A estética da recepção:
colocações gerais
Hans Robert Jauss
por Livia Lazzaro,
com colocações feitas no
debate
entre os demais alunos e o professor
O texto de Jauss possui uma
particularidade valiosa para os que estão redigindo uma dissertação de
mestrado: é um bom exemplo de como apresentar questões e pressupostos teóricos
e de como colocar o leitor em sua linha de raciocínio. O autor opta por iniciar
o texto com uma pergunta, e não uma pergunta qualquer. Ele vai direto ao
assunto: "que significa a experiência estética, como ela tem se
manifestado na história da arte, que interesse pode ganhar para a teoria
contemporânea da arte?" Já somos colocados num estado de suspense. Sabemos
que ele está interessado em história da arte. Não numa história da arte
tradicional, aquela que percorre estilos, datas e artistas diacronicamente, mas
numa história da arte que investigue a 'experiência estética'. Além disso, ele
também nos revela interesse pela teoria contemporânea da arte e de como essa
'experiência estética' está implicada. Ou seja, uma boa pergunta inicial que
concilia a exposição da área de interesse do autor e que envolve o leitor no
cerne de suas questões.
Jauss termina esse primeiro
parágrafo enfatizando que o enfoque sobre a práxis estética deve ser repensado.
Ele coloca a atividade artística como uma atividade produtora, receptiva e
comunicativa. Essa tríade é de central importância na argumentação dele. Em
contrapartida ao caminho que será tomado nessa argumentação ele apresenta os
caminhos já trilhados pela história da arte, mais especificamente, a teoria
estética e a hermenêutica*[1]
literária. Por muito tempo os cânones desses debates foram problemas legados
pela ontologia e metafísica do belo; a polaridade entre arte e natureza; o
belo, a verdade e o bem; forma e conteúdo; forma e significação etc. O legado
platônico sempre concedeu à busca da verdade na e pela arte primazia sobre o
próprio estudo da experiência da arte, e é para essa lacuna que Jauss olha.
Nesse momento é feito, em
sala de aula, um esclarecimento a respeito da palavra ‘significação’.
Significação, em teoria da comunicação, quer dizer processo de produção de
sentido. Ou seja, a forma seria a coisa em si, o objeto, o referente, e a
significação é o referente processado até encontrar sentido dentro da concepção
do observador, de acordo com o repertório e capacidade de cada um.
Jauss
continua apresentando o cenário. Apesar de obras de peso como a poética
aristotélica e a Crítica da Faculdade do Juízo, de Kant, ou até mesmo a
análise do mass media discutirem os 'efeitos da arte', ele afirma não
ter surgido ainda uma tradição para o debate da experiência estética. E aponta
para isso a influência da estética hegeliana que define o belo como o
aparecimento sensível da idéia, voltando a discussão para as teorias
histórico-filosóficas da arte.
Desde então,
as histórias da literatura e da arte nos transmitem o produto (a obra de arte)
já objetivado. É considerado o lado produtivo da obra – o lugar da obra de arte
em seu tempo, em relação a seus autores e às obras contemporâneas – porém
raramente o receptivo e quase nunca o comunicativo. Com isso se perde o
entendimento da experiência daqueles que, na atividade produtiva, receptiva e
comunicativa, desenvolveram in actu a práxis histórica e social.
Aqui entramos
com a discussão sobre a ambição que temos, legado do positivismo e
cientificismo do século XIX, em catalogar tudo, em colocar todas as coisas em
hierarquias significativas para se formular futuros possíveis. Se isso fosse
possível realmente, estaríamos suspendendo a necessidade e a própria existência
da experiência. Se pudéssemos codificar / decodificar todo material imagético,
por exemplo, e estabelecermos suas relações com o leitor/observador a priori,
estaríamos subestimando a importância e inexorabilidade da experiência entre as
duas partes.
As perguntas
de Jauss percorrem os temas da:
_ práxis
estética;
_
sua manifestação histórica nas funções básicas da Poiesis, Aisthesis
e Katharsis
(as atividades produtiva, receptiva e comunicativa);
_ o prazer
estético como a orientação fundamentadora;
_ e a relação
de vizinhança da experiência estética com outras áreas de significação da
realidade cotidiana.
O cuidado na
apresentação de seus pressupostos teóricos e opções metodológicas pode ser
atestado pela frase na qual ele sintetiza: "Permanecerá neste contexto o
problema central de como se realizar, de forma metodicamente controlável, o
realce e a fusão dos horizontes da experiência estética contemporânea e
passada." O problema de Jauss é entender como se apreciou e se aprecia uma
obra de arte em momentos diversos de realidades históricas diferentes. Ao
contrário da tradição, ele não concorda com uma história da arte unívoca, que
pressuponha e mesma experiência do Renascimento nos dias de hoje. Jauss quer
compreender como funcionam as re-significações na experiência de fruição da
obra de arte e para isso se declara convicto de que a experiência relacionada a
arte não pode ser privilégio dos especialistas e que a reflexão sobre as
condições desta experiência tampouco há de ser um tema exclusivo da
hermenêutica filosófica ou teológica.
