
"Conceitua-se a ergonomia como tecnologia projetual das comunicações entre homens e má-
quinas, trabalho e ambiente.
De acordo com a classificação de Mário Bunge para ecnologia, a ergonomia atua tanto como
teoria tecnológica substantiva
quanto como teoria tecnológica operativa.
Como teoria tecnológica substantiva, a ergonomia busca, através de pesquisas descritivas e ex-
perimentais, sobre limiares, limites e capacidades humanas (a partir de dados da fisiologia, da
neurofisiologia, da psicofisiologia, da psicologia, da psicopatologia, da biomecânica - primaci-
almente aplicadas ao trabalho -, bem como da anatomia e da antropometria),fornecer bases ra-
cionais e empíricas para adaptar ao homem bens de consumo e de capital, meios e métodos de
trabalho, planejamento, programação e controle e processos de produção, sistemas de informa-
ção.
Como teoria tecnológica operativa, a ergonomia objetiva, através da ação, resolver os proble-
mas da relação entre homem, máquina, equipamentos, ferramentas, programação do trabalho,
instruções e informações, solucionando os conflitos entre o humano e o tecnológico, entre a in-
teligência natural e a 'inteligência' artificial nos sistemas homens-máquinas.
Tais conflitos se expressam através de custos humanos do trabalho para o operador - fadiga,
doenças profissionais, lesões
temporárias ou permanentes, mutilações, mortes - e de acidentes,
incidentes, erros excessivos, paradas não controladas, lentidão e outros problemas de desempe-
nho, assim como danificação e má conservação de máquinas e equipamentos, que acarretam de-
créscimos na produção, desperdício de matérias-primas, baixa qualidade dos produtos - o que
acaba por comprometer a produtividade do sistema homens-máquinas.
Neste momento, como tecnologia operativa, com base nos enfoques sistêmico e informacional,
a ergonomia trata de definir para projetos de produtos, estações de trabalho, sistemas de contro-
le, sistemas de informação, diálogos computadorizados, organização do trabalho, operacionali-
zação da tarefa e programas instrucionais, os seguintes parâmetros: interfaciais, instrumentais,
informacionais, acionais, comunicacionais, cognitivos, movimentacionais, espaciais/arquitetu-
rais, físico-ambientais, químico-ambientais, securitários, operacionais, organizacionais, instru-
cionais e urbanos.
Veja a seguir:
O objeto da ergonomia , seja qual for a sua linha de atuação, ou as estratégias e os métodos
que utiliza, é o homem no seu trabalho trabalhando, realizando a sua tarefa cotidiana, exe-
cutando as suas atividades do dia-a-dia. Esse trabalho real e concreto compreende o traba-
lhador, operador ou usuário no seu local de trabalho, enquanto executa sua tarefa, com suas
máquinas, ferramentas, equipamentos e meios de trabalho, num determinado ambiente físico
e arquitetural, com seus chefes e supervisores, colegas de trabalho e companheiros de equipe,
interações e comunicações formais e informais, num determinado quadro econômico-social,
ideológico e político.
A ergonomia partilha o seu objetivo geral - melhorar as condições específicas do trabalho
humano - com a higiene e a segurança do trabalho. Os organizadores do trabalho também
estudam o trabalho real para determinar procedimentos mais racionais e formas mais pro-
dutivas de efetuar a tarefa. Variam as ênfases, as estratégias, alguns métodos e técnicas.
Imprescindível se faz enfatizar que a ergonomia orienta-se prioritariamente para a aplicação.
Cumpre ressaltar que a singularidade da ergonomia está justamente na sua praxis, que
integra o estudo das características físicas e psíquicas do homem, as avaliações tecnoló-
gicas do sistema produtivo, a análise da tarefa, com a apreciação, o diagnóstico, a proje-
tação, a avaliação e a implantação de sistemas homens-máquinas. O ergonomista, junto com
engenheiros, arquitetos, desenhistas industrias, analistas e programadores de sistema, orga-
nizadores do trabalho, propõe mudanças e inovações, sempre a partir de variáveis fisioló-
gicas, psicológicas e cognitivas humanas e segundo critérios que privilegiam o ser humano.
O atendimento aos requisitos ergonômicos possibilita maximizar o conforto, a satisfação e
o bem-estar; garantir a segurança; minimizar constrangimentos, custos humanos e carga
cognitiva, psíquica e física do operador e/ou usuário; e otimizar o desempenho da tarefa, o
rendimento do trabalho e a produtividade do sistema homem-máquina.
