Departamento de Artes e Design • Mestrado em Design – 2001.1

Disciplina:

Tópicos especiais em Design I - A imagem simbolica: virtualidade

Professor:

Luiz Antônio L. Coelho

Aluno:

Hiran Ferreira de Lira

Texto:

Virtualizações - J.F.Lyotard

 

Desde a primeira pintura rupestre à primeira ferramenta criada o homem vem virtualizando suas relações.

A tecnologia vem mudando, ao longo do tempo, as relação entre o ser humano e o mundo em que vive. O desejo e a necessidade de modificar e dominar este mundo fez com que sempre buscasse formas de ampliar ou aprimorar a sua capacidade, o seu potencial de interferir.

Se buscarmos uma definição para o termo “virtual” encontraremos definições que, a princípio, parecerão contraditórias. Por um lado o virtual pode representar a potencialidade de realização. Por outro, pode ser o determinismo de que a realização da ação não é só possível mas, também inexorável.

Ainda teríamos uma terceira posição onde o virtual é visto intrinsecamente ligado a tecnologia, mais precisamente à informática e à eletrônica enquanto processo de simulação.

O surgimento da linguagem permitiu que o homem desenvolve-se o conceito de temporalidade. Como o tempo só existe completamente de modo virtual.

Deste modo a linguagem é uma das mais intensas formas virtualizadoras do ser humano. Quanto mais desenvolvida ela for, maior será seu poder de virtualização.

"As linguagens humanas virtualizam o tempo real, as coisas materiais, os acontecimentos atuais e as situações em curso. Da desintegração do presente absoluto surgem, como as duas faces de uma criação, o tempo e o fora-do-tempo, o averso e o reverso da existência. Acrescentando ao mundo uma dimensão nova, o eterno, o divino, o ideal têm uma história. Eles crescem com a complexidade das linguagens. Questões, problemas, hipóteses abrem buracos no aqui e agora, desembocando, no outro lado do espelho, entre o tempo e a eternidade, na existência virtual."

As relações também passam por um processo de virtualização. Instituições como o casamento, acordos comerciais, padrões comportamentais são regidos por documentos que estabelecem normas e regras. Estas não são nada mais além de uma antecipação de problemas que virtualmente poderão advir destas relações.

"Relacionamentos virtuais coagulados, como é o caso dos contratos, são entidades públicas e compartilhadas no seio de uma sociedade. Novos procedimentos, novas regras de comportamento se articulam sobre as precedentes. Um processo contínuo de virtualização de relacionamentos forma aos poucos a complexidade das culturas humanas: religião, ética, direito, política, economia. A concórdia talvez  não seja um estado natural, uma vez que, para humanos, a construção social passa pela virtualização."

Lyotard, parece se preocupar com a relação entre arte e comunicação quando exemplifica e questiona através de duas frases que a princípio, como a própria definição do virtual, também são contraditórias:

"Nenhuma obra de arte deve ser descrita ou explicada sob as categorias da comunicação"

 

"Seria mesmo possível definir o gosto como a faculdade de julgar aquilo que torna nosso sentimento, procedente de uma dada representação, universalmente comunicável sem a mediação de um conceito."

Na primeira frase do filosofo Adorno, afirmasse que Arte não é comunicação, em principio, por não existirem os processo normalmente envolvidos na comunicação.

Na segunda frase, de autoria do também filósofo Kant, é apresentada a idéia que a Arte pode ser comunicação mas, a relação entre o emissor e o receptor se modifica de um indivíduo para o outro. A linguagem utilizada pela manifestação artística pressupõe a existência de códigos entre as partes envolvidas, mas estes não estão claramente definidos pois variam de acordo com a bagagem emocional e cultural de cada indivíduo.

Adorno propõe ainda que na comunicação é implicitamente necessária a idéia de que, se existe tal coisa na arte e através da arte, deve ser sem conceito.

