comunicação no interior da sociedade e compreender a recepção dos meios,
principalmente televisivos, buscando compreender a complexidade e as
contradições da experiência cultural nas sociedades entendendo os meios como
constitutivos das práticas sociais.
Hoje nos defrontamos com a pluralidade: os meios não
existem isolados e as pessoas não se expõem a eles isoladamente: eles fazem
parte da prática social tanto na esfera da produção quanto na do consumo. Além
disso ainda reconhecemos que há uma diversidade de gêneros, formatos e linguagens presentes na interação
produção/consumo.
Sousa
ressalta que em 1986 expressou-se uma postura política nova em relação aos
meios de comunicação: a ligação entre o individual e o social. Hoje a
coletividade os usa para como um lugar para construir a sua imagem, eles são
meios de simbolização social.
Atualmente o estudo da interação comunicação-cultura
tem como base a noção de cotidiano, de prática de pessoas e grupos sociais e é
tomado em sua conotação mais ampla como “produção, circulação e consumo de
significações”. A cultura se situa no interior dessas práticas nas quais se dão
as significações. É essa a visão com que o termo cultura vem sendo trabalhado
especialmente nos países da América Latina. A comunicação e, consequentemente,
o receptor é visto com base nessas práticas sociais, ou seja, nessa visão de
cultura.
Sousa mostra que os meios de
comunicação são vistos como expressão de uma instância pública que indaga e
reconhece os espaços de construção de valores. Os valores, longe de serem
expressão de sentido dado apenas pelo produtor ou pelo receptor, são os que
exprimem o processo no qual ocorrem. Nesse sentido, a noção de mediação é
fundamental e procura-se qualificá-la no receptor, no emissor, no processo
grupal, social, etc. Esta estratégia não elimina e nem inocenta o espaço do
emissor ou do receptor mas busca-os em
seu contexto.
A cultura, segundo Barbero, é o
espaço do qual emergem as mediações, é o aspecto que entrelaça e relaciona os meios,
literatura, conteúdos aos receptores, leitores , estudantes. Por isso, ela é um
espaço privilegiado de estudo da constituição do sujeito. É através dela que se
constroém as produções de sentido dos receptores.
Embora esse sujeito ainda não esteja
configurado teoricamente, sabe-se que ele ocupa um espaço contraditório, o da
negociação, o da busca de significações e de produções de sentido na vida
cotidiana. O receptor deixa de ser visto como consumidor de supérfluos
culturais ou produto massificado, apenas por que consome, mas resgata-se nele
também um espaço de produção cultural; é um receptor em certas situações e sob
determinadas condições.
Mattelart (apud Magno, s/d) afirma
que no contexto da sociedade pós-moderna emergente será preciso entender a
comunicação como um processo dialógico onde a verdade não será mais única mas
nascerá da intersubjetividade. Mostra que entre os teóricos da comunicação da
atualidade já é consenso a idéia do receptor como possuindo uma condição ativa
e crítica no processo de comunicação. A recepção deve ser entendida como um
contraditório espaço de trocas em que o receptor é ativo interagindo,
interpretando e reelaborando as informações e imagens.
Benjamin e Mc Luhan ( apud Itânia,
s/d) entendiam os meios como mediadores da relação entre o homem e o mundo,
mediadores no sentido de que a sua presença “modifica” a forma de perceber o
mundo e não causa apenas um impacto linear de “resposta” à sua presença mas
modifica a longo prazo a forma de relacionar-se com o mundo e de percebê-lo.
A educação, as artes passam por transformações
semelhantes. Enquanto na comunicação valorizava-se os meios de comunicação, na
educação valorizava-se os conteúdos e na literatura valorizava-se as obras. O
significado estava nos meios, nos conteúdos ou nas obras mas não no sujeito. Ou
melhor, em cada uma das áreas aqui citadas procurava-se "delimitar" o
espaço possível de construção do sujeito, tábula rasa, que tinha que perceber a
intenção do autor pois o valor, o sentido das produções era definido pelo seu
autor, o único que tinha liberdade para
interpretá-la.
No momento em que passa-se a ver um
sujeito produtor de significados não-determinados na comunicação vemos que
processos simultâneos acontecem em outras áreas como na educação e na
literatura, por exemplo. O interesse dos estudos volta-se integralmente para o
sujeito que atribui significados: receptor, consumidor, estudante, leitor. E
mudamos totalmente o foco dos estudos.
Atualmente busca-se entender como estes
constróem tais significados e como é seu processo de formação e atribuição de
significados. Esta é uma questão difícil. Já se percebe que os significados não
podem ser construídos somente individualmente, mas socialmente. Em qualquer
área na qual se pretenda compreender
tal processo teremos que levar em consideração os aspectos sociais dessa
construção de significados. Mesmo assim, muitos ainda são os fatores que se
entrelaçam e que tecem essa rede da relação entre meios de comunicação,
literatura, conteúdos e os nossos receptores, leitores, estudantes. Descobrir
partes dessa teia é o objetivo e o desafio da maioria das pesquisas nessas
diferentes áreas.
BIBLIOGRAFIA:
BARBERO, J. Martin. Dos meios às mediacões - comunicação,
cultura e hegemonia. Rio de Janeiro, Editora da UFRJ, 2001.
CANCLINI, Néstor. Consumidores e
cidadãos: conflitos multiculturais e globalização. Rio de Janeiro: editora da
UFRJ, 1999.
GOMES, Itânia Maria Mota. A atividade do receptor, um modo de se
conceber as relações entre Comunicação e Poder. In: Revista Itercom, n 37,
s/d em http://www.intercom.org.br/papers
SILVA, Magno Medeiros da. As concepções do sujeito receptor. In:
Revista Intercom, ?,s/d em http://www.intercom.org.br/papers
SOUSA, Mauro Wilton de. Recepção e
Comunicação: a busca do sujeito. In: SOUSA, Mauro Wilton de. Sujeito, o lado
oculto do receptor. São Paulo: Brasiliense, 1995.
[1] Citação extraída do livro de BARBERO, J. Martim e REY, Gérman. Os exercícios do ver. Editora Senac, 2001.