Finalmente, cabe asseverar que a ergonomia tem como centro focal de seus levantamentos,
análises, pareceres, diagnósticos, recomendações, proposições e avaliações, o HOMEM
como ser integral. A vocação principal da ergonomia é recuperar o sentido antropológico
do trabalho, gerar o conhecimento atuante e reformador que impede a alienação do tra-
balhador, valorizar o trabalho como agir humano através do qual o homem se transforma
e transforma a sociedade, como livre expressão da atividade criadora, como superação dos
limites da natureza pela espécie humana". (MORAES, A. de. 1992a).
Para melhor explicitar o conceituação de ergonomia importa aprofundar o que BUNGE
(1975), compreende como tecnologia substantiva e operativa. Uma teoria pode ter rele-
vância para a ação seja por fornecer conhecimentos sobre os objetos da ação (como as
máquinas, por exemplo) seja por tratar da própria ação (como as decisões que precedem
e guiam a fabricação ou o uso de máquinas).
Uma teoria do vôo é do primeiro tipo - substantivo, enquanto a teoria das decisões ó-
timas sobre a distribuição do tráfego aéreo por uma região é do segundo tipo - opera-
tiva. Os dois tipos de teoria são teorias tecnológicas.
As teorias tecnológicas substantivas, que se referem ao objeto da ação, são, essencial-
mente, aplicações de teorias científicas substantivas (em que se baseiam) a situações
aproximadamente reais. Assim, por exemplo, uma teoria de vôo é, fundamentalmente,
uma aplicação da dinâmica dos fluidos.
As teorias tecnológicas substantivas apresentam um estreito contacto com as teorias
científicas.
As teorias tecnológicas substantivas, que se ocupam das decisões que precedem e guiam
as ações, fornecem aos que tomam decisões os instrumentos para planejar e fazer.
As teorias tecnológicas operativas referem-se às operações do complexo homem-má-
quina, em situações aproximadamente reais. Ocupam-se diretamente das ações do ela-
borador de decisões (decisor) e do produtor ou agente. Assim, por exemplo, uma teo-
ria da gestão de linhas aéreas não estuda os aviões, mas sim certas operações do pessoal.
As teorias tecnológicas operativas nascem da investigação aplicada e podem ter pouco
ou nada a ver com as teorias substantivas.
Desse modo, matemáticos e lógicos, com escasso conhecimento prévio das teorias ci-
entíficas do campo substantivo, podem
fornecer importantes conhecimentos a ditas
teorias operativas.
Vale observar que a consideração da ergonomia como tecnologia não significa co-
locá-la no rol dos saberes de segunda classe. Os que clamam pela ergonomia como ciência
certamente desejam valorizá-la.
Cumpre então, com BUNGE (1980), definir tecnologia como:
"um corpo de conhecimento que é compatível com a
ciência contemporânea e controlável
pelo método científico, e é empregado para controlar, transformar ou criar coisas ou pro-
cessos naturais ou sociais".
Como afirma o mesmo BUNGE (1975):
"(...) a interação entre a teoria e a prática e a integração das artes e ofícios com a tecno-
logia e a ciência não se consegue apenas ao proclamar a sua unidade, mas sim através da
multiplicação de contatos e do estímulo ao processo pelo qual os ofícios recebem uma base
tecnológica e a tecnologia se converte totalmente em ciência aplicada. Tal pressupõe a con-
versão das receitas práticas peculiares aos ofícios em regras fundamentadas, isto é em regras
que se fundamentam em leis".
A ergonomia garante com os seus conhecimentos substantivos a proximidade das teorias e
dos métodos científicos.
Junto em conjunto desde a inicialização
para melhor adaptar às especificidades de uso
Vale observar que o trabalho do ergonomista, como atividade conjunta com a do designer,
acompanha todo o desenvolvimento do projeto, como demonstra o fluxograma "Desenvolvi-
mento de Projeto de Produtos, Ergonomia de Produto, Projeto Ergonômico". Na linha de
cima apresentam-se as atividades dos projetistas-arquitetos, designers, engenheiros -, e, na
linha de baixo, as atividades do ergonomista. Deste modo a ergonomia permite configurar o
sistema, definir concepções formais, determinar arranjo de componentes, lado a lado com os
outros projetistas, desde a inicialização do projeto.
[ Curriculum ] [ Ergonomia ] [ Ergomundo ] [ Intervenções ] [ Programa ] [ Links ] [ Bibliografia ] [ Home Page ]