Jauss nos faz
lembrar de um fator muito importante para o estudo da recepção: o momento da
experiência primária e o do ato de reflexão são diferentes. "A experiência
estética não se inicia pela compreensão e interpretação do significado de uma
obra, menos ainda, pela reconstrução da intenção de seu autor. A experiência
primária de uma obra de arte realiza-se na sintonia com seu efeito estético,
i.e., na compreensão fruidora e na fruição compreensiva." Ele ressalta a
tarefa da hermenêutica literária nesse sentido: "diferenciar metodicamente
os dois modos de recepção (...), aclarar o processo atual em que se concretizam
o efeito e o significado do texto para o leitor contemporâneo e, de outro,
reconstruir o processo histórico pelo qual o texto é sempre recebido e
interpretado diferentemente, por leitores em tempos diversos." A formação
do juízo estético se baseia nas instâncias de efeito e recepção comparando-se
os 'dois efeitos' de uma obra, o atual e o desenvolvido historicamente (a obra
ao longo do tempo).
Jauss em
seguida nos insere no contexto universitário no qual as questões de sua teoria
da recepção nasceram, foram trabalhadas e até mesmo não vingaram. Ele menciona
a reforma universitária alemã na década de 1960 e a criação da Escola de
Konstanz sob o interesse da revisão da auto-imagem da teoria da ciência.
Pesquisadores como Jauss e Wolfgang Iser estavam preocupados com abandono dos paradigmas da compreensão histórica
em prol do estruturalismo, sucesso na lingüística e na antropologia. Nos
estudos literários permaneciam impasses vindos da história positivista, do
método interpretativo, da literatura comparada. Os modelos e 'taxinomias
perfeitas' do estruturalismo não estavam dando conta disso. A Escola via a
necessidade de se restaurar o processo dinâmico de produção e recepção do texto
e da relação dinâmica entre autor e leitor, utilizando-se para isso a
hermenêutica da pergunta e resposta.
A Escola teve
um êxito inesperado. A teoria da recepção logo entrou no fogo cruzado do debate
entre crítica ideológica e hermenêutica, mas despertou um novo interesse de
pesquisas em histórias da recepção e sociologia da literatura, as disciplina
que promoveram essa mudança de paradigmas. Narrando mesmo uma 'história da
história da recepção', Jauss conta que essa mudança não se restringiu à
Alemanha. A demanda latente do mundo acadêmico no assunto fez com que ele
encontrasse eco desde Praga até Paris, culminando na discussão entre Habermas e
Gadamer que revalorizou a experiência humana no mundo (e a comunicação como
condição da compreensão do sentido) em detrimento do objetivismo e empirismo da
busca pela ciência unitária.
A comunicação
é um fator bastante relevante no estudo preconizado por Jauss. Ele diz:
"para a análise da experiência do leitor ou da 'sociedade de leitores' de
um tempo histórico determinado, necessita-se diferenciar, colocar e estabelecer
a comunicação entre os dois lados da relação texto-leitor." Os termos
'efeito' e 'recepção' são explicados a seguir. 'Efeito' é o momento
condicionado pelo texto e 'recepção' é o momento condicionado pelo
destinatário, o leitor. O sentido se realiza na junção desses dois momentos: o
implicado pela obra e o trazido pelo leitor de uma determinada sociedade. Ele procura
com isso discernir como expectativa e experiência se encadeiam, pois são esses
os motores do processo de significação. O maior problema para a concretização
dessa análise é o fato de que o horizonte de expectativas de uma determinada
sociedade num determinado tempo nem sempre é clara pelas análises históricas.
Jauss coloca como dúbia uma análise sobre o comportamento do leitor fundada no
estudo de classes sociais e camadas.
Em relação à
ainda incipiente tradição de pesquisa em experiência estética, Jauss comenta a
necessidade de se ir buscar em disciplinas vizinhas fonte e fundamentos
teóricos para o desenvolvimento desses estudos. Ele revela abertamente sua
posição ao se apoiar nas pesquisas e resultados de outros acadêmicos e acentua
que o estudo sobre a experiência estética deve ser feito pelo prisma da
interdisciplinaridade. Cita contribuições de Ernst Bloch, Freud, Starobinki,
Sarte, Iser, Lotman ente outros, como fundamentais para o empreendimento dessa
compreensão. Declaradamente primando a via histórico-hermenêutica na definição
das funções da experiência estética, Jauss faz questão de lembrar a crítica de
Sartre contra as teorias da chamada semiótica parisiense que, segundo Sartre,
absolutizam a obra como écriture, afastam o leitor e esquecem que a
literatura é comunicação.