Em contraponto a isso, Kant diz que existe uma forma de pensar a arte que não é um pensamento da não comunicação, mas sim da comunicação não conceitual.

Outra questão colocada por Lyotard é que se a Arte, como comunicação não conceitual faz uso da tecnologia e de seus conceitos pode ainda ser denominada Arte?

Demonstrando sua preocupação ao afirmar que a Arte gerada tecnologicamente teria problemas conceituais por propor que situações calculadas sejam apresentadas como estéticas.

Ora, a Arquitetura, o cinema e os quadrinhos só para citar algumas manifestações artísticas fizeram e fazem uso de “situações calculadas propostas esteticamente”.

No entanto é impossível prever o real impacto que será causado por estas manifestações da Arte.

A Arte é inicialmente assimilada pelo sentimento e depois pela inteligência. Independente dos conceitos a Arte sempre afetou a percepção humana. Em maior ou menor intensidade ou de um modo agradável ou não.

"A ciberarte vai encarnar o imaginário da civilização do virtual. A arte eletrônica contemporânea toca o cerne da civilização do virtual: a desmaterialização do mundo pelas tecnologias do virtual, a interatividade e possibilidades hipertextuais, a circulação (virótica) de informações por redes planetárias. A arte entra no processo global de virtualização do mundo. Compreender a arte desse final de século é compreender o imaginário dessa cibercultura."

"A ciberarte tem no processo de virtualização, digitalização e desmaterialização do mundo a sua força e particularidade. Ela é interativa e atua dentro dos espaços híbridos da cultura contemporânea (o espaço, o tempo e o corpo). Por ser imaterial, a arte eletrônica não se consome com o uso e pode circular ao infinito, escapando da lei entrópica da sociedade de consumo. É nessa circulação frívola de bits que está o coração da arte eletrônica da cibercultura. Mais sensual e intuitiva do que racional e dedutiva, a ciberarte tenta produzir novos espaços de experiências estéticas e interativas, sob a energia do digital."

A tecnologia permitiu ao público uma apropriação da obra de arte. Isso permitiu ao indivíduo assumir uma postura mais ativa em relação ao objeto artístico. Se antes a arte era contemplativa hoje o público pode intervir diretamente no resultado. Exemplificando:

Arte Clássica / Moderna

Contemplativa

Passividade

 

 

Arte Pós Moderna

Interativa

Ação

Interação – Artista / Público

 

A solicitação de uma atividade ou “interatividade” nos dá, pelo contrário, uma prova de que seria preciso intervir mais, de que nós acabamos com o sentimento estético.

Supondo que os espíritos angustiam-se por não intervir na produção do produto. Não ser contemplativo é uma espécie de mandamento implícito, a contemplação é vista como uma passividade desvalorizada.

A virtualização, em geral, é uma guerra contra a fragilidade, a dor, o desgaste. Em busca de segurança e do controle, perseguimos o virtual porque nos leva para regiões ontológicas que os perigos ordinários não mais atingem. A arte questiona essa tendência, e portanto virtualiza a virtualização, porque busca num mesmo movimento uma saída do aqui e agora e sua exaltação sensual. Retoma a própria tentativa de evasão em suas voltas e reviravoltas. Em seus jogos, contém e libera a energia afetiva que nos faz superar o caos. Numa última espiral, denunciando assim o motor da virtualização, problematiza o esforço incansável, às vezes fecundo e sempre fadado ao fracasso, que empreendemos para escapar da morte.”

O ser humano sempre buscou a imortalidade. Uma necessidade de deixar a sua marca no mundo. Algumas vezes através de sua prole, outras através de pinturas nas paredes e muros das cidades. No entanto acreditamos que as suas melhores tentativas de imortalização se deram através a arte.

Bibliografia

LÉVY, Pierre. O que é o Virtual?. São Paulo: Editora 34, 1996

PARENTE (Org.), André. Imagem-Máquina: A era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993

LEMOS, André L.M. Arte Eletrônica e Cibercultura http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/lemos/arte.html