Esse
absolutismo da obra de arte sobre a experiência e a comunicação aconteceu em
todas as atividades artísticas. O cinema também parecia ‘se bastar’, também
parecia conter em si todas as explicações possíveis e todos os caminhos que
levariam até ele e dele sairiam. O que é ignorado em abordagens como essas é
que todo conhecimento e, obviamente, experiência são históricos. O filme que se
propõe a contar uma história hoje com determinada finalidade, pode ser lido de
forma totalmente diversa num outro momento social. E não podemos querer
controlar os meios pelos quais isso acontecerá porque não podemos, como se diz,
‘parir o futuro’.
Jauss
prossegue mencionando quais teóricos foram suas influências, positivas ou
contrárias. John Dewey especificou a experiência estética como
"qualidade" inerente de toda experiência realizada. Jan Mukarovsky a
definiu como o princípio transparente da função estética, que é capaz de captar
e dinamizar todas as demais atividades. Apesar desses estudos mais antigos, da
década de 1930, os pressupostos subjetivos e a delimitação da experiência
estética permaneceram em aberto.
Walter
Benjamim definiu a experiência estética a partir do conceito de aura. Herbert
Marcuse atacou a cultura idealista da época burguesa, considerou a experiência
estética vigente suspeita de corroboradora do satus quo e fundamentou a
esperança em uma organização melhor na liberação do ideal, através da
emancipação da experiência sensível do belo. Jauss revela ter tirado o impulso
para sua pesquisa e seus pressupostos metodológicos da hermenêutica filosófica
de Gadamer. São eles: a teoria da experiência hermenêutica, a explicação
histórica dos conceitos humanísticos fundamentais, seu princípio de reconhecer
na história do efeito o acesso a toda a compreensão histórica e as solução do
problema da realização controlável da 'fusão do horizonte'. Em Adorno –
responsável pela ‘desligitimação’ de toda a arte moderna –, Jauss reconhece o
adversário que o provocou à busca de assumir o papel de apologista da
experiência estética, até então posta em descrédito. A partir dessa afirmação,
Jauss explica porque tomou partido apologético da experiência estética:
“(...) a
produção e reprodução da arte, mesmo sob as condições da sociedade industrial,
não consegue determinar a recepção: a recepção da arte não é apenas um consumo
passivo, mas sim uma atividade estética, pendente da aprovação e da recusa, e
por isso, em grande parte não sujeita ao planejamento mercadológico. (...) para
sair do suposto ‘contexto de enfeitiçamento’ total da práxis estética
contemporânea, restaura-se, sem se dizer, a obra de arte revestida de aura e
sua contemplação solitária, como medida estética de uma essencialidade
perdida.”
Voltamos,
portanto à questão do platonismo e do ascetismo preconizado por Adorno.
“A teoria de
Adorno (...) despertou (...) o preconceito de que a arte de uma elite cultural
cada vez maior, diante da multidão crescente de consumidores da indústria
cultural, não tem mais salvação. Mas o contraste entre uma arte de vanguarda,
apenas voltada para a reflexão, e uma produção do mass media, apenas
voltada para o consumo, de modo algum faz justiça a situação atual. (...)
Tampouco está provado que a experiência estética, tanto da arte contemporânea
quanto da arte do passado, que, pelo mass media, já não só atinge uma
camada culta, mas se abre para um círculo de destinatários até hoje nunca
alcançado, deva inevitavelmente degenerar numa relação consumista e
corroboradora do status quo.”
Jauss lança a
pergunta fundamental e se posiciona rumo à conclusão de suas idéias:
“Em que a
teoria estética pode contribuir para a solução do problema, a partir de sua
própria competência e tradição, se a mudança, tantas vezes prognosticada, de
toda experiência estética comunicativa em um função apenas ideológica é o
destino inevitável da arte contemporânea?”
Ao falar das
razões pelas quais “a função normativa da experiência estética (...) não há de
(...) resvalar na adaptação, ideologicamente dirigida, e que haja de terminar
na pura afirmação do status quo”, Jauss olha para a história e nos
lembra que:
“(...) houve
épocas no passado em que a sujeição da arte tornava muito mais verossímeis os
prognósticos sobre sua decadência. A proibição de imagens, por exemplo, que
ressurgiu periodicamente durante o domínio da Igreja, por certo não era um
perigo menor à práxis estética do que a inundação de imagens através de nossos mass
media. (...) E, no entanto, de cada fase de hostilidade à arte, a
experiência estética emergiu numa forma nova e inesperada, seja esquivando-se
da proibição, seja reinterpretando os cânones, seja descobrindo novos meios de
expressão (...).”
Jauss ainda
expõe outra característica intrínseca à experiência estética que o motiva a
pensar que ela não sucumba à idolatria do status quo:
“Esta
rebeldia básica da experiência estética evidencia-se (...) por sua permissão
(...) de colocar perguntas indiscretas ou de sugerir veladamente pela ficção
(...) o predomínio de uma visão de mundo. Esta função transgressora de pergunta
e resposta encontra-se nos caminhos clandestinos da literatura ficcional, assim
como no caminho real dos processos literários (...) [que] enquanto veículo de
emancipação pode plenamente concorrer com o pensamento filosófico.”
Aquela
pergunta de ‘como a arte poderá negar o satus quo e, não obstante,
formar normas”, Jauss rescreve de outro modo: ‘como poderá prescrever normas
para a ação prática, sem as impor, de modo que sua normatividade só se imponha
pelo consenso dos receptores?’ Dita dessa nova forma, a idéia de Jauss
incorpora um conceito importantíssimo que o conduzirá à conclusão parcial desse
capítulo, o conceito de ‘consenso’.
Ele busca em
Kant, na explicação sobre o juízo de gosto, a significação para a práxis da
ação da conduta estética:
“O juízo de
gosto não postula por si mesmo a adesão de cada um (pois só o juízo lógico
universal pode fazê-lo, porque pode apresentar razões); ele apenas atribui a
cada um esta adesão como um caso de regra, em vista do qual espera a
confirmação, não a partir dos conceitos, mas pelo acordo dos outros. Por
conseguinte, a experiência estética não se distingue apenas do lado de sua
produtividade, como criação através da liberdade, mas também do lado de
sua receptividade, como “aceitação em liberdade.”
Jauss
conclui:
“À medida que
o julgamento estético pode representar tanto o modelo de um julgamento
desinteressado, não imposto por uma necessidade, quanto o modelo de um consenso
aberto, não determinado a priori por conceitos e regras, a conduta
estética ganha, indiretamente, significação para a práxis da ação.”
“O que de
início poderia parecer uma deficiência do juízo estético – i.e., que possa ser apenas
exemplar e não necessário pela lógica – mostra-se como seu traço peculiar:
o fato de o juízo estético depender do consenso de outrem possibilita a
participação em uma norma em formação, e, ao mesmo tempo, constitui a
sociabilidade. Kant reconheceu no juízo de gosto, necessariamente pluralístico,
a capacidade de juízo sobre tudo aquilo através de que se pode transmitir a
qualquer um até o seu próprio sentimento.”
Traçando uma
analogia com o ‘Contrato Social” de Rousseau, Jauss finaliza:
“O juízo
estético, que exige de cada um a busca de uma comunicação universal, satisfaz
um máximo interesse, pois resgata, esteticamente, uma parte do contrato social
originário: ‘Também cada um espera e exige que se busque uma comunicação
universal com os outros, como se fosse por conseqüência de um contrato
original, ditado pela própria humanidade.’”
Ao final da
exposição do texto, entramos na discussão de que toda linguagem, por almejar
ser língua, também precisa de um acordo social, de se validada e reconhecida no
trânsito ‘criação – comunicação – recepção’. Falamos também de como está
implícito nesse ‘acordo’ a familiaridade imprescindível para o reconhecimento e
aceitação do receptor. Isto é, o controle por parte do receptor que vai
permitir que ele viva a experiência estética, passa pela sensação de domínio da
situação. Tudo o que é desconhecido incomoda, abala o receptor. A medida desse
incômodo, para que haja ou não a experiência estética, é uma dessas normas que
são possíveis na prática consensual. A questão do gosto passa por uma escala de
valores, e são esses valores, definidos na práxis da experimentação (i.e., na comunicação,
no embate obra-receptores), que permitirão adesão ou rejeição estética.
Por fim,
falamos da ‘pragmática da comunicação humana’ (livro de Paul Vlatslavek)
segundo a qual não se pode ‘não se comunicar’, não se pode ‘não pressupor.’ No
processo contínuo e, muitas vezes, subconsciente, de classificação humana,
atitudes como dedução, indução e analogia são tomadas a todo momento, sem que
possamos refreá-las. Ou seja, as regras se fazem em jogo. Assim como vimos que
todas as sociedades têm teatro, que funciona como um ‘treinamento de
realidade’, o jogo é uma metáfora de construção de regras, da vida em
sociedade.
[1] hermenêutica: teoria da interpretação de vários sinais como símbolos de uma cultura / arte de interpretar